domingo, 25 de julho de 2010

Passagens da Antiguidade Ao Feudalismo de Perry Anderson.

Passagens da Antiguidade

Ao Feudalismo.


Antiguidade Clássica


Passagens da Antiguidade ao Feudalismo

Perry Anderson. São Paulo. Brasiliense, 2000 da pag.18 à 137



MODO DE PRODUÇÃO ESCRAVO


A gênese do capitalismo tem sido objeto de muitos estudos inspirados pelo materialismo histórico, desde que Marx lhe dedicou capítulos célebres de O Capital. Em contraste, a gênese do feudalismo permaneceu em grande parte sem estudos dentro da mesma tradição: como um diferenciado tipo de transição para um novo modo de produção, jamais foi integrada ao corpo geral da teoria marxista. Mas, como veremos, sua importância em relação ao padrão global da História talvez seja apenas pouco menor do que a transição para o capitalismo. O solene julgamento de Gibbon sobre a queda de Roma e o final da antiguidade emerge hoje paradoxalmente, e talvez pela primeira vez, em toda a sua verdade: "uma revolução que será sempre lembrada, e que ainda é sentida pelas nações da Terra". Em oposição ao caráter "cumulativo" do advento do capitalismo, a gênese do feudalismo na Europa derivou de um colapso "catastrófico" e convergente de dois modos de produção distintos e anteriores, e a recombinação de seus elementos desintegrados liberou a adequada síntese feudal, que portanto, sempre manteve um caráter híbrido. Os predecessores do modo feudal de produção foram naturalmente os modos de produção escravo em decomposição, sobre cujos fundamentos todo o enorme edifício do Império Romano fora construído outrora, e os primitivos modos de produção distendidos e deformados dos invasores germânicos, que sobreviveram em suas novas pátrias, depois das conquistas bárbaras. Esses dois mundos radicalmente distintos haviam passado por uma lenta desintegração e uma sutil interpenetração nos últimos séculos da Antiguidade.


Mas qual é modo de produção do feudalismo segundo a teoria marxista?


Para saber como isso aconteceu, é preciso olhar para trás, para a matriz original de toda civilização do mundo clássico. A Antiguidade greco-romana sempre constituiu um universo centralizado em cidades. O esplendor e a solidez da antiga polis helênica e da posterior República Romana, que ofuscaram tantos períodos subseqüentes, traduziam um nível de organização e cultura urbanas que jamais seria igualado em outro milênio. A filosofia, a ciência, a poesia, a história, a arquitetura, a escultura; o direito, a administração, a economia, os impostos; o voto, o debate, o recrutamento – tudo isso chegou a níveis de sofisticação e força inigualáveis. Ao mesmo tempo, esse friso de civilização citadina teve sempre algo do efeito de uma fachada trompe l'oeil (fachada enganosa) sobre sua posteridade. Por trás de toda essa organização e cultura não há uma economia urbana de alguma forma equiparável a elas: ao contrário, a riqueza material que sustentava sua vitalidade intelectual e cívica era extraída de forma esmagadora do campo. O mundo clássico era inalterável e maciçamente rural em suas proporções quantitativas básica. A agricultura representou através de sua história o setor inteiramente dominante da produção, fornecendo invariavelmente as principais fortunas das próprias cidades. As cidades greco-romanas nunca foram predominantemente comunidades de artífices, mercadores ou negociantes: elas eram, em sua origem e principio, conglomerados urbanos de proprietários de terras. Cada agrupamento municipal fosse da democrática Atenas, da Esparta oligárquica ou da Roma senatorial, era essencialmente dominado por proprietários agrários. Sua renda provinha do milho, do azeite e do vinho – os três grandes produtos básicos do mundo antigo, vindos de terras e fazendas fora do perímetro físico da cidade. Dentro dela, as manufaturas permaneciam poucas e rudimentares: o gênero das mercadorias urbanas normais nunca ia muito além dos têxteis, cerâmica, mobília e os utensílios de vidro. A técnica era simples, a demanda limitada e o transporte exorbitantemente custoso. O resultado era que as manufaturas da Antiguidade se desenvolviam tipicamente não por um aumento da concentração, como em épocas posteriores, mas pela descentralização e dispersão, já que a distância ditava maios os custos relativos da produção do que a divisão de trabalho. Uma idéia do peso comparativo das economias urbana e rural do mundo clássico é fornecida pelos rendimentos fiscais respectivos pagos por todos no Império Romano no século IV a.C., quando o comércio da cidade ficou sujeito finalmente a uma arrecadação imperial pela primeira vez, através da collatio lustralis (contribuição especial) de Constantino: a renda deste imposto nas cidades nunca subiu a mais de 5 por cento da taxa imposta às terras.

Certamente, a distribuição estatística da produção nos dois setores não era bastante para diminuir o significado econômico das cidades da Antiguidade. Para um modo homogeneamente agrícola, a renda bruta do comércio urbano podia ser muito pequena, mas superioridade liquida que ela poderia proporcionar a uma dada economia agrária sobre qualquer outra poderia ainda ser decisiva. A precondição desta feição diferenciada da civilização clássica era seu caráter costeiro. A antiguidade greco-romana era essencialmente mediterrânea em sua mais profunda estrutura. O comércio interlocal que a reunia só se podia fazer por água: o transporte marítimo era o único meio viável para as trocas de mercadorias a médias ou longas distâncias. A colossal importância do mar para o comércio pode ser avaliada pelo simples fato de que na época de Diocleciano era mais barato transportar o trigo da Síria para a Espanha – de um extremo ao outro do mediterrâneo – por embarcações do que levar por 120 quilômetros por via terrestre. Não é acidental, portanto que a zona do Egeu – um labirinto de ilhas, baías e promontórios – tenha sido o berço da cidade-estado que Atenas, seu maior exemplo, tenha tido no transporte marítimo os fundamentos de suas fortunas comerciais; que, quando a colonização grega se espalhou pelo Oriente Próximo no período helênico, o porto de Alexandria se tenha tornado a maior cidade do Egito, a primeira capital marítima em sua história; e que Roma, por sua vez situada as margens do Tibre, se tornado uma metrópole costeira.


A água era o meio insubstituível da comunicação e do comércio que tornava possível o crescimento urbano de uma sofisticação e uma concentração bem distantes do interior rural eu havia por trás. O mar era o condutor do brilho duvidoso da Antiguidade. A combinação especifica de cidade e campo que definia o mundo clássico, em ultima instância, só era operacional porque havia um lago em seu centro. O Mediterrâneo é o único grande mar interior em toda superfície da Terra: só ele oferecia a velocidade do transporte marítimo com a proteção terrestre contra os fortes ventos ou ondas em zona geográfica ampla. A excepcional posição da Antiguidade clássica dentro da História universal não pode ser isolada deste privilégio físico.

Em outras palavras, o Mediterrâneo proporcionou o adequado cenário geográfico para a civilização antiga. Seu conteúdo histórico e sua novidade, no entanto, estão na fundamentação social do relacionamento entre e cidade e campo dentro dela. O modo de produção escravo foi uma invenção decisiva do mundo greco-romano, que constitui a base definitiva tanto para suas realizações quanto para seu eclipse. A originalidade deste modo de produção deve ser sublinhada. A escravidão em si tinha existido sob várias formas através da Antiguidade no Oriente Próximo (como aconteceria mais tarde em outros lugares na Ásia); mas ela sempre fora uma condição juridicamente impura – tomando com freqüência a forma de servidão por débitos ou de trabalho penal – entre outros tipos mistos de servidão, formando simplesmente uma categoria muito baixa num continuum amorfo de dependência e falta de liberdade que se estendia bem acima na escala social. Também nunca foi o tipo predominante de apropriação do excedente nas monarquias pré-helênicas: era um fenômeno residual que existia a margem da principal força de trabalho rural. Os impérios Sumérios, Babilônico, Assírio e Egípcio – Estados ribeirinhos construídos sobre uma agricultura irrigada e intensiva que contrastava com as culturas simples de solo seco do futuro mundo mediterrâneo – não eram economias de base escrava, e seus sistemas jurídicos não tinham concepção nítida da propriedade de bens móveis. Foram as cidades-estados gregas que primeiro tornaram a escravidão absoluta na forma e dominante na extensão, transformando-a assim de sistema auxiliar em um modo sistemático de produção. O mundo helênico clássico, é claro, jamais repousou exclusivamente no uso do trabalho escravo. Os camponeses livres, os rendeiros dependentes e os artesãos urbanos sempre coexistiram com os escravos, em variadas combinações, nas diferentes cidades-estado da Grécia. Seu próprio desenvolvimento externo ou interno, além do mais, podia alterar muito as proporções entre escravos e trabalhadores livres, de um século para o outro: cada formação social concreta é sempre é sempre uma combinação especifica de diferentes modos de produção, e as da Antiguidade não eram uma exceção

Mas o modo de produção dominante na Grécia clássica, que governava a articulação complexa de cada economia local e que deixou sua impressão em toda civilização da cidade-estado, foi o da escravidão. Isto também seria verdadeiro para Roma, da mesma forma. O mundo antigo nunca foi contínua ou ubiquamente marcado pela predominância do trabalho escravo. Mas suas grandes épocas clássicas, quando floresceu a civilização da antiguidade – a Grécia, nos séculos V e IV a.C., e Roma, do século II a.C. ao século II d.C. -, foram aquelas em que a escravidão era maciça e generalizada, entre outros sistemas de trabalho. O solstício da cultura urbana clássica também sempre testemunhou o zênite da escravidão; e o declínio de uma, na Grécia helênica ou na Roma cristã, era da mesma forma invariavelmente marcado pelo apagar-se da outra.


A proporção global da população escrava no berço original do modo de produção escravo, a Grécia pós-arcaica, não pode ser calculada com exatidão, pela ausência de quaisquer estatísticas confiáveis. As estimativas mais confiáveis variam enormemente, mas uma avaliação recente é de que a proporção entre escravos e cidadãos livres na Atenas de Péricles estava em torno de 3:2, o número relativo de escravos em Quios, Égina ou Corinto foi em várias ocasiões provavelmente maior; a população hilota sempre ultrapassou bastante a dos cidadãos de Esparta. No século IV a.C. Aristóteles podia observar com naturalidade que "o Estado possuiria escravos públicos até que houvesse três para cada ateniense". Na Grécia clássica, os escravos foram, assim, empregados pela primeira vez na manufatura, na indústria e na agricultura, além da escala doméstica. Ao mesmo tempo enquanto o uso da escravidão se tornava generalizado, sua natureza, de maneira correspondente, se tornava absoluta: ela já não era mais uma forma de servidão relativa entre muitas, no decorrer de uma continuidade gradual, e sim uma condição polarizada da perda completa da liberdade, justaposta a uma nova liberdade sem impedimentos. Pois foi exatamente a formação de uma sub-população escrava nitidamente delimitada o que, inversamente, elevou a cidadania grega a alturas até então desconhecidas de liberdade jurídica consciente. A escravidão e a liberdade helênicas eram indivisíveis: uma era a condição estrutural da outra, num sistema diádico sem precedentes ou equivalentes nas hierarquias sociais dos impérios do Oriente Próximo, que também ignoravam tanto a noção de livre-cidadania quanto à de propriedade servil. Esta profunda mudança jurídica foi em si o correlato social e ideológico do "milagre" econômico forjado pelo advento do modo de produção escravo.


A civilização da Antiguidade clássica representou, como já vimos, a supremacia anômala da cidade sobre o campo numa economia esmagadoramente rural: uma antítese do mundo feudal primitivo que lhe sucedeu. A condição para a possibilidade desta grandiosidade metropolitana na ausência de uma indústria municipal era a existência do trabalho escravo no campo: somente ela poderia liberar uma classe de proprietários de terra tão radicalmente de suas raízes rurais de maneira a poder ser transmutada em uma cidadania essencialmente urbana que ainda assim continuava tirando suas riquezas do solo. Aristóteles expressou a resultante ideologia social da Grécia clássica tardia com esta despreocupada observação: "Aqueles que cultivam a terra devem idealmente ser escravos, nem todos recrutados de um só povo, nem ardentes no temperamento (de modo que sejam laboriosos no trabalho e imunes a rebelião), ou não tão idealmente, servos bárbaros de semelhante caráter". Era típico do modo de produção escravo plenamente desenvolvido no campo romano que até funções de administração fossem delegadas a escravos supervisores e feitores, que punham as turmas escravas para trabalhar nas terras. O estado escravo, ao contrário da herdade feudal, permitia uma disjunção permanente entre a residência e o rendimento; o produto excedente que proporcionava as fortunas da classe possuidora podia ser extraído sem a sua presença na terra. A conexão que unia o produtor rural imediato e o apropriador urbano de sua produção não era um laço habitual, e não era mediada pela localização da própria terra (como ocorreu mais tarde na servidão adscritiva). Ao contrário, era caracteristicamente o ato comercial e universal da compra de mercadorias realizada nas cidades, onde o comércio escravo tinha seus próprios mercados. O trabalho escravo da Antiguidade clássica, portanto, incorporava dois atributos contraditórios em cuja unidade está o segredo da paradoxal precocidade urbana do mundo greco-romano. Por um lado, a escravidão representava a mais radical degradação rural imaginável do trabalho – a conversão de seres humanos em meios inertes de produção, por sua privação de todo direito social e sua legal assimilação às bestas de carga: na teoria romana, o escravo da agricultura era designado como sendo um instrumentum vocale, um instrumento vocal, um grau acima do gado, que constituía um instrumentum semi vocale, um instrumento semi vocal, e dois acima do implemento, que era um instrumentum mutum, um instrumento mudo. Por outro lado, a escravidão era simultaneamente a mais drástica comercialização urbana concebível de trabalho: a total redução da individualidade do trabalhador a um objeto padronizado de compra e venda, nos mercados metropolitanos de comércio de mercadorias. A destinação da maior parte dos escravos da Antiguidade clássica era o trabalho agrário (isto não acontecia assim sempre em todos os lugares; mas era este o caso, conjunto): sua reunião, alocação e despacho eram normalmente efetuados a partir dos mercados das cidades, onde muitos deles, claro, eram empregados também. Assim, a escravidão era o vínculo que unia cidade e campo, para o desmedido beneficio da polis, ela tanto mantinha a agricultura cativa eu permitia o dramático distanciamento de uma classe dominante urbana e suas origens rurais, quanto promovia o comércio interurbano que era o complemento desta agricultura no mediterrâneo. Os escravos, entre outras vantagens, era um bem eminentemente móvel num mundo onde os transtornos do transporte condicionavam a estrutura de toda a economia. Eles podiam ser deslocados sem dificuldade de uma região para outra; podiam ser treinados em muitas diferentes especializações: em épocas de abundância de estoque, além disso, eles serviam para manter os custos baixos onde trabalhadores contratados ou artífices estivessem trabalhando, por constituírem uma fonte alternativa. Á riqueza e o conforto da classe urbana proprietária da Antiguidade clássica – acima de tudo, a de Atenas e Roma em seu apogeu – repousavam sobre o amplo excedente que rendia a difusa presença desse sistema de trabalho, que não deixava nenhum outro intacto.


