sábado, 20 de março de 2010

América Latina Uma História de Sangue e Fogo

América Latina

Uma História de Sangue e Fogo


John Charles Chasteen

Do livro América Latina Uma História de Sangue e Fogo p.125 a p.201



Benito Juárez:O grande presidente liberal do México, contemporâneo e amigo de Abraham Lincoln, foi um indígena zapoteca que aprendeu espanhol na adolescência. Juárez representa o difícil triunfo do liberalismo mexicano em meados do século. O liberalismo encorajara a ascensão de alguns mestiços ou mesmo indígenas talentosos como Juárez, embora as classes superiores permanecessem totalmente brancas e o prestígio das idéias racistas estivesse crescendo internacionalmente, quando foi tirada esta fotografia, na década de 1860. Cortesia da Bancroft Library, Universidade da Califórnia, Berkley.



O Progresso


Em 1850, o conservadorismo latino-americano estava em alta. Depois, no quarto de século seguinte, os liberais surpreendentemente voltaram a supervisionarem um longo período de expansão econômica baseada em exportações. Enfim, os países latino-americanos se integrariam plenamente ao livre fluxo do comércio internacional. As transformações sociais e econômicas tão desejadas pelos liberais em 1825 enfim ganharam impulso.

O retorno dos liberais foi, em parte, uma simples volta do pêndulo. Qualquer ideologia oficial, qualquer quadro dirigente tende a cair em descrédito após décadas no poder. A rejeição conservadora aos sonhos liberais prometera "um retorno a sensatez" na década de 1830, um restabelecimento da ordem, um apelo aos valore tradicionais. Mas a virtudes da segurança desvaneceram-se à medida que os anos passaram e os benefícios da paz pareceram cada vez pior distribuídos. Gradualmente, todos aqueles fora do círculo privilegiado do clientelismo oficial passaram a clamar por mudanças. Talvez, pensava um número crescente de latino-americanos, os sonhos liberais de uma sociedade transformada não fossem tão loucos assim. Os proprietários rurais queriam uma chance de vender café, peles ou tabaco no mercado internacional. A classe média urbana queria ruas pavimentadas, bibliotecas, esgoto e parques. Muitos colocaram suas esperanças nas novas energias associadas à economia internacional após 1850.


A Revolução Industrial estava se acelerando na Europa e nos Estados Unidos no período de 1850 a 1875. Os industriais viam a América Latina como um mercado potencial para seus produtos manufaturados.


Os trabalhadores industriais europeus e norte-americanos constituíam um mercado para o açúcar e para o café cultivados na América Latina. Os lucros industriais – especialmente na Inglaterra, onde, ao contrário dos Estados Unidos, não foram desviados por nenhuma guerra civil – produziram mais capital do que poderia ser reinvestido em casa. Á anterior escassez de investimentos na América Latina seguiu-se uma enxurrada de capitais internacionais. Não só governos, mais também empresários privados contraíram empréstimos para construir ferrovias e instalações portuárias. A revolução industrial, a mecanização da manufatura, ainda não começara na América Latina. Fábricas eram raras. Mas a tecnologia da máquina a vapor do século XIX revolucionou a ligação da América Latina com o mundo exterior.


A Revolução dos transportes na América Latina significou, acima de tudo, navios a vapor e ferrovias. Os veleiros de madeira sofriam com os ventos traiçoeiros e carregavam menos carga do que os vapores de casco de ferro que gradualmente os substituíram. Os vapores transpunham os mares com mais rapidez e segurança do que os veleiros. Locomotivas a vapor acabariam mudando profundamente o transporte terrestre, que dependera principalmente de mulas de carga ou carros de boi. Em geral, mulas e carros de boi limitavam a agricultura de exportação, rentável as planícies costeiras. As ferrovias, embora caras de construir, abriam acesso a enormes áreas, estimulando a agricultura em praticamente toda localidade ao longo dos seus trilhos. Como se não bastasse a máquina a vapor, as linhas telegráficas, capazes de transmitir instantaneamente mensagens escritas, introduziram outro milagre tecnológico do século XIX: a eletricidade. Como instalar fios era mais fácil do que colocar trilhos, cavar túneis e erguer pontes, as linhas telegráficas muitas vezes deixavam as vias férreas para trás. Um cabo telegráfico transatlântico já havia sido estendido através do fundo do Oceano Atlântico, ligando o Brasil a Europa em 1874.