O preço a pagar por esse esquema brutal e lucrativo era, contudo, alto. As relações escravagistas de produção determinavam alguns limites insuperáveis para as antigas forças de produção na época clássica. Acima de tudo, eles tenderam a paralisar a produtividade na agricultura e na indústria. Houve naturalmente, alguns melhoramentos técnicos na economia da Antiguidade clássica. Nenhum modo de produção está totalmente desprovido de progresso material em sua fase ascendente, e o modo de produção escravo em seus primórdios registrou alguns avanços importantes no aparelhamento econômico desenvolvido no arcabouço de sua nova divisão social do trabalho. Entre eles podem contar-se a disseminação de mais lucrativas culturas de vinho e azeite, a introdução de moinhos rotativos para cereais e a melhoria na qualidade do pão. Foram criadas as prensas de parafuso, o vidro soprado se desenvolveu e os sistemas de produção de calor refinaram-se; a combinação de culturas, o conhecimento botânico e a drenagem do campo provavelmente também progrediram. Não houve portanto uma parada técnica no mundo clássico. Ao mesmo tempo. Ao mesmo tempo, não ocorreu um enxame de invenções que impulsionasse a economia antiga para forças de produção qualitativamente novas. Nada é mais impressionante, em qualquer comparação retrospectiva, do que a estagnação técnica global da Antiguidade. Basta contrastar o registro de seus oito séculos de existência – da ascensão de Atenas à queda de Roma sucedeu, para conceber a diferença entre uma economia relativamente estática e uma dinâmica. Mais dramático ainda, naturalmente, era o contraste dentro do próprio mundo clássico entre sua vitalidade cultural e superestrutural e seu embotamento infra-estrutural: a tecnologia manual da Antiguidade era exígua e primitiva não apenas pelos padrões externos de uma história posterior, mas, sobretudo pela medida de seu próprio firmamento intelectual – o qual, em muitos aspectos críticos, sempre permaneceu bem mais alto que o da Idade Média ainda por chegar. Há pouca dúvida de que a estrutura da economia escrava é que foi fundamentalmente responsável por essa extraordinária desproporção. Aristóteles, para as eras posteriores o maior e mais representativo pensador da Antiguidade, concisamente resumiu o principio social da época em seu aforismo: "O melhor Estado não fará de um trabalhador manual um cidadão, pois a massa de trabalhadores manuais é hoje escrava ou estrangeira". Um tal Estado representava a norma ideal do modo de produção escravo, nuca realizado em alguma formação social concreta do mundo antigo. Mas sua lógica esteve sempre intrinsecamente presente na natureza das economias clássicas.


Uma vez tornando-se o trabalho manual profundamente associado à perda da liberdade, não havia uma lógica social livre para a imaginação. Os efeitos sufocantes da escravidão sobre a técnica não eram uma simples função da baixa idade média da produtividade do trabalho escravo em si, ou mesmo do volume de seu uso: afetavam sutilmente todas as formas de trabalho. Marx tentou expressar o tipo de ação que exerciam numa famosa, senão crítica, fórmula teórica: "Em todas as formas de sociedade existe uma determinada produção e suas relações, que atribuem a todas as outras produções e suas relações seu alcance e sua influência. É uma iluminação generalizada na qual todas as outras cores estão mergulhadas e que modifica sua tonalidade especifica. É um éter especifico que define a gravidade especifica de tudo que se encontra dentro dele". Os escravos da agricultura notoriamente tinham pouco incentivo para executar suas tarefas econômicas competente e conscienciosamente uma vez relaxadas a vigilância; seu emprego otimizado era em vinhedos ou olivais compactos. Por outro lado muitos artífices e alguns plantadores entre os escravos eram na maioria das vezes notavelmente habilidosos, dentro dos limites das técnicas que prevaleciam. O retraimento estrutural da escravidão na tecnologia, assim, não assentava tanto numa causalidade intra-econômica direta, embora isto fosse importante em si, quanto na ideologia social mediata que envolvia a totalidade do trabalho manual no mundo clássico, contaminando do trabalho contratado e mesmo o independente com o estigma do aviltamento. O trabalho escravo em geral não era menos produtivo do que o livre, embora, na verdade, em certos campos isso ocorresse; mas estabeleceu o ritmo de ambos, de forma que nenhuma grande divergência jamais se desenvolveu entre os dois num espaço econômico que excluía a aplicação da cultura à técnica para invenções. O divorcio entre o trabalho material e a esfera da liberdade era tão rigoroso que os gregos não tinham uma palavra em sua língua nem mesmo para expressar o conceito de trabalho, tanto como função social, quanto como conduta pessoal. O trabalho na agricultura e o trabalho artesanal eram supostas "adaptações" à natureza, e não transformações dela; eram formas de serviço. Também Platão implicitamente excluía os artesãos da polis: para ele, "o trabalho permanece alheio a qualquer valor humano e em certos aspectos parece mesmo a antítese do que seja essencial ao homem". A técnica, como uma instrumentalização progressiva e premeditada do mundo natural pelo homem, era incompatível com a assimilação em grande escala do homem ao mundo natural como seus "instrumentos falantes". A produtividade era fixada pela rotina permanente do instrumento vocal, eu desvalorizava todo o trabalho pela exclusão de qualquer preocupação com estratagemas para poupá-lo. A via típica para a expansão na Antiguidade, para qualquer estado, era assim sempre um caminho "lateral" – a conquista geográfica – e não o avanço econômico. A civilização clássica foi, por conseguinte, de caráter intrinsecamente colonial: a cidade-estado celular invariavelmente se reproduzia nas fases de ascensão, pelo povoamento e pela guerra. O saque, o tributo e os escravos eram os objetos centrais do engrandecimento, tanto meios como finalidades para a expansão colonial. O poder militar estava mais intimamente ligado ao crescimento econômico do que talvez em qualquer outro modo de produção, antes ou depois, porque a principal fonte do trabalho escravo eram normalmente prisioneiros de guerra, enquanto o aumento das tropas urbanas livres para a guerra dependia da manutenção da produção doméstica por escravos: os campos de batalha forneciam a mão-de-obra para os campos de cereais e vice-versa – os trabalhadores capturados permitiam a criação de exércitos de cidadãos. Três grandes ciclos da expansão imperial podem ser traçados na Antiguidade Clássica, cujas sucessivas feições variadas estruturam todo o padrão do mundo greco-romano: o ateniense, o macedônio e o romano. Cada um representou uma determinada solução para os problemas políticos e organizacionais das conquistas de ultramar, que era integrada e ultrapassada pela próxima, sem que as bases subjacentes de uma civilização urbana comum fossem alguma vez transgredidas.


Em Busca de uma Síntese


A síntese histórica que naturalmente ocorreu foi o feudalismo. O termo preciso – síntese – é de Marx, junto com os de outros historiadores de seu tempo. A catastrófica colisão dos dois modos anteriores de produção em dissolução – o primitivo e o antigo – produziu a ordem feudal que se disseminou por toda a Europa medieval. Já estava evidente para os pensadores do Renascimento, quando esta gênese foi debatida pela primeira vez, que o feudalismo ocidental era resultado especifico de uma fusão dos legados romano e germânico. A controvérsia moderna sobre a questão data essencialmente de Montesquieu, que declarou serem germânicas as origens do feudalismo no Iluminismo. Desde então, o problema das "proporções" exatas da mistura de elementos romanos e germânicos que geraram o feudalismo levantou paixões de sucessivos historiadores nacionalistas. Na verdade os tons do final da Antiguidade eram freqüentemente alterados, dependendo do patriotismo do cronista. Para Dopsch, que escreveu na Áustria depois da Primeira Guerra Mundial, o colapso do Império Romano foi apenas a culminação de séculos de pacífica absorção pelos povos germânicos: foi vivido como um calma libertação pelos habitantes do Ocidente. "O mundo romano foi gradualmente conquistado do interior pelos germanos, que o haviam penetrado pacificamente por muitos séculos e assimilado sua cultura, e realmente assumido a responsabilidade de sua administração, de maneira que a remoção de seu domínio político foi somente a conseqüência final de um demorado processo de mudanças, como a retificação da nomenclatura de uma empresa cujo nome há muito deixou de corresponder aos verdadeiros diretores do negócio... Os germanos não eram inimigos para destruir ou varrer a cultura romana, ao contrário: eles a preservaram e desenvolveram. Para Lot, escrevendo na França à mesma época, o final da Antiguidade foi um desastre inimaginável, o holocausto da própria civilização: a lei germânica era responsável pela "violência perpétua, sem rédeas, e frenética", e pela "insegurança da propriedade" da época seguinte, cuja "terrível corrupção" fez dele "um período realmente maldito da história". Na Inglaterra, onde não houve um confronto, mas somente uma pausa entre as ordens romana e germânica, a controvérsia foi desviada para a invasão inversa da conquista normanda, e Freeman e Round sucessivamente polemizaram sobre os relativos méritos das contribuições anglo-saxônicas e latinas ao feudalismo local. As cinzas desta disputa ainda brilham hoje; os historiadores soviéticos trocaram farpas sobre elas em uma conferência recente na Rússia. Naturalmente, na verdade a precisa mistura de elementos romanos ou germânicos no puro modo feudal de produção em si é de importância muito menor do que sua respectiva distribuição nas formações sociais variantes que emergiram na Europa medieval. Em outras palavras, como veremos, uma tipologia do feudalismo europeu é necessária – em vez de um simples pedigree.


A derivação original de instituições feudais específicas muitas vezes parece emaranhada em qualquer caso, dada a ambigüidade das fontes e o paralelismo de desenvolvimentos dentro dos dois sistemas sociais antecedentes. A vassalagem assim pode ter tido suas principais raízes tanto no comitatus germânico quanto na clientela galo-romana: as duas formas de corte aristocrática que existiram em cada lado do Reno bem antes do fim do Império, ambas tendo contribuído para o surgimento definitivo do sistema de vassalagem O domínio, que no devido tempo se fundiu para formar o feudo, pode ser traçado a partir das últimas práticas eclesiásticas romanas e das distribuições tribais germânicas da terra. O manor, por outro lado, certamente é derivado do fundus ou Villa galo-romanos, que não tinham equivalente bárbaro: imensas propriedades auto-suficientes e cultivadas por coloni, que entregavam a produção em espécie a grandes proprietários, esboço claro de uma economia senhorial. Os enclaves comunais da aldeia medieval, de sua parte, eram basicamente uma herança germânica, sobrevivente dos sistemas rurais originais da floresta após a evolução do campesinato bárbaro do regime alodial para o de rendeiros dependentes. A própria servidão provavelmente descende tanto do clássico estatuto do colonus como da lenta degradação de camponeses germânicos livres por "recomendação" meio coercitiva a guerreiros de clãs. O sistema legal e constitucional desenvolvido na Idade Média era híbrido da mesma forma. Uma justiça de caráter realmente popular e uma tradição de obrigações formalmente recíprocas entre governantes e governados numa comunidade tribal pública deixaram marca muito difundida nas estruturas jurídicas do feudalismo, mesmo quando as cortes populares não sobreviveram, como aconteceu na França. O sistema de propriedades que surgiu mais tarde nas monarquias feudais deveu muito a este último em particular. Por outro lado, o legado romano de uma lei codificada e escrita foi também de importância central para a síntese jurídica específica da Idade Média; a herança conciliar da Igreja Cristã Clássica foi também sem dúvida decisiva para o desenvolvimento do sistema de propriedade. No auge da forma de governo medieval, a instituição da própria monarquia feudal representou inicialmente um amálgama mutável do líder de guerra germânico, semi-eletivo e com funções seculares rudimentares, e o governante imperial romano, que era um autocrata sagrado de ilimitados poderes e responsabilidades.


O complexo infra e supra-estrutural que iria compor a estrutura geral de uma totalidade feudal na Europa teve assim uma dupla origem, depois do colapso e confusão da Idade Média. Entretanto, uma única instituição abarcou toda a transição da Antiguidade à Idade Média em continuidade essencial: a Igreja Cristã. Ela foi, realmente, o principal e frágil aqueduto sobre o qual passavam agora as reservas culturais do Mundo Clássico ao novo universo da Europa Feudal, aonde a escrita se torna clerical. Assunto histórico singular par excellence, cuja peculiar temporalidade jamais coincidiu com a de uma simples seqüência de uma economia ou forma de governo à outra, mas que se justapôs e sobreviveu a muitas em seu próprio ritmo, a Igreja não recebeu nunca uma teorização dentro do materialismo histórico. Aqui não se pode fazer nenhuma tentativa para remediar esta omissão. Mas são necessários alguns comentários breves sobre o significado de seu papel na transição da Antiguidade ao feudalismo, já que isto tem sido alternativamente exagerado ou negligenciado em muitas discussões históricas da época. No final da Antiguidade, a Igreja Cristã, como já vimos, contribuiu indubitavelmente para o enfraquecimento dos poderes de resistência do sistema romano imperial. Conseguiu isto, não desmoralizando doutrinas ou valores extramundanos, como acreditavam os historiadores do Iluminismo, mas por seu absoluto peso temporal. O vasto aparato clerical que ela desovou no último Império foi uma das principais razões da sobrecarga parasítica que exauriu a economia e a sociedade romana. Foi ainda agregada uma segunda superburocracia ao já opressivo ônus do Estado secular. Por volta do século VI, os bispos e o clero no Império remanescente eram em muito maior número que os agentes administrativos e funcionários do Estado, e recebiam salários consideravelmente mais altos. A carga intolerável deste edifício desequilibrado foi uma determinante central do colapso do Império. A tese clara de Gibson de que o cristianismo foi uma das causas fundamentais da queda do Império Romano – um resumo final expressivo do idealismo iluminista – desta maneira permite uma reformulação materialista nos dias de hoje.


Ainda assim, a Igreja foi também o terreno movediço dos primeiros sintomas da libertação de técnica e cultura a partir dos limites de um mundo construído sobre a escravidão. As realizações extraordinárias da civilização greco-romana haviam sido propriedade de um pequeno estrato governante, inteiramente divorciado da produção. O trabalho manual era identificado com a servidão e era eo ipso degradante. Economicamente, o modo de produção escravo levou à estagnação técnica: não havia estímulo para técnicas que economizassem o trabalho. Assim, a tecnologia alexandrina, como vimos, persistiu através de todo o Império Romano: foram feitas poucas invenções significativas, e nenhuma jamais foi aplicada extensivamente. Por outro lado, culturalmente, tornou possível a ilusória harmonia entre o homem e o universo natural que marcou a arte e a filosofia de grande parte da Antiguidade Clássica: o estar inquestionavelmente isento do trabalho era uma das precondições à sua serena ausência de tensão em relação à natureza.


A labuta da transformação material ou mesmo de sua supervisão gerencial era um substrato consideravelmente excluído desta esfera. A grandeza da herança cultural e intelectual do Império Romano não foi acompanhada apenas de uma imobilidade técnica: ela estava restrita por suas próprias precondições à camada mais fina das classes governantes provinciais e metropolitanas. O índice mais notável de sua limitação verticalizada foi o fato de que a grande massa da população no Império pagão não conhecia o latim. A própria língua do governo e das letras era monopólio de uma pequena elite. A ascensão da Igreja Cristã foi o que primeiro assinalou uma subversão e alteração deste padrão. O cristianismo rompeu a união entre o homem e a natureza, entre o espírito e o mundo carnal, potencialmente distorcendo o relacionamento entre os dois em direções opostas e atormentadas: o ascentismo e o ativismo. De imediato, a vitória da Igreja no final do Império nada fez para alterar as atitudes tradicionais em relação à tecnologia ou à escravidão. Ambrósio de Milão expressou a nova opinião oficial ao condenar como ímpias até as puramente teóricas ciências da astronomia e da geometria: "Não conhecemos os segredos do imperador e mesmo assim reivindicamos conhecer os de Deus". Os padres da Igreja, de Paulo a Jerônimo, também aceitavam de modo unânime a escravidão, apenas aconselhando os escravos a serem obedientes a seus senhores, e os senhores a serem justos com seus escravos – a verdadeira liberdade não seria encontrada neste mundo, de qualquer maneira... Na prática, a Igreja destes séculos era muitas vezes uma grande proprietária institucional de escravos, e seus bispos, quando fosse o caso, poderiam ir ao encalço de seus direitos legais sobre uma propriedade fugitiva com um pouco mais de zelo punitivo comum.


Entretanto, à margem do próprio aparato eclesiástico, o crescimento da vida monacal apontava para uma possível direção diferente. Os camponeses egípcios tinham uma tradição de eremitério solitário no deserto, ou anachoresisi, como forma de protesto contra a coleta de impostos ou outros males sociais; isso foi adaptado por Antônio numa religiosidade anacoreta ascética no final do século III d.C. Foi então desenvolvido por Pacômio no início do século IV na forma de cenobitismo comunal nas áreas cultivadas próximas ao Nilo, onde eram recomendados o trabalho agrícola e a leitura, assim como a prece e o jejum. No ano 370, Basílio reuniu o ascetismo, o trabalho manual e a instrução intelectual num regulamento monástico pela primeira vez. Entretanto, embora esta evolução possa ser vista retrospectivamente como um dos primeiros sinais de uma lenta maré de mudança nas atitudes sociais em relação ao trabalho, o desenvolvimento da vida monacal no final do Império Romano apenas agravou o parasitismo econômico da Igreja, afastando ainda mais a mão-de-obra da produção. Nem teve também daí em diante qualquer papel especialmente tônico na economia bizantina, onde o monasticismo oriental logo se tornou contemplativo na melhor da hipóteses, e, na pior, ocioso e obscurantista. Por outro lado, transplantando ao Ocidente, e reformulado por Benedito de Núrcia durante as sombrias profundezas do século VI, os princípios monásticos revelaram-se organizacionalmente eficazes e ideologicamente influenciadores da Idade Média em diante. Nas ordens monásticas do Ocidente o trabalho manual e o intelectual estavam unidos providencialmente a serviço de Deus. O pesado trabalho agrícola adquiria a dignidade do culto divino, e era desempenhado por monges letrados: laborare est orare. Com isto caía uma das barreiras à invenção técnica e ao progresso. Seria um erro atribuir esta mudança a qualquer poder auto-suficiente dentro da Igreja - o curso diferente dos acontecimentos no Oriente e no Ocidente apenas seria o bastante para deixar claro que foi todo o complexo dos relacionamentos sociais, e não a própria instituição religiosa em si, que definitivamente fixou os papéis econômicos e culturais do monasticismo. Sua carreira produtiva só poderia iniciar uma vez que a desintegração da escravidão clássica houvesse liberado os elementos do feudalismo. É a flexibilidade da Igreja nesta difícil passagem que impressiona, e não o seu rigor.


Ao mesmo tempo a Igreja, sem a menor dúvida, também foi diretamente responsável por outra formidável transformação silenciosa nos últimos séculos do Império. A própria vulgarização e corrupção da cultura clássica, que Gibbbon denunciaria, era na verdade parte de um gigantesco processo de assimilação e adaptação dessa cultura por uma população mais vasta, eu iria arruiná-la e salvaguardá-la no colapso de sua infra-estrutura tradicional. A mais impressionante manifestação desta transmissão foi ainda outra vez a da linguagem. Até o século III, os camponeses da Gália e da Espanha falaram suas próprias línguas célticas, impermeáveis a cultura da classe governante clássica: qualquer conquista germânica dessas províncias a esta altura teria conseqüências incalculáveis para a História da Europa mais tarde.Com a cristianização do Império, os bispos e o clero das províncias ocidentais, assumindo a conversão da massa da população rural, latinizaram permanentemente sua falta durante os séculos IV e V. As línguas romanas foram o efeito desta popularização, um dos elos sociais mais essenciais da continuidade entre a Antiguidade e a Idade Média. As conseqüências de uma conquista germânica destas províncias ocidentais sem sua anterior latinização deve apenas ser encarada pela importância momentosa que seria evidente no caso de ser realizada.


Esta realização essencial da Igreja primitiva indica seu verdadeiro lugar e função na transição ao feudalismo. Sua eficácia autônoma não seria encontrada na esfera das estruturas da relações econômicas ou sociais, onde ás vezes tem sido equivocadamente procurada, mas na esfera cultural acima destas relações – em toda a sua limitação e imensidão. A civilização da Antiguidade Clássica foi definida pelo desenvolvimento de superestruturas de sofisticação e complexidade sem precedentes sobre estruturas materiais de uma relativa rusticidade e simplicidade: existe sempre uma desproporção dramática no mundo greco-romano entre o exagerado firmamento intelectual e político e o acanhado mundo econômico eu lhe era subjacente. Quando chegou o colapso final, nada era menos óbvio que o fato de que esta herança superestrutural – agora impossivelmente distanciada das realidades sociais imediatas – iria sobreviver a ela, embora de forma comprometida. Era necessário um recipiente específico para isto, suficientemente distanciado das instituições clássicas da Antiguidade e ainda assim moldado por elas, e por isto capaz de fugir ao desmoronamento geral para transmitir as misteriosas mensagens do passado ao futuro próximo. A Igreja desempenhou objetivamente este papel. Em certos aspectos essenciais, a civilização superestrutural da Antiguidade permaneceu superior à do feudalismo por um milênio – até a época em que passou a chamar-se conscientemente de Renascimento, para assinalar a regressão que se interpunha. A condição para este poder omisso através dos séculos caóticos e primitivos da Idade Média foi a resistência da Igreja. Nenhuma outra transição dinâmica de um modo de produção a outro revela a mesma obliqüidade em seu desenvolvimento superestrutural: nenhuma outra transição engloba uma instituição de alcance comparável.


A Igreja foi a indispensável ponte entre duas épocas, numa passagem "catastrófica" e não "Cumulativa" entre dois modos de produção (cuja estrutura assim diferia necessariamente in Toto da transição entre o feudalismo e o capitalismo) Significativamente, foi o mentor oficial da primeira tentativa sistemática de fazer "renascer" o Império no Ocidente – a monarquia carolíngia. Com o Estado Carolíngio, começa a história do feudalismo propriamente dito. Este esforço maciço ideológico e administrativo de "recriar" o sistema imperial do velho Mundo Antigo, na verdade, por uma inserção característica, incluía e ocultava o involuntário assentamento das fundações do novo. Na era carolíngia foram dados os passos decisivos para a formação do Feudalismo.


A imponente expansão da nova dinastia franca forneceu, entretanto, pouca sugestão imediata de seu legado definitivo à Europa. O tema manifesto dominante era a unificação política e militar do Ocidente. A derrota dos árabes em Poitiers, em 733, infligida por Carlos Martel, deteve o avanço do Islã, que acabara de absorver o Estado visigodo na Espanha. Daí em diante, em trinta rápidos anos, Carlos Magno anexou a Itália Lombarda, conquistou a Saxônia e a Frísia e incorporou a Catalunha. Tornou-se então o único governante do continente cristão além das fronteiras de Bizâncio, com exceção do inacessível litoral das Astúrias. No ano 800, ele assumiu o título – extinto a muito – de imperador do Ocidente. A expansão carolíngia não foi um simples acréscimo territorial. Suas reivindicações imperiais corresponderam a um verdadeiro renascimento administrativo e cultural através dos limites do Ocidente continental. O sistema de cunhagem de moedas foi padronizado, e recuperado seu controle central. Em muito próxima coordenação com a Igreja, a monarquia carolíngia patrocinou uma renovação da literatura, filosofia, arte e educação. Missões religiosas eram enviadas às terras pagãs além do Império. A grande nova zona de fronteira da Germânia, ampliada pela sujeição das tribos saxônicas, pela primeira vez foi cuidadosamente atendida e sistematicamente convertida – um programa facilitado pela mudança da corte carolíngia mais para o leste, em Aachen, a meio caminho entre o Elba e o Loire. Além disto, uma rede administrativa elaborada e centralizada desceu sobre toda a massa, da Catalunha a Scheleswig e da Normândia à Estíria. Sua unidade básica era o condado, derivado da velha civitatis romana. Nobres de confiança eram nomeados condes com poderes judiciais e militares para governar estas regiões, numa clara e firme delegação de autoridade pública, revogável pelo imperador. Havia uns 250 a 350 destes agentes pelo império; eles não tinham salário, mas recebiam uma porção dos rendimentos reais locais e dotes em terras no condado As carreiras cortesãs não estavam confinadas a um único distrito qualquer: um nobre competente podia ser transferido sucessivamente a diversas regiões, embora na prática as revogações ou mudanças de condado não fossem freqüentes. Os cruzamentos por casamentos e a migração de família proprietárias de terras das várias regiões do Império criaram uma certa base social para uma aristocracia "supra-étnica" imbuída com a ideologia imperial. Ao mesmo tempo, o sistema regional de condados estava sobreposto por um grupo central menor de magnatas clericais e seculares, oriundos principalmente da Lorena e da Alsácia, muitas vezes até mais próximos do círculo pessoa do próprio imperador. Este proporcionaram os missi dominici, uma reserva móvel de agente imperiais diretos enviados como plenipotenciários para lidar com problemas especialmente difíceis ou reclamações em províncias distantes. Os missi se tornaram uma instituição regular do Governo de Carlos Magno a partir do ano 802; tipicamente enviados aos pares, cada vez mais passaram a ser recrutados entre os bispos e abades, para isolá-los das pressões locais em suas missões. Foram eles que no principio garantiram a integração efetiva da imensa rede cortesã. Passou-se a fazer um uso crescente de documentos escritos, em esforços para melhorar as tradições de total iliteralidade herdada dos merovíngios. Na prática, sempre havia brechas e atrasos neste maquinário, cujo funcionamento era sempre extremamente lento e desajeitado, na ausência de alguma burocracia palatina séria para proporcionar uma integração impessoal do sistema. Contudo, dadas as condições da época, os objetivos e a escala dos ideais administrativos carolíngios foram uma realização formidável.