As novas tecnologias transformaram as comunicações arriscadas, imprevisíveis e caras da América Latina com o resto do mundo. Mas a perspectiva de contato com esse mundo externo começou a assustar a elite latino-americana, para quem a Europa permanecia um modelo cultural. Afinal, as "pessoas respeitáveis", reivindicavam a prioridade social devido a raça e cultura européias. Mas como se sairiam em presença de europeus reais? Eles ridicularizariam as tentativas das "pessoas respeitáveis" de imitá-los? Eles achariam a América Latina destituída de Progresso?


O Progresso (com P maiúsculo) foi o grande tema do Ocidente no século XIX. A Revolução Industrial e dos Transportes haviam reordenado profundamente as sociedades e afetado a vida de todos. Mesmo quando resultava em sofrimento, as pessoas admiravam a mudança. De algum modo, a idéia do avanço tecnológico inevitável e universal – idéia acalentada até hoje – já empolgava a imaginação das pessoas. Uma nova idéia hegemônica vinha substituir a velha versão colonial. Em um mundo aonde o progresso parecia inexorável, a bem informada elite latino-americana queria fazer parte dele. Como outras classes dirigentes do Ocidente, ela se preocupava com a erosão das antigas virtudes pelo materialismo moderno, mas aceitava o materialismo mesmo assim. Exportar algo em troca de libras esterlinas, dólares ou francos era a maneira óbvia de satisfazer o desejo de estar atualizada em termos europeus. A receita das exportações, afinal, podia comprar arame de aço, máquinas de costura e máquinas a vapor. Em outras palavras, a receita das exportações podia literalmente importar o Progresso – pelo menos, assim acreditava a elite.


Em meados do século XIX, o Progresso estava se tornando uma espécie de religião secular, os liberais sendo seus profetas. Ainda em 1810, sua visão de progresso tivera uma ênfase política: repúblicas, constituições, eleições. Ao que se revelou, esse tipo de progresso estagnou em um lamaçal de interesses conflitantes. O progresso tecnológico, por outro lado, ainda tinha uma reputação invencível e os liberais latino-americanos se beneficiaram da enorme persuasividade da idéia. Os anos de 1850 a 1875 viram uma mudança política em toda a América Latina, a inevitabilidade do Progresso tornando-se simples bom senso para a elite educada. As pessoas continuaram seguindo caudilhos e patrões. Os interesses econômicos continuaram colidindo. Mas, por toda a América Latina, os liberais ganharam vantagem pegando "a onda do futuro".


Famílias em ascensão social tendiam a aderir ao Partido Liberal, enquanto o status consagrado tornava outras famílias conservadoras. A oposição a Igreja Católica – sua riqueza, seu poder e seus abusos – distinguia os liberais. Em essência, os liberais sempre representaram a mudança e a Igreja simbolizava o passado colonial. Para os conservadores, que lembravam a era colonial como uma época pacífica em que os arrogantes mestiços sabiam qual era seu lugar, o passado se afigurava atraente, embora oposto ao Progresso. E após meados do século, o progresso parecia imbatível. A sempre dramática história do México fornece um excelente exemplo.


A REFORMA LIBERAL DO MÉXICO


Em nenhuma outra parte a Igreja colonial fora tão onipresente nas vidas das pessoas. A Igreja mexicana possuía muitas propriedades: imóveis legados em testamentos ou tomados em hipotecas de empréstimos, nos séculos em que a Igreja foi a principal instituição de crédito do México. Essas propriedades não paravam de crescer porque a Igreja nunca morria, nem tinha suas propriedades divididas entre herdeiros.Em meados do século XIX, a Igreja detinha cerca de metade das melhores terras cultiváveis do México, além de mosteiros, conventos outros imóveis urbanos, sem falar nas próprias Igrejas. Especialmente no centro e no sul México, a sociedade rural se organizava em torno de aldeias agrícolas e cada uma delas em torno de uma igreja. Em geral, o sacerdote era um líder local e, ás vezes, um pequeno tirano. De acordo com a lei espanhola tradicional, ainda em vigor, o clero desfrutava de amplas regalias legais – o fuero – e os sacerdotes das paróquias muitas vezes se sustentavam cobrando taxas pelos serviços religiosos. Além disso, os mexicanos eram obrigados por lei a pagar um décimo da renda à Igreja o dízimo.