As inovações embrionárias reais deste período, entretanto, estão em outra parte – no surgimento gradual das instituições fundamentais do feudalismo subjacentes ao aparato do governo imperial. A Gália merovíngia conhecera o juramento de lealdade ao monarca reinante e a concessão de terras ao nobres servidores. Mas estes nunca estavam combinados num sistema único ou significativo. Os governantes merovíngios habitualmente distribuíam propriedades diretamente a partidários leais, recorrendo ao termo eclesiástico beneficium para tais doações. Mais tarde, muitas das propriedades assim distribuídas foram confiscadas da Igreja pela linhagem dos Arnolfos com o objetivo de recrutar tropas adicionais para seus exércitos enquanto isso, a Igreja era compensada com a introdução do dízimo por Pepino III, doravante a única forma mais aproximada a uma taxação geral no reino franco. Mas foi a época do próprio Carlos Magno que anunciou a síntese crítica entre as doações de terras e as ligações de serviço. No decorrer do século VIII, a vassalagem (homenagem pessoal) e o benefício (concessão de terras) lentamente fundiram-se, ao passo que, durante o século IX, o benefício, por sua vez, se tornou cada vez mais assimilado à honra (ofício e jurisdição pública). Desde então, as concessões de terras pelos governantes deixaram de ser doações, para tornarem-se arrendamentos condicionais, mantidos em troca de serviços juramentados; e a posições administrativas inferiores com isso tendiam a equipararse-lhes legalmente. Uma classe de Vassi dominici, vassalos diretos do imperador, que recebiam seus benefícios diretamente de Carlos Magno, agora se desenvolvia no campo, formando uma classe proprietária de terras local disseminada por entre as autoridades cortesãs do império. Eram estes Vassi reais que proporcionavam o núcleo do exército carolíngio, chamado ano após ano para serviço nas constantes campanhas de Carlos Magno no exterior. Mas o sistema se estendia bastante além da direta lealdade ao imperador. Outros vassalos eram beneficiários de príncipes, que por sua vez eram vassalos do governante supremo. Ao mesmo tempo, imunidades legais, inicialmente peculiares à Igreja – isenções jurídicas concedidas com base nos códigos germânicos hostis no início das Idade Média – começaram a estender-se aos guerreiros seculares. Daí por diante, os vassalos equipados com tais imunidades estavam imunes à interferência da corte em suas propriedades. O resultado desta evolução convergente foi o surgimento do "feudo", como uma concessão de terra delegada, investida de poderes jurídicos e políticos, em troca de serviço militar. O desenvolvimento militar, pela mesma época, com a cavalaria pesadamente armada, contribuiu para a consolidação deste novo vínculo institucional, embora não tenha sido responsável por seu aparecimento. Levou um século para que o sistema feudal se tornasse amoldado e enraizado no Ocidente; mas seu núcleo inequívoco era já visível durante o domínio de Carlos Magno.


Entretanto, as constantes guerras do reino tendiam cada mais vez mais a oprimir a massa da população rural. A condição prévia do campesinato guerreiro livre da sociedade germânica tradicional havia sido cultivo móvel, e as guerras eram locais e sazonais. Uma vez estabilizada a colonização agrícola e tendo as campanhas militares se tornado de maior alcance e mais demoradas, a base material para uma unidade social de lutas e cultivo estava inevitavelmente quebrada. A guerra se tornou a prerrogativa distante da cavalaria nobre, enquanto um campesinato sedentário trabalhava em casa para manter um ritmo permanente de lavouras, desarmado e sobrecarregado com o abastecimento para os exércitos reais. O resultado foi uma deterioração geral na posição da massa da população agrária. Assim, foi também neste período que tomou forma a unidade feudal característica de produção cultivada por um campesinato dependente. O império Carolíngio era, na prática, um imenso trato de terra fechado, com um mínimo comércio exterior (apesar de suas fronteiras com o Mediterrâneo e o Mar do Norte) e com uma circulação de dinheiro morosa: a resposta econômica ao isolamento foi o desenvolvimento de um sistema senhorial. A Villa do reino de Carlos Magno já antecipava a estrutura do senhorio do início da Idade Média – uma imensa propriedade autárquica composta de uma mansão senhorial e uma multidão de pequenos lotes camponeses. O tamanho destes domínios nobres ou clericais era muitas vezes bastante considerável – de uns 800 a 1.600 hectares de extensão. A produção agrícola permanecia extremamente baixa; mesmo proporções de 1:1 eram inteiramente desconhecidas, tão primitivos eram os métodos de cultivo. A própria reserva senhorial, o mansus endominicatus, poderia cobrir talvez um quarto da área total; o restante era geralmente cultivado por servi ou mancipia instalados em pequenos manses. Estes formavam o maior volume da força de trabalho rural dependente; embora sua denominação legal ainda fosse a da palavra romana para "escravo", sua condição na verdade estava agora mais próxima à do futuro "servo" medieval, uma mudança registrada semanticamente com o uso do termo servus no século VIII. O ergastulum desaparecera. Os mancipia carolíngios eram geralmente famílias ligadas ao solo, prestando obrigações em espécie e serviços a seus senhores: explorações que possivelmente eram na verdade ainda maiores que as do colonato galo-romano. As grandes propriedade carolíngias podiam também conter rendeiros camponeses livres (em manses ingenuiles), prestando obrigações e serviços, mas sem uma dependência servil; no entanto, estes eram bem menos comuns. Com mais freqüência, os mancipia seriam reforçados para serviço na casa senhorial, por trabalhadores contratados e autênticos escravos como bens móveis, o que ainda não havia desaparecido de maneira alguma. Dada a ambígua terminologia da época, é impossível fixar com alguma precisão o volume real da força de trabalho escravo na Europa Carolíngia; mas, em todo caso, já foi estimado em torno de 10 a 20 por cento da população rural. O sistema de Villa naturalmente não significava que a propriedade em terra se tivesse tornado exclusivamente aristocrática. Ainda subsistiam pequenas propriedades alodiais cultivadas por camponeses livres – pagenses ou medíocres – entra as grandes faixas de propriedades senhoriais. Sua quantidade relativa ainda está por ser determinada, embora esteja claro que nos primeiros anos de Carlos Magno, uma parte significativa da população camponesa permanecia acima da condição servil. Mas as relações rurais básicas de produção de uma nova era estavam daí em diante ficando cada vez mais manifestas.


Á época da morte de Carlos Magno, as instituições centrais do feudalismo já estavam presentes, sob o dossel de um império centralizado pseudo-romano. Na verdade, logo tornou-se claro que a rápida disseminação dos benefícios e a crescente possibilidade de hereditariedade tendiam a mina por baixo todo canhestro aparato do Estado carolíngio – cuja expansão ambiciosa jamais correspondera a sua reais capacidades de integração administrativas, dado o nível extremamente baixo das forças de produção nos séculos VIII e IX. A unidade interna do Império logo desmoronou, entre as guerras civis de sucessão e a crescente regionalização da aristocracia que o mantivera coeso. Uma precária divisão tripartite do Ocidente ocorreu. Ataques externos inesperados e selvagens, de todos os pontos cardeais, por mar e por terra, por invasores vikings, sarracenos e magiares, pulverizaram então todo o sistema para-imperial de governo cortesão que permanecia. Não existia um exército ou marinha permanente para resistir a esses ataques violentos; a cavalaria franca era lenta e desajeitada para se mobilizar, a flor ideológica da aristocracia carolíngia perecera nas guerras civis. A estrutura política centralizada legada por Carlos Magno desagregou-se. Por volta de 850, os benefícios eram hereditários virtualmente em todas as partes; por 870, os últimos missi dominici haviam desaparecido; pelo ano 880, os vassi dominici estavam sujeitos a potentados locais; por 890, os condes já haviam se tornado senhores regionais hereditários. Foi nas última décadas do século IX, quando bandos vikings e magiares assolavam o continente na Europa Ocidental, que o termo feudum (feudo) entrou em uso. Foi então também que toda a França, particularmente, ficou cheia de castelos e fortificações privados, erigidos por senhores rurais sem nenhuma permissão imperial, para resistir aos novos ataques bárbaros e consolidar o seu poder local. Essa paisagem cheia de castelos era ao mesmo tempo uma proteção e uma prisão para a população rural. Os camponeses, já vítimas de uma sujeição progressiva nos anos finais do reinado de Carlos Magno, marcados pela depressão e por guerras, agora eram levados a uma servidão generalizada. O enraizamento dos condes e dos senhores locais nas províncias, através do nascente sistema feudal, a consolidação de suas propriedades senhoriais e a suserania sobre o campesinato provaram ser a pedra fundamental do feudalismo, que lentamente foi solidificado por toda a Europa nos próximos duzentos anos.


TRADUÇÃO DE ALGUSN TERMOS EM LATIM USADOS AO LONGO DO TEXTO


Collatio lustralis – contribuição especial

Comitatenses – de comitivas

Limitanei – do limes

Bacaudae – Salteadores

Villae – Grandes propriedade Rurais

Manor – Domínio

Anachorensis – de forma anacoreta

Civitatis – cidadania

Vassi domici – vassalos do senhor

Missi domici – enviados do Senhor, do Rei

Mansus Indominicatus – reserva do Senhor

Mancipia – Servos

Ergastulum – Escravos, colonos

Manses ingenuiles – lote do servo





sábado, 20 de março de 2010

América Latina Uma História de Sangue e Fogo

América Latina

Uma História de Sangue e Fogo


John Charles Chasteen

Do livro América Latina Uma História de Sangue e Fogo p.125 a p.201



Benito Juárez:O grande presidente liberal do México, contemporâneo e amigo de Abraham Lincoln, foi um indígena zapoteca que aprendeu espanhol na adolescência. Juárez representa o difícil triunfo do liberalismo mexicano em meados do século. O liberalismo encorajara a ascensão de alguns mestiços ou mesmo indígenas talentosos como Juárez, embora as classes superiores permanecessem totalmente brancas e o prestígio das idéias racistas estivesse crescendo internacionalmente, quando foi tirada esta fotografia, na década de 1860. Cortesia da Bancroft Library, Universidade da Califórnia, Berkley.



O Progresso


Em 1850, o conservadorismo latino-americano estava em alta. Depois, no quarto de século seguinte, os liberais surpreendentemente voltaram a supervisionarem um longo período de expansão econômica baseada em exportações. Enfim, os países latino-americanos se integrariam plenamente ao livre fluxo do comércio internacional. As transformações sociais e econômicas tão desejadas pelos liberais em 1825 enfim ganharam impulso.

O retorno dos liberais foi, em parte, uma simples volta do pêndulo. Qualquer ideologia oficial, qualquer quadro dirigente tende a cair em descrédito após décadas no poder. A rejeição conservadora aos sonhos liberais prometera "um retorno a sensatez" na década de 1830, um restabelecimento da ordem, um apelo aos valore tradicionais. Mas a virtudes da segurança desvaneceram-se à medida que os anos passaram e os benefícios da paz pareceram cada vez pior distribuídos. Gradualmente, todos aqueles fora do círculo privilegiado do clientelismo oficial passaram a clamar por mudanças. Talvez, pensava um número crescente de latino-americanos, os sonhos liberais de uma sociedade transformada não fossem tão loucos assim. Os proprietários rurais queriam uma chance de vender café, peles ou tabaco no mercado internacional. A classe média urbana queria ruas pavimentadas, bibliotecas, esgoto e parques. Muitos colocaram suas esperanças nas novas energias associadas à economia internacional após 1850.


A Revolução Industrial estava se acelerando na Europa e nos Estados Unidos no período de 1850 a 1875. Os industriais viam a América Latina como um mercado potencial para seus produtos manufaturados.


Os trabalhadores industriais europeus e norte-americanos constituíam um mercado para o açúcar e para o café cultivados na América Latina. Os lucros industriais – especialmente na Inglaterra, onde, ao contrário dos Estados Unidos, não foram desviados por nenhuma guerra civil – produziram mais capital do que poderia ser reinvestido em casa. Á anterior escassez de investimentos na América Latina seguiu-se uma enxurrada de capitais internacionais. Não só governos, mais também empresários privados contraíram empréstimos para construir ferrovias e instalações portuárias. A revolução industrial, a mecanização da manufatura, ainda não começara na América Latina. Fábricas eram raras. Mas a tecnologia da máquina a vapor do século XIX revolucionou a ligação da América Latina com o mundo exterior.


A Revolução dos transportes na América Latina significou, acima de tudo, navios a vapor e ferrovias. Os veleiros de madeira sofriam com os ventos traiçoeiros e carregavam menos carga do que os vapores de casco de ferro que gradualmente os substituíram. Os vapores transpunham os mares com mais rapidez e segurança do que os veleiros. Locomotivas a vapor acabariam mudando profundamente o transporte terrestre, que dependera principalmente de mulas de carga ou carros de boi. Em geral, mulas e carros de boi limitavam a agricultura de exportação, rentável as planícies costeiras. As ferrovias, embora caras de construir, abriam acesso a enormes áreas, estimulando a agricultura em praticamente toda localidade ao longo dos seus trilhos. Como se não bastasse a máquina a vapor, as linhas telegráficas, capazes de transmitir instantaneamente mensagens escritas, introduziram outro milagre tecnológico do século XIX: a eletricidade. Como instalar fios era mais fácil do que colocar trilhos, cavar túneis e erguer pontes, as linhas telegráficas muitas vezes deixavam as vias férreas para trás. Um cabo telegráfico transatlântico já havia sido estendido através do fundo do Oceano Atlântico, ligando o Brasil a Europa em 1874.


As novas tecnologias transformaram as comunicações arriscadas, imprevisíveis e caras da América Latina com o resto do mundo. Mas a perspectiva de contato com esse mundo externo começou a assustar a elite latino-americana, para quem a Europa permanecia um modelo cultural. Afinal, as "pessoas respeitáveis", reivindicavam a prioridade social devido a raça e cultura européias. Mas como se sairiam em presença de europeus reais? Eles ridicularizariam as tentativas das "pessoas respeitáveis" de imitá-los? Eles achariam a América Latina destituída de Progresso?


O Progresso (com P maiúsculo) foi o grande tema do Ocidente no século XIX. A Revolução Industrial e dos Transportes haviam reordenado profundamente as sociedades e afetado a vida de todos. Mesmo quando resultava em sofrimento, as pessoas admiravam a mudança. De algum modo, a idéia do avanço tecnológico inevitável e universal – idéia acalentada até hoje – já empolgava a imaginação das pessoas. Uma nova idéia hegemônica vinha substituir a velha versão colonial. Em um mundo aonde o progresso parecia inexorável, a bem informada elite latino-americana queria fazer parte dele. Como outras classes dirigentes do Ocidente, ela se preocupava com a erosão das antigas virtudes pelo materialismo moderno, mas aceitava o materialismo mesmo assim. Exportar algo em troca de libras esterlinas, dólares ou francos era a maneira óbvia de satisfazer o desejo de estar atualizada em termos europeus. A receita das exportações, afinal, podia comprar arame de aço, máquinas de costura e máquinas a vapor. Em outras palavras, a receita das exportações podia literalmente importar o Progresso – pelo menos, assim acreditava a elite.


Em meados do século XIX, o Progresso estava se tornando uma espécie de religião secular, os liberais sendo seus profetas. Ainda em 1810, sua visão de progresso tivera uma ênfase política: repúblicas, constituições, eleições. Ao que se revelou, esse tipo de progresso estagnou em um lamaçal de interesses conflitantes. O progresso tecnológico, por outro lado, ainda tinha uma reputação invencível e os liberais latino-americanos se beneficiaram da enorme persuasividade da idéia. Os anos de 1850 a 1875 viram uma mudança política em toda a América Latina, a inevitabilidade do Progresso tornando-se simples bom senso para a elite educada. As pessoas continuaram seguindo caudilhos e patrões. Os interesses econômicos continuaram colidindo. Mas, por toda a América Latina, os liberais ganharam vantagem pegando "a onda do futuro".


Famílias em ascensão social tendiam a aderir ao Partido Liberal, enquanto o status consagrado tornava outras famílias conservadoras. A oposição a Igreja Católica – sua riqueza, seu poder e seus abusos – distinguia os liberais. Em essência, os liberais sempre representaram a mudança e a Igreja simbolizava o passado colonial. Para os conservadores, que lembravam a era colonial como uma época pacífica em que os arrogantes mestiços sabiam qual era seu lugar, o passado se afigurava atraente, embora oposto ao Progresso. E após meados do século, o progresso parecia imbatível. A sempre dramática história do México fornece um excelente exemplo.


A REFORMA LIBERAL DO MÉXICO


Em nenhuma outra parte a Igreja colonial fora tão onipresente nas vidas das pessoas. A Igreja mexicana possuía muitas propriedades: imóveis legados em testamentos ou tomados em hipotecas de empréstimos, nos séculos em que a Igreja foi a principal instituição de crédito do México. Essas propriedades não paravam de crescer porque a Igreja nunca morria, nem tinha suas propriedades divididas entre herdeiros.Em meados do século XIX, a Igreja detinha cerca de metade das melhores terras cultiváveis do México, além de mosteiros, conventos outros imóveis urbanos, sem falar nas próprias Igrejas. Especialmente no centro e no sul México, a sociedade rural se organizava em torno de aldeias agrícolas e cada uma delas em torno de uma igreja. Em geral, o sacerdote era um líder local e, ás vezes, um pequeno tirano. De acordo com a lei espanhola tradicional, ainda em vigor, o clero desfrutava de amplas regalias legais – o fuero – e os sacerdotes das paróquias muitas vezes se sustentavam cobrando taxas pelos serviços religiosos. Além disso, os mexicanos eram obrigados por lei a pagar um décimo da renda à Igreja o dízimo.


A independência fora uma época de sacerdotes progressistas como Hidalgo e Morelos, mas eles aparentemente desapareceram em meados do século, quando o próprio papa liderou um contra-ataque espiritual contra o evangelho do Progresso. Os europeus denominaram esse conservadorismo eclesiástico ultramontano, por emanar além dos Alpes, ou seja, de Roma. O conservadorismo ultramontano tornou-se política católica oficial e clérigos dogmáticos, sobretudo uma onda de sacerdotes militantes chegados da Espanha naqueles anos se recusaram a aceitar os controles governamentais sobre os assuntos eclesiásticos. Toda a América espanhola, bem como o Brasil, sentiram o impacto do conservadorismo ultramontano, mas ninguém o sentiu como o México.


Religião e política haviam sempre estado juntas no México. A linguagem das lutas pela independência mexicana, anos antes, fora infundida de religião e a maioria dos liberais das décadas de 1830 e 1840 vira a Igreja como uma parte necessária da ordem social do país. Depois, a medida que a Igreja de meados do século tornou-se explicitamente antiliberal, os liberais tornaram-se mais anti-igreja. Isso não os tornava necessariamente irreligiosos – embora alguns o fossem. (O importante liberal mexicano Melchor Ocampo, por exemplo, causou grande escândalo ao anunciar a inexistência de Deus.) Na maioria, os liberais mexicanos direcionavam sua ira contra a Igreja Católica como uma instituição; eles eram mais anticlericais do que anti-religiosos. A riqueza improdutiva a da Igreja e as regalias do fuero desfrutadas pelo clero constituíam afrontas ao Progresso, raciocinavam os liberais. A ira do anticlericalismo liberal revela-se em uma história (verdadeira ou não) que Ocampo gostava de contar sobre um sacerdote que recusou um enterro cristão a um menino morto enquanto não recebesse seu pagamento. Quando o pai do menino perguntou o que deveria fazer, o sacerdote da história respondeu: "Por que você não o salga e come?" Para os conservadores mexicanos, por outro lado, religião, Igreja e clero eram a mesma coisa. "Religião e fueros!" Tornou-se seu brado de guerra.


Quando os liberais mexicanos começaram a sua grande rebelião de meados do século – o início de um período inteiro denominado Reforma -, o presidente era, de novo, o velho caudilho António López de Santa Anna, que atuara por toda a parte para evitar as mudanças por uma geração. Santa Anna enfim partiu para o exílio em 1855. Enquanto Santa Anna representava a política mexicana tradicional no início da era pós-independência, os liberais que se reuniram contra ele representavam um México alternativo. Seu líder era Juan Alvarez, um caudilho mestiço rígido das montanhas emaranhadas do sul do México indígena. Alvarez fora um patriota (começando com padre Morelos) desde a década de 1810, quando Santa Anna ainda era um realista. Naquele momento um homem velho e com pouca experiência política, Alvarez tornou-se o presidente sem autoridade após a partida de Santa Anna. Mas os verdadeiros cruzados liberais de meados do século eram homens mais jovens, homens educados versados nas palavras e nas leis. Um deles era Melchor Ocampo, já mencionado. Assim como Alvarez, Ocampo era mestiço, homem de origem humilde, mais extraordinário talento: um cientista amador, economista, poliglota, dramaturgo e advogado profissional. Ocampo exemplifica um tipo particular de liderança liberal: homens jovens, urbanos, mestiços, em ascensão social para quem o progresso oferecia avanços pessoais. Benito Juárez, a primeira pessoa de ascendência plenamente indígena a se tornar governador de um estado mexicano, também fornece um exemplo atípico, mas altamente simbólico.



Juárez, assim como Ocampo, era um órfão sem outra alternativa na vida senão ascender. Aos doze anos, cansou-se de cuidar das ovelhas do tio nas montanhas, deixou sua aldeia zapoteca e viajou até a cidade provincial de Oaxaca, onde sua irmã já trabalhava como cozinheira. Ali, ele adotou trajes europeus (celebrizando-se pela formalidade de sua sobrecasaca preta) aperfeiçoou o espanhol e acabou estudando Direito no novo Instituto de Artes e Ciências público de Oaxaca, que existia graças ao governo liberal pós-independência do México. Juárez depois exerceu o direito em Oaxaca, a certa altura representando aldeões pobres contra um sacerdote supostamente abusivo, caso que o levou (Juárez e não o sacerdote) à prisão por alguns dias. Mais tarde, ele foi eleito para o legislativo estadual e para o Congresso Nacional, e serviu cinco anos como governador de Oaxaca. Mas Juárez abandonou a identidade zapoteca ao envergar sobrecasaca preta. Ele não representava os interesses dos zapotecas em particular, ou dos povos indígenas como um grupo. Chamá-lo de índio era insultá-lo e ele ás vezes passava pó de arroz para clarear a tez escura. Mas todos em Oaxaca – e mais tarde, todos os mexicanos – sabiam a origem de Benito Juárez. Seus inimigos chamavam-no de "um macaco vestido como Napoleão", mas para muitos mexicanos a ascensão pessoal de Benito Juárez confirmava a promessa do liberalismo.


Entre os primeiros decretos da Reforma Liberal, estava a Lei Juárez de 1855, que atacou os fueros militares e eclesiásticos, dando notoriedade nacional ao seu autor. Alguns meses depois, os liberais decretaram a Lei Lerdo (1856), abolindo a propriedade coletiva de terras.
Essa lei atingia basicamente a Igreja, que teria que se desfazer de suas vastas propriedades, mas como efeito secundário ameaçou as terras comunais das aldeias indígenas.
O credo da Reforma glorificava o esforço, a propriedade e a responsabilidade individuais. Segundo os liberais, a distribuição das terras das aldeias como propriedade privada motivaria cada família individual a se esforçar mais, devido ao egoísmo inerente (nessa visão) à natureza humana. Mas os aldeões indígenas tinham sua própria visão e acreditavam que as terras comunais os beneficiavam.
Por essa razão, alguns aldeões indígenas aderiram às "pessoas respeitáveis" e outros conservadores sob a bandeira da "Religião e Fueros", opondo-se à Reforma liberal da década de 1850.


A reforma durou apenas poucos anos, até um General conservador arrebatar a presidência e dissolver o Congresso, em 1858. Uma guerra civil total irrompeu. Fugindo para os baluartes liberais nas cidades mineradoras mestiças do Norte mexicano, os reformadores escolheram Benito Juárez para comandar suas forças. Escolheram bem, porque mesmo quem não gostava de Juárez respeitava-lhe a determinação. Os conservadores controlavam a maior parte do exército, mas os liberais desfrutavam agora de apoio popular generalizado. O governo de Juárez logo retomou a Cidade do México, mas os problemas dos liberais não acabaram. A guerra civil arruinara o Estado mexicano e Juárez suspendeu o pagamento da dívida externa. França, Espanha e Grã-Bretanha retaliaram ocupando coletivamente Veracruz. De início, essa ocupação pareceu mais um episódio da diplomacia da canhoneria. Os franceses, porém, tinham outra motivação.

Em desespero, os conservadores mexicanos derrotados recorreram à sua arma secreta: um monarca. Napoleão III, da França, queria expandir as influências francesas na América Latina. (Na verdade, os franceses forjaram o nome "América Latina" naquela época para que sua influência parecesse natural. Antes de meados do século XIX, mencionava-se México, Brasil ou Argentina, e também a "América", mas nunca a "América Latina". Como o francês, à semelhança do espanhol e do português deriva diretamente do latim, o termo "América Latina" implicava um parentesco cultural com a França). Napoleão III gentilmente supriu os conservadores mexicanos com um monarca potencial obediente aos interesses franceses.


O aspirante a imperador do México, Maximiliano, era um homem bem intencionado de uma das maiores dinastias reais da Europa, os Habsburgos. Antes de aceitar o plano, Maximiliano indagou honestamente se o povo mexicano de fato queria um imperador. Os conservadores mexicanos garantiram que sim.