A independência fora uma época de sacerdotes progressistas como Hidalgo e Morelos, mas eles aparentemente desapareceram em meados do século, quando o próprio papa liderou um contra-ataque espiritual contra o evangelho do Progresso. Os europeus denominaram esse conservadorismo eclesiástico ultramontano, por emanar além dos Alpes, ou seja, de Roma. O conservadorismo ultramontano tornou-se política católica oficial e clérigos dogmáticos, sobretudo uma onda de sacerdotes militantes chegados da Espanha naqueles anos se recusaram a aceitar os controles governamentais sobre os assuntos eclesiásticos. Toda a América espanhola, bem como o Brasil, sentiram o impacto do conservadorismo ultramontano, mas ninguém o sentiu como o México.


Religião e política haviam sempre estado juntas no México. A linguagem das lutas pela independência mexicana, anos antes, fora infundida de religião e a maioria dos liberais das décadas de 1830 e 1840 vira a Igreja como uma parte necessária da ordem social do país. Depois, a medida que a Igreja de meados do século tornou-se explicitamente antiliberal, os liberais tornaram-se mais anti-igreja. Isso não os tornava necessariamente irreligiosos – embora alguns o fossem. (O importante liberal mexicano Melchor Ocampo, por exemplo, causou grande escândalo ao anunciar a inexistência de Deus.) Na maioria, os liberais mexicanos direcionavam sua ira contra a Igreja Católica como uma instituição; eles eram mais anticlericais do que anti-religiosos. A riqueza improdutiva a da Igreja e as regalias do fuero desfrutadas pelo clero constituíam afrontas ao Progresso, raciocinavam os liberais. A ira do anticlericalismo liberal revela-se em uma história (verdadeira ou não) que Ocampo gostava de contar sobre um sacerdote que recusou um enterro cristão a um menino morto enquanto não recebesse seu pagamento. Quando o pai do menino perguntou o que deveria fazer, o sacerdote da história respondeu: "Por que você não o salga e come?" Para os conservadores mexicanos, por outro lado, religião, Igreja e clero eram a mesma coisa. "Religião e fueros!" Tornou-se seu brado de guerra.


Quando os liberais mexicanos começaram a sua grande rebelião de meados do século – o início de um período inteiro denominado Reforma -, o presidente era, de novo, o velho caudilho António López de Santa Anna, que atuara por toda a parte para evitar as mudanças por uma geração. Santa Anna enfim partiu para o exílio em 1855. Enquanto Santa Anna representava a política mexicana tradicional no início da era pós-independência, os liberais que se reuniram contra ele representavam um México alternativo. Seu líder era Juan Alvarez, um caudilho mestiço rígido das montanhas emaranhadas do sul do México indígena. Alvarez fora um patriota (começando com padre Morelos) desde a década de 1810, quando Santa Anna ainda era um realista. Naquele momento um homem velho e com pouca experiência política, Alvarez tornou-se o presidente sem autoridade após a partida de Santa Anna. Mas os verdadeiros cruzados liberais de meados do século eram homens mais jovens, homens educados versados nas palavras e nas leis. Um deles era Melchor Ocampo, já mencionado. Assim como Alvarez, Ocampo era mestiço, homem de origem humilde, mais extraordinário talento: um cientista amador, economista, poliglota, dramaturgo e advogado profissional. Ocampo exemplifica um tipo particular de liderança liberal: homens jovens, urbanos, mestiços, em ascensão social para quem o progresso oferecia avanços pessoais. Benito Juárez, a primeira pessoa de ascendência plenamente indígena a se tornar governador de um estado mexicano, também fornece um exemplo atípico, mas altamente simbólico.



Juárez, assim como Ocampo, era um órfão sem outra alternativa na vida senão ascender. Aos doze anos, cansou-se de cuidar das ovelhas do tio nas montanhas, deixou sua aldeia zapoteca e viajou até a cidade provincial de Oaxaca, onde sua irmã já trabalhava como cozinheira. Ali, ele adotou trajes europeus (celebrizando-se pela formalidade de sua sobrecasaca preta) aperfeiçoou o espanhol e acabou estudando Direito no novo Instituto de Artes e Ciências público de Oaxaca, que existia graças ao governo liberal pós-independência do México. Juárez depois exerceu o direito em Oaxaca