Assim, tropas francesas invadiram o México central em 1862 e instalaram Maximiliano como imperador dois anos depois. De novo, Benito Juárez retirou-se para o norte a fim de liderar a resistência, desta vez encontrando um poderoso aliado nos Estados Unidos. A intervenção francesa representava um óbvio desafio ao domínio norte-americano sobre o México. Napoleão III atacara durante a Guerra de Secessão, quando havia pouco perigo de interferência dos EUA. Mas em 1865, a guerra acabou, a ajuda norte-americana a Juárez aumentou e Napoleão III decidiu retirar as forças francesas do que se tornara uma cara confusão. Maximiliano permaneceu no México, onde foi capturado e executado. Sua esposa, a glamorosa imperatriz Carlota, escapou. Ela conseguiu retornar a Europa, mas ficou louca pelo resto da vida.


Benito Juárez retornou a Cidade do México como presidente. Os conservadores mexicanos caíram em total descrédito ao convidarem a invasão francesa; eles jamais voltariam a governar o México. Nem o catolicismo jamais recuperaria a antiga proeminência na sociedade mexicana.


Por outro lado, o triunfo do liberalismo reforçara uma atmosfera nacionalista que vinha crescendo no México havia décadas. A perda de tanto território nacional para os EUA alimentou um espírito de resistência nacionalista. Em uma tentativa de satisfazer os sentimentos patrióticos dos mexicanos, em seu primeiro Dia da Independência no México, Maximiliano fizera uma peregrinação pública à igreja onde o Padre Miguel Hidalgo começara a rebelião de 1810. O imperador fez certa encenação política, tocando o sino da igreja de Hidalgo e, em outra ocasião, envergando um poncho e mostrando seu gosto pela comida mexicana. Ao enfrentar o esquadrão de fuzilamento, entre as últimas palavras de Maximiliano estavam "Viva México!" Mas não adiantava, os conservadores apelaram para o nacionalismo na década de 1860. Juárez, zapoteca de pó de arroz, era simplesmente um símbolo nacionalista mais convincente do que Maximiliano vestido de mariachi.


OUTROS PAÍSES ADEREM A TENDÊNCIA LIBERAL


Colômbia e Chile são dois outros exemplos da dicotomia liberais / conservadores sobre a questão da Igreja. O ano de 1861 foi marcado por importantes vitórias liberais, na hora certa, em ambos os países.


Os liberais colombianos haviam atacado a Igreja desde a época de Bolívar. Depois veio a reação conservadora da geração pós-independência. Os governos da década de 1840 restauraram o fuero eclesiástico, eliminado pelos liberais, e chegaram a convidar a ordem jesuíta a retornar à Colômbia (os jesuítas, conhecidos pela lealdade ultramontana ao Vaticano, foram católicos demais mesmo para o Império Espanhol, sendo expulsos da América espanhola em 1767) Os liberais colombianos, ao reaparecerem na década de 1850, expulsaram novamente os jesuítas e repetiram a usual rotina anticlerical: remover o fuero, tornar o dízimo voluntário, insistir no controle governamental sobre o clero católico e até legalizar o divórcio.


Em 1861, o caudilho colombiano Tomás Cipriano de Mosquera entrou em Bogotá à testa de um exército e iniciou duas sólidas décadas de governo liberal. Mosquera era um clássico caudilho hispano-americano: herói da independência, general aos trinta anos, longe de ser um idealista político. Como o Mexicano Santa Anna, Mosquera teve a honra de ser presidente tanto pelos liberais como pelos conservadores.


Na outra extremidade da América do Sul, o Chile tinha um ar imponente e excepcional no século XIX. Em uma época quando os palácios presidenciais pareciam ter portas giratórias e seus ocupantes raramente ficavam até o fim do mandato, o Chile foi governado por apenas três presidentes, todos conservadores. Cada um cumpriu dois mandatos consecutivos – um total de dez anos – e nenhum foi derrubado por uma revolução: José Joaquim Prieto na década de 1830, Manuel Bulnes da década de 1840 e Manuel Montt na década de 1850. O estado chileno devia sua notável estabilidade sobretudo ao excelente sistema de eleições manipuladas. Mesmo assim, os governos conservadores permitiam uma incomum liberdade de pensamento e expressão, e supervisionaram um período de expansão das exportações. Esse antigo canto remoto da América espanhola agora pululava de comerciantes europeus. E o que floresceu sob essas condições? O liberalismo, é claro.

O Chile experimentou uma dose prematura de liberalismo revolucionário durante as lutas da independência e na década de 1920, antes que os conservadores assumissem o poder, mas nada tão traumático como no México. O Chile era um tipo de lugar diferente do México. Sua pequena população indígena, descendentes dos araucanos semi-sendentários, habitava o extremo sul, além de uma linha de fortes. Os araucanos não faziam parte da sociedade nacional. A principal classe de proprietários de terras chilenos vivia em um compacto vale central, paralelo à costa. O trigo do vale central do Chile, bem como o cobre e a prata, encontraram um vantajoso escoadouro na exportação logo após a independência, enquanto a economia do México continuava falhando.


Assim como no México, os liberais chilenos criticaram as relações entre Igreja e Estado em meados do século XIX. Como a Igreja chilena nunca fora tão rica e poderosa quanto a mexicana, a discussão no Chile não foi tão acirrada. Mesmo assim, a liberdade de culto constituía um valor liberal fundamental. Uma religião estatal oficial, segundo os liberais chilenos, constituía um vestígio do colonialismo espanhol. Os liberais chilenos escreveram denúncias eloqüentes de toda herança espanhola, contrária, a seus olhos, ao Progresso e a Civilização.


O progresso já vinha se manifestando no Chile em meados do século XIX, o presidente nesse período, Montt, que já fora Ministro da Educação, realizou vários projetos progressistas, incluindo ferrovias, telégrafos, sistemas de distribuição de água e escolas. Gradualmente, a agenda conservadora se dissociara da vida chilena. Assim, a influência militante do conservadorismo ultramontano sobre a Igreja chilena trouxe problemas. O próprio presidente Montt viu-se envolvido em um conflito com o arcebispo e, no final de seu segundo mandato, 1861, favoreceu um candidato liberal para presidente. A mudança foi pacífica, mas decisiva. Os liberais chilenos permaneceram no controle por trinta anos de administração ordeira e Progresso, nos quais limitaram a influência da Igreja modernizaram a capital Santiago e manipularam as eleições com a mesma habilidade dos conservadores que os precederam.


Como já deve estar claro, a reaparição liberal pós-1850 na América Latina possui uma qualidade repetitiva. Ela podia ser turbulenta, como no México e na Colômbia, ou pacífica, como no Chile. Porém, mais cedo ou mais tarde, os liberais assumiram o poder por toda a parte. A história particular de cada nação, transmitiu um caráter e um timing especiais à tomada do poder liberal. A história nicaragüense, por exemplo, retardou o liberalismo, atribuindo temporariamente ao Progresso uma má reputação.


Por toda a parte, a América Central repetiu o padrão básico do triunfo liberal. Em 1850, todas as repúblicas centro-americanas tinham governantes conservadores, o mais poderoso sendo o grande caudilho guatemalteco Rafael Carrera, mencionado no capítulo anterior. Em seguida os liberais triunfaram em um país centro americano após o outro. El Salvador, o tradicional baluarte liberal do istmo desde a independência, veio primeiro, na década de 1850. Costa Rica, Guatemala e Honduras se seguiram, após uma demora, na década de 1870. Somente a Nicarágua resistiu a onda liberal. Por que? Os liberais nicaragüenses haviam caído em descrédito, assim como os conservadores mexicanos, mais ou menos na mesma época, convidando a intervenção estrangeira.


Mas a procura de um monarca como Maximiliano não foi nada liberal no estilo. Na busca de aliados externos, os liberais nicaragüenses importaram algumas dezenas de mercenários aventureiros do baluarte do liberalismo mundial, Os Estados Unidos. Esses aventureiros eram liderados por um tal de William Walker, nome que os norte-americanos nunca lembram, mas que os centro-americanos nunca esquecem. Walker foi um fundamentalista cristão visionário do Tennessee e, a seus próprios olhos, um missionário do progresso. O plano liberal deu errado quando Walker tentou, por iniciativa própria, colonizar a Nicarágua para os Estados Unidos. Com o apoio liberal e a força das armas, Walker fez-se por um breve período, presidente da Nicarágua. Ele proclamou o Progresso, incluindo a liberdade de culto, a língua inglesa e a concessão de terras a imigrantes norte-americanos. Walker também legalizou a escravidão, abolida na Nicarágua anos antes. O flibusteiro Walker foi capturado e executado, em 1860, por um exército centro-americano conjunto, mas o "mau cheiro" que deixou na Nicarágua manteve o Partido Liberal fora do poder por décadas. A Nicarágua só viria a aderir à tendência liberal do hemisfério na década de 1890.


O LIMITE DO PROGRESSO PARA AS MULHERES


O progresso podia ser interpretado de várias maneiras, obviamente. O que significou para as mulheres? A longo prazo, o liberalismo conduzia as mulheres em direções positivas, expandindo sua educação e oportunidades de vida. Mas em meados do século XIX, poucas mulheres latino-americanas beneficiavam-se dessas mudanças. A educação de meninas expandiu-se com uma lentidão torturante e as paredes domésticas continuavam confinando as vidas das mulheres casadas "decentes". Pouquíssimas mulheres conseguiram desempenhar papéis de liderança na vida pública durante o século XIX. Mas as que conseguiram agradeceram ao Progresso Liberal. Atualmente, vemo-las como pioneiras. Em sua própria época, a maioria das pessoas as via como estranhas.


As poucas mulheres que conseguiram alcançar a fama atuaram no mundo das letras. Gertrudis Gómez de Avellaneda, por exemplo, deixou sua Cuba nativa aos 22 anos e escreveu seus célebres poemas, peças teatrais e romances na Espanha, onde viveu pelo resto da vida. (Mesmo assim, a literatura latino-americana logo a reivindicou como sua representante.) Em 1841, ela publicou um romance que foi proibido em Cuba. O protagonista principal do romance Sab é um escravo cubano apaixonado por sua proprietária branca. Embora ela despose um inglês de olhos azuis, que o trata com crueldade, Sab sacrifica a vida por ela. No final do romance, a mulher percebe a superioridade moral de Sab, apesar da posição de escravo. Como o romance A Cabana do Pai Tomás, nos Estados Unidos, Sab tornou-se um argumento literário pela abolição da escravatura.


Em meados do século, escravos nas plantações do oeste de Cuba cultivavam cerca de um terço de todo o açúcar vendido no mercado mundial. Cuba ainda era uma terra de oportunidades para espanhóis peninsulares ambiciosos, de opulentos duques e duquesas e arbitrários burocratas reais e mal-remunerados soldados e balconistas de lojas. O governador real espanhol de Cuba governava com mão de ferro; um espírito patriótico cubano expresso na década de 1860 foi suprimido com selvageria. Foi então que começaram as duras guerras da independência cubana. A primeira parte foi a Guerra dos Dez Anos (1868-1878), contida pelas forças espanholas a leste de Cuba, longe das grandes plantações, em parte mediante uma trincheira fortificada que atravessara a ilha toda. Durante a guerra, um jornal revolucionário de Nova York republicou Sab para leitores patrióticos.


Atualmente a história de Sab pode parecer um melodrama lacrimogêneo, mas as pessoas em meados do século XIX comoviam-se com o romantismo sentimental. O tema de Sab permitiu aos leitores cubanos refletirem sobre as divisões raciais de sua sociedade e a possibilidade de superá-las através do amor. O tema do amor inter-racial era considerado escandaloso, especialmente o amor de um homem negro por uma mulher branca. Avellaneda rompeu as regras sociais não só em sua obra, mas também nos próprios casos amorosos com vários homens. As mulheres que se tornavam figuras públicas já estavam rompendo as regras normais do sexo feminino, de modo que muitas vezes também zombavam das convenções sexuais. O espírito de Avellaneda era considerado "masculino demais" para uma mulher.


A argentina Juana Manuela Gorriti foi outra escritora famosa da geração de Avellaneda. Os textos de Gorriti eram "femininos" e instrutivos, em vez de escandalosos. Mais do que Avellaneda, Gorriti preocupava-se com os problemas das mulheres. É sua vida, mais do que suas obras, que nos inspira atualmente.


Gorriti era uma menina de oito anos quando entrou em uma escola de convento. A política argentina interrompeu sua educação em 1831, quando o caudilho Facundo Quiroga forçou sua família liberal e emigrar para a Bolívia. Aos quinze anos, ela conheceu e desposou um jovem escuro, Manuel Isidro Belzú, que um dia se tornaria presidente da Bolívia. Belzú era um obscuro capitão à época e a alta, talentosa e loura Gorriti era considerada um bom partido. Ela teve três filhas e também lecionava, enquanto, enquanto Belzú avançava na carreira, mas ele a abandonou após nove anos de casamento.


Gorriti mudou-se para o Peru, onde continuou lecionando, além de começar a publicar seus textos. Sua estrela brilhou em Lima, onde ela se tornou uma influente jornalista. Ela também organizava "tertúlias", encontros noturnos onde homens e mulheres de bom gosto de Lima discutiam literatura e Progresso. Eles também ouviam música e viam encenações de teatro amador. (Mas não dançavam, Gorriti achava que as mulheres já haviam dançado o suficiente. O Progresso pedia atividades mais sérias.) O salão literário de Gorriti visavam predominantemente às mulheres. Eles eram didáticos, instruindo seus leitores sobre o comportamento e as ideais próprias de uma mulher moderna, muitas vezes inspirando-se em exemplos norte-americanos ou europeus.


A vida de Gorriti foi menos convencional do que seus textos. Em 1866, uma expedição naval espanhola que praticava a diplomacia de canhoneira nas costas do Chile e do Peru, bombardeou o porto de Lima e Gorriti foi uma enfermeira de campanha pioneira, ao estilo de Florence Nightgale. Nessa época, ela obtivera o divórcio de Belzú (um escândalo, embora ele a tivesse abandonado) e teve um filho sem casar novamente. De algum modo, sua posição como uma mulher excepcional fazia com que fosse aceita pela "sociedade educada". Em 1878, Juana Manuela Gorriti retornou a Argentina – não a remota região onde nascera, mas para Bueno Aires, a capital do progresso latino-americano. A cidade recebeu-a com pompas públicas como uma das mais notáveis mulheres latino-americanas do século.



Antes de deixar Lima, Gorriti ajudara a lançar a carreira de uma escritora mais jovem e ainda mais importante. Clorinda Matto de Turner, já chamara a atenção na Escola Secundária Feminina Nacional do Peru onde procurou instrução extracurricular em matérias "não-femininas" como física e biologia. Ela nem completara quinze anos quando se casou, em 1871. (Turner era o sobrenome do marido acrescentado, segundo a tradição, ao nome da esposa mediante a preposição "de". Assim, Clorinda Matto tornou-se Clorinda Matto de Turner.)


Matto de Turner escreveu Pássaros sem um Ninho em 1889, um dos mais importantes romances latino-americanos sobre os povos indígenas. As visões literárias anteriores haviam apresentado os povos indígenas latino-americanos como "selvagens" românticos do passado semimítico, mas o livro de Matto de Turner mostrou-os como peruanos sobre pobres habitando o presente. Como Sab, de Avellaneda, o romance contava um caso de amor inter-racial, dessa vez entre um homem branco e uma mulher indígena. A mulher é uma órfã cujos pais morreram tentando defender-se de brancos agressivos. De novo, uma romancista latino-americana estava explorando – e procurando superar – a profunda divisão racial de seu país. Conquanto branca e "respeitável", Matto de Turner advinha da Sierra, da antiga capital inca Cuzco. Ela considerava os povos indígenas como os peruanos mais autênticos e lutou em seu favor em sua atividade jornalística. Como boa liberal da época, ela também lutou contra o que via como influência corrompedora de sacerdotes imorais. Maus sacerdotes figuram em vários dos seus romances. Na verdade, o malfadado jovem branco e a donzela indígena não podem se casar, em Pássaros sem um Ninho, por que o pai de ambos, como acabam descobrindo horrorizados, é o mesmo sacerdote mulherengo.


Como sua mentora Gorriti, Matto de Turner organizou um salão literário e fundou um periódico para mulheres. Seus artigos, de tão controversos, fizeram com que seu jornal fosse queimado e ela, formalmente expulsa da Igreja Católica. Em 1895, o governo do Peru a deportou. Como Gorriti, ela viajou para a Argentina, onde viveu o resta da vida como educadora respeitada.


As vidas dessas mulheres excepcionais focalizam nossa atenção na educação e na alfabetização, na questão do liberalismo e raça e na importância dos modelos norte-americanos e europeus para as visões liberais do Progresso. Estes serão os temas de nosso próximo tópico: a reaparição liberal na Argentina e no Brasil.


MODELOS DE PROGRESSO


Os líderes liberais argentinos estavam entre os mais voltados para a Europa e literariamente inclinados. Três em particular representam o liberalismo argentino: Alberdi, Mitre e Sarmiento. Todos passaram longos anos no exílio durante a reação conservadora das décadas de 1830 e 1840, uma reação personificada na Argentina pelo grande caudilho Manuel de Rosas. Durante os anos de Rosas, os intelectuais liberais argentinos reuniram-se nos vizinhos Uruguai e Chile, enfurecendo-se com Rosas e escrevendo literatura política exaltada. Eram homens de letras, acima de tudo. Suas vidas exemplificam a paixão liberal pelas coisas européias e o vínculo estreito do liberalismo com a cultura escrita: educação, livros, jornais. Bem além da fé liberal costumeira no Progresso, os liberais argentinos dedicaram-se a transformar o povo argentino: culturalmente, pela educação e fisicamente pela maciça imigração européia.


Juan Bautista Alberdi, um homem que passou grande parte da vida adulta no exílio, influenciou o liberalismo argentino através somente de suas palavras. Nascido nas províncias, Alberdi estudara Direito em Buenos Aires e tornara-se uma espécie radical dos salões literários da década de 1830. Mas mesmo os liberais literários arriscavam a pele sob Rosas. Assim, Alberdi fugiu, através do Rio da Prata, para Montevidéu, onde se dedicou a promover bombas literárias em Buenos Aires. Montevidéu estava cheia de exilados liberais. Tratava-se na verdade, de um baluarte liberal internacional, protegido pelas esquadras britânicas e francesas, e defendido por heróis internacionais como o italiano Giuseppe Garibaldi. Alberdi passou quase dez anos de seu longo, e parcialmente auto-imposto, exílio no Chile.


Quando Rosas foi derrubado, em 1852, Alberdi publicou um tratado intitulado "Bases e Pontos de Partida para a Organização Política da República da Argentina", enviando cópias aos delegados reunidos para redigir uma nova constituição. Mas enquanto os inimigos liberais de Rosas retornavam à Argentina, Alberdi permaneceu no Chile e acabou servindo como um diplomata argentino na Europa, onde morreu mais de vinte anos depois. Dadas suas preferências pessoais óbvias por tudo que fosse europeu, suas prescrições para a Argentina não devem surpreender ninguém. Alberdi incitou o governo a encorajar a imigração européia, não apenas devido à baixa população argentina (menos de dois milhões), mas também, e com bastante franqueza, devido à suposta superioridade dos imigrantes europeus, cheios de virtudes morais e habilidades úteis. Gobernar es poblar (Governar é povoar) tornou-se slogan liberal. Alberdi também recomendou uma educação moderna para transformar a cultura Argentina, abrindo-a as influências européias. Em vez de estudar latim para ler a sabedoria dos antigos, argumentou Alberdi, os argentinos deveriam aprender inglês, língua da tecnologia e do comércio.


Bartolomé Mitre foi mais um homem de ação. Ele também era um escritor liberal em todos os sentidos. Ele escreveu história, biografias, poesia, um romance, traduções espanholas de clássicos europeus, bem como editoriais políticos aos milhares. Ao contrário do tímido Alberdi, Mitre também foi um grande orador público. Ele foi um líder militar e um estadista, talentos necessários na política argentina de meados do século XIX.


Mitre e Alberdi acabaram em lados opostos durante a tempestuosa década após a queda de Rosas. Eles concordavam sobre a imigração européia e a educação pública; o que os separava eram as rivalidades regionais dentro da Argentina. Em questão, acima de tudo, estava o relacionamento entre Buenos Aires (cidade e província) e as demais províncias argentinas.


A cidade de Buenos Aires – rica, altiva, dominante – era a antiga corte do vice-reinado e a via de acesso da Argentina ao mundo. Ela ofuscava todas as outras cidades argentinas em importância política, demográfica e econômica. Entretanto, faltava-lhe um bom porto. O mar em Buenos Aires era tão raso que os navios tinham de ancorar dez ou onze quilômetros ao largo e transferir passageiros e cargas para barcos menores. Os barcos tinham de parar uns 40 ou 45 metros longe do cais e descarregar cargas e passageiros em carretas semi-submersas na água rasa. As mercadorias e os passageiros muitas vezes se encharcavam. Os pastos ao redor de Buenos Aires eram os mais produtivos do país, mas não eram as únicas terras ricas da Argentina.


Em meados do século XIX, navios a vapor a caminho do mar puderam subir diretamente o rio, contornando a inconveniente Buenos Aires. A população rios acima aplaudiu, mas Buenos Aires não estava disposta a ser contornada. Tensões com o resto do país mantiveram Buenos Aires fora da nova Confederação Argentina, estabelecida em 1853. Pelo contrário, a Confederação situou sua capital 480 quilômetros rio acima. Enquanto Alberdi representava a Confederação Argentina na Europa, Mitre serviu Buenos Aires. A grande cidade e sua província circundante permaneceram separadas do resto da Argentina até 1860. Quando as forças de Buenos Aires – lideradas por Mitre – enfim derrotaram a Confederação, Mitre tornou-se presidente de uma Argentina unida.


Outro anti-rosista retornado do exílio para servir Buenos Aires independente (como diretor de escolas) foi Domingos Faustino Sarmiento, o mais influente de todos os liberais latino-americanos. Seu tratado anti-Rosas A Vida de Facundo, ou Civilização e Barbárie (1845), escrito no Chile, tornou-se a clássica denúncia do governo dos caudilhos na América espanhola. Sarmiento abraçou a cultura internacional através da literatura e da educação. Seu livro favorito, que estudou com o mesmo fervor de qualquer morador da Filadélfia ou de Boston, foi a Autobiografia de Benjamin Franklin. No Chile, onde viveu grande parte das décadas de 1830 e 1840, Sarmiento trabalhou como professor, balconista, chefe de mina e editor de jornal, antes de se enganjar na organização das escolas públicas chilenas. Estudou inglês a noite e, para treiná-lo, traduziu os romances de Sir. Walter Scott. Sarmiento criou pessoalmente a primeira cartilha e o primeiro instituto de formação de professores do Chile e viajou aos Estados Unidos e à Europa a fim de estudar técnicas de educação. Quanto Mitre tornou-se presidente, Sarmiento retornou aos Estados Unidos como seu representante diplomático. Em 1868, sucedeu Mitre como presidente (eleito, na verdade, enquanto nos Estados Unidos) e desembarcou em Buenos Aires com dez mulheres de Boston, que ele incumbiu do treinamento de professores em cada uma das dez províncias argentinas.



















sábado, 20 de fevereiro de 2010

Notas do livro Da Revolução Industrial Inglesa ao Imperialismo

Notas do livro Da Revolução Industrial Inglesa ao Imperialismo de Eric J. Hobsbawn
5° edição. Editora Forense Universitária

1 "Pressuponho um conhecimento elementar da história britânica a partir de 1750... Nomes como os de Peel e Gladstone, pesquisem esses temas por conta própria" (pág.9)

2"Não existem dados relativos à produção de carvão antes de 1854, nem números seguros acerca de desemprego antes de 1921" (pág.11)

3"A Revoluçõ Industrial assinala a mais radical trasnformação da vida humana já registrada em documentos escritos" (pág.13)

4"O ponto de vista defendido neste livro é o de que o relativo declínio da Grã-Bretanha deve-se, em termos gerais, à sua dianteira, mantida por muito tempo, como potência mundial" (pág.14)

5"A Grã-Bretanha sempre teve aberto diante de si um caminho de retirada quando o desafio das outras economias tornou-se demasiado forte, podíamos bater em retirada tanto para o Império como para o Livre Comércio - para nosso monopólio sobre regiões ainda não desenvolvidas, o que por seu turno ajudava a impedir que se industrializassem, e para nossas funções como eixo do comércio, da navegação e das transações financeiras do mundo. Não tinhamos que competir, podíamos fugir" (pág.14)

6"A economia mundial, única e liberal, que teoricamente se autoregulava, mas que na realidade exigia o painel controlador semi-automático da Grã-Bretanha... Após a Revolução Russa de 1917 e a II Guerra... A Grã-Bretanha viu-se afetada de maneira muito mais profunda. Já não era mais essencial ao mundo. Na verdade, no sentido do século XIX, já não existia um mundo ao qual ser essencial" (pág.15)

7" A Grã-Bretanha ainda em 1960 era a terceira força industrial do mundo"

Notas Extras: 1"É preciso conhecer a Revolução Puritana de 1640; a Revolução Gloriosa de 1688 e a Declaração de Direitos a (bill of rights) de 1689"

8"O radicalismo com que as instituições políticas e sociais formais de um país se transformam durante o processo de sua conversão num Estado Industrial e capitalista depende de 3 fatores: A flexibilidade, capacidade de adaptação e resistência das velhas instituições; urgência da necessidade de transformação; e os riscos inerentes às grandes revoluções" (pág. 16)

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

ANTIGUIDADE OCIDENTAL - ROMA

História da Antiguidade Ocidental

Notas de aula do Carlos Eduardo

O exército romano era formado pelas centúrias (grupos de cem) mas nem sempre obedecia este número, era composto de patricios e pebleus, e muito organizado. Dividido em enfantaria e cavalaria, o exercíto a partir de meados da república era formado por classes, a 1º classe é formada por patrícios e pebleus ricos, eram os propretários de cavalos e tinhamn todo o equipamento de guerra (escudo, elmo, lança, coraça do peito etc) na 2º classe o indivíduo só tinha a lança o dardo e a espada. Na 3º classe o dardo e a espada. Na 4º classe o sujeito só tinha a lança e o dardo. Na 5º classe a funda (estilingue) e também tinha o músico. O último grupo e o sentinela o mensageiro que não pertencia a nenhuma classe. A convocação era obrigatória dos 18 aos 46 anos no caso de deserção eram condenados a morte , geralmente tinham a cabeça arrancada.

A situação se agrava tanto que os pebleus que perderam tudo com a chegada dos escravos começam a realizar saques, estupros e roubos aos patrícios, os plebeus começam a se recusar a ir ao exercito, com a gravidade da situação e já que as magistraturas não estavam resolvendo a suituação da república, que era na verdade a insatisfação da plebe foi criado os triunviratos, (que seria o governo de três). Os três primeiros foram Julio Cesar, Pompeu e Crasso, o primeiro triunvirato da república foi de 60 a 44 a.C. era dividido por áreas conquistadas. Pompeu ficou com a HISPÂNIA (península Ibérica) Julio Cesar ficou responsável pela Gália (França atual) Crasso, ficou com a Ásia e a África, Julio Cesar foi um triunvirato muito expoente na república, nunca foi imperador, mas seu nome virou sinônimo, ele dominou quase toda a Gália sozinho. O trinvirato nem sempre foi harmonioso, a república valorizava muito os generais, eles eram homenagiados de duas formas a ovação – ele caminha pela periferia de Roma, e o triunfo – é a homenagem aos generais que tiveram grandes vitórias, ele entra na cidade junto com parte de sua tropa e vai até a parte sagrada da cidade nos templos com parte do seu espólio de guerra e alguns prisioneiros, ele vem vestido de púrpura e na mão traz um cedro de marfim, na mesma posição de júpiter o deus dos deuses romano, este general vitorioso recebe o título de imperator.

Não bastando todo desentendimento entre eles, Julio Cesar se apaixona por Cleópatra 7ª, que era da áera de Crasso, que não gostou, mas Crasso morre em uma guerra, com isso Julio Cesar não vai sair do Egito, sem voltar para Roma, Pompeu aproveita essa situação e se proclama cônsul vitalício, Julio Cesar não gostou e volta para Roma para matar Pompeu, mas a história conta que Pompeu morreu no Egito, com isso Julio Cesar volta para Roma e se proclama governador vitalício, o senado então percebendo que tinha dois governadores querendo governar sozinho, manda chamar Julio Cesar e o mata no senado é o fim do 1º triunvirato.

Posteriormente foi formando o 2º triunvirato, seu período foi de 40 a 31 a.C. durante os quatros anos do fim do 1º triunvirato para o início do 2º ocorreu um caos completo em Roma, o 2º triunvirato foi formado por Marco Antonio, Lépido e Otávio. Marco Antonio que era cônsul fica com o oriente, parte do Egito (África) e parte da Gália, Otavio que era general ficou com a península Itálica, e o Lépito que tambem era general ficou com a África e uma parte pequena da Gália.

Marco Antonio se envolve com Cleópatra, a mesma de Julio Cesar, com isso vai ser criada uma nova briga, mas entre Marco Antonio e Otávio. Os dois resolvem eliminar Lépido para dividir sua parte, Lépido percebe e foge para a Ásia, e a historia não tem ideia do seu fim. Mas isso não resolve o problema entre eles pelo contrário a coisa piora, Marco Antonio percebeu que Otávio queria o poder assim como ele. Otavio então avisa os romanos que Marco Antonio tinha um filho egípcio, o Cesarium, que na verdade era filho de Julio Cesar com Cleópatra, com isso Otavio insufla a população de Roma, que o autorizou a levar um exercito ao Egito, e matar Marco Antonio, e Cleópatra, o Otávio foi o grande vitorioso e implanta o império, já que ele já tinha o titulo de imperator. (Quanto a morte de Marco Antonio e Cleópatra existem varias versões não comprovadas historicamente que dizem que ele se matou junto com Cleópatra.

domingo, 16 de agosto de 2009

Devoção e vida cotidiana à volta da Igreja do Carmo no séc. XVIII

Restauração da Igreja de Nossa Senhora do Carmo da Antiga Sé

Capacitação de professores

Palestra: Devoção e vida cotidiana a volta da Igreja do Carmo no séc. XVIII

Devoção e vida cotidiana à volta da Igreja do Carmo no séc. XVIII

Mary Del Priore: Historiadora membro do IHGB

Professora do curso de pós-graduação da UNIVERSO / Universidade Salgado de Oliveira

Em janeiro de 1747, na presença do senhor Bispo e dos membros da Câmara foi lançada a pedra fundamental do templo dedicado a Nossa Senhora do Carmo. Nesta época, segundo um viajante de passagem, "O Rio de Janeiro não era grande". Não por falta de espaço, pois, na parte traseira da cidade havia um agradável prado, rodeado por montanhas. O centro urbano, contudo, se concentrava exatamente na frente da futura igreja, ou seja, no Largo do Paço, também conhecido como terreiro da Polé, porque aí se erguia o pelourinho, temido por castigar ladrões e escravos.

A rua mais freqüentada, onde se encontrava o maior número de estabelecimentos comerciais era, então, chamada pelos habitantes de rua grande. A hoje, 1° de março, por sua vez, era bastante larga e muito comprida, permitindo a passagem de até três carruagens ao mesmo tempo. O convento de São Benedito, cuja a igreja era considerada a mais bonita, estava situado no fim dessa rua. No extremo oposto, se achava o convento dos jesuítas. "No meio da rua principal, do lado do mar, situa-se a casa do governador que – conta-nos o francês viajante – não é grande coisa. Há muitas outras ruas menores, mas que não deixam de ser bonitas, bem traçadas e repletas de casas bem".

A história da Igreja, instalada no mais importante da cidade começou com música e festa. No dia em que tiveram início às obras, a praça do largo do Paço estava enfeitada. Das janelas das casas pendiam os mais finos tecidos e melhores colchas da Índia. As ruas que dela saíam tinham sido atapetadas com capim cheiroso e folhas de laranjeiras. Um cortejo de tambores acordara a comunidade enquanto uma orquestra de trombetas, tambores e címbalos convidavam o povo a se alegrar com a novidade. Repicavam, alegres, os sinos. Passavam os estandartes das irmandades religiosas. Alguns moradores caiaram e iluminavam as fachadas de suas casas com as chamadas "festivas luminárias", panelinhas de barro contendo azeite de mamona e uma ponta de algodão que se acendia. Os mais pobres usavam cascas de laranja como recipientes. Mas o barulho das festividades que marcaram a inauguração da igreja, servia, também, para encobrir a tensão que existia entre o bispo e as irmandades de N. S. Do Rosário e S. Benedito ansiosas por estabelecer um templo para seus devotos, os mulatos e negros livres e escravos, que não podiam se misturar aos brancos livres.

A vista que se tinha, nesta época, da Igreja, dava para um pobre terreiro à beira-mar. Além dele, se viam as praias ainda desertas de Niterói e as várias ilhotas dispersas no fundo da baía. O embelezamento do Paço começou, em 1735, quando o Governador Gomes Freire de Andrade resolveu construir aí a sede do governo: um prédio de dois andares feito em pedra lavrada. O terceiro piso, com 12 janelas, só foi levantado, mais tarde, por D. João VI, em 1814. Em 1770, outra novidade: o vice-rei Luís de Vasconcellos mandou erigir um cais de atracação, com três escadas para o mar e uma rampa para embarcações. Ele foi inaugurado em março de 1789. Bem no meio do cais, dando para as águas da baía, pronto a abastecer com água potável tanto os navios que chegavam quanto a população, o chafariz "da pirâmide", obra de mestre Valentim. Graças a todas estas modificações, o Largo do Paço com sua bela igreja se tornou um dos lugares mais animados da pequena cidade do Rio de Janeiro, na segunda metade do século XVIII.

Diante das grandes portas de madeira lavrada do Carmo, cruzava a praça, em lombo de burro ou de escravo, tudo o que servisse como provisão nas embarcações: charque, açúcar, cachaça, tabaco e lenha. A cidade era um porto de escala para navios estrangeiros, sem contar que o aumento do comércio internacional, a partir de 1808, deixou este ponto ainda mais vivo. Disputavam cada pedaço de chão de terra batida, desde canoeiros a plantadores da roça que vinham expor seus produtos, a marinheiros e traficantes de escravos carregadores brancos e de pés descalços assim como escravos africanos, curvados sob o peso de fardos. Dezenas de escravos de ganho, com seus tabuleiros na cabeça, ofereciam alimentos preparados em casa, bebidas refrescantes ou frutas da estação. Na rua grande, se apertavam, lado a lado, lojas e empórios com seus produtos expostos à porta. Do fundo dos corredores vinha o barulho dos pregões e do vozerio de vendedores e compradores; uns expondo as mercadorias, outros, regateando o preço. Sacos de secos e molhados, se acumulavam junto às gaiolas com galinhas, macacos, lagartos e porcos do mato.

Um pouco mais abaixo, viam-se os tabuleiros do mercado de peixe, de onde partiam os gritos dos comerciantes oferecendo os seus produtos a preço baixo. Um odor nauseabundo inundava as narinas de quem passasse. O mercado de escravos não ficava longe e era comum que vendedores expusessem sua mercadoria, para melhor análise do comprador, nas imediações do Arco do Telles. Das varandas fechadas com treliças, no segundo andar dos sobrados eu cercavam a praça, mulheres observavam sem ser vistas.

Em quase todas as esquinas da rua grande, se podia encontrar um pequeno nicho onde estava colocada uma imagem da Virgem ou de outros santos, imagem eu permanecia iluminada por uma lanterna à noite. Todo o final de tarde, o povo se reunia em torno deles para cantar o rosário. Até as prostitutas que ofereciam seus favores aos passantes, próximos ao Arco do Telles, não admitiam começar a trabalhar antes de findas as Ave-Marias.

Um marido jamais caminhava ao lado de sua esposa na rua grande ou em qualquer outra. Ele seguia alguns passos à frente, sempre com sua espada a mostra sob o manto. Á esposa se fazia acompanhar algumas vezes dos parentes ou dos amigos e, impreterivelmente, de muitas negras e mestiças que a seguiam em fila indiana; essas escravas usavam vestidos e traziam cabelos cobertos por um lenço ou peça de musselina. Mesmo quando carregadas em cadeiras ou redes, as mulheres não dispensam tal cortejo, como registraram vários viajantes estrangeiros.

Os escravos que circulavam nas imediações do Paço, - contam, também, os viajantes – mostravam o abandono em que viviam. Os homens andavam quase nus, vestidos com um calção, ou quando as voltas com suas sandálias diárias, com um simples pano. Alguns tinham, contudo, uma camisa e um casaco. Os negros libertos portavam as mesmas vestes e o mesmo manto dos brancos. As mulheres vestiam saia e um tipo de camisa, parecida com as nossas camisas de homem, cuja parte da frente era aberta e ligada por um colete. Elas não ousavam aparecer na rua durante do dia. Só era possível vê-las aos domingos e dias de festa, na missa. Algumas poucas tinham liberdade de sair no final da tarde para cantar o rosário. Quando saíam de casa, portavam sempre uma grande capa de lã de aproximadamente duas varas de altura por uma de largura. E isto independentemente do calor de que fazia. A capa era ajustada de tal modo que a diagonal ficava no meio das costas; uma das pontas era utilizada como um capuz semelhante aquele dos carmelitas e agostinianos, a ponta oposta servia para esconder o rosto; as duas outras cobriam os ombros e os braços cruzando-se sobre a cintura. As negras usavam, na rua ou no campo, um chapéu para se protegerem do sol. Evitava-se mostrar o rosto e sobretudo, que elas levantassem os olhos para eles. Uma mulher que encarasse um homem era considerada uma despudorada.

A construção da igreja animava outra atividade social importante: a missa diária e em dias de festa. As mulheres chegavam por volta das sete horas da manhã acompanhadas de familiares e escravos. Sentadas no chão, esperavam o momento de se confessar conversando entre si chupando laranjas. Os ofícios eram longos e acompanhados de música. Por vezes, se ouviam até acordes de músicas profanas. O famoso músico, Padre José Maurício, mulato e pai de cinco filhos, executou ai peças que rivalizavam com a produção musical européia, da mesma época. As igrejas ficavam então, magnificamente iluminadas. Não faltaram viajantes estrangeiros a dizer que este momento era aguardado com muita ansiedade, pois se constituía numa das raras oportunidades para as mulheres se vingarem do excessivo ciúme dos maridos, escapando ao estado opressivo em que viviam. As igrejas eram de fato, lugares onde jovens enamorados trocavam sinais e aproveitavam o escuro de alguns altares para se beliscar, gesto de afeto, outrora. Ou para se enviar recados. E no escurinho dos ofícios, como dizia um padre, "por vezes, Deus dava licença ao Diabo".

Para os habitantes o Rio de Janeiro, a rua grande e a igreja do Carmo significaram no século XVIII, um espaço privilegiado. Espaço que investia o território urbano de sociabilidades plurais. A rua grande invadia o espaço sagrado da igreja, graças às vozes dos escravos oferecendo seus tabuleiros, dos comerciantes anunciando seus produtos, dos dialetos estrangeiros dos vários navegantes que por sua porta passavam, do choro dos africanos ao desembarcar na terra estrangeira. Ela era palco de trabalho, de relações afetivas, de discussões, de espetáculos e mesmo de morte. Já a Igreja do Carmo, traduzia a devoção e a identificação religiosa de toda uma população. Dela saíam as mais importantes procissões: a do enterro na noite da Sexta-Feira da Paixão, com tochas, archotes e cantos fúnebres, e a de corpus Christi, com a tropa militar formada e a presença de São Jorge, guerreiro armado e a cavalo. Mas o espaço sagrado foi também cenário de acontecimentos políticos importantes. Elevada a Capela Real em 1817, a Igreja do Carmo foi o palco o casamento de D. Pedro I com Leopoldina de Habsburgo. E nela mesma, já elevada a catedral em 1824, o imperador jurou, em 25 de março, a primeira constituição brasileira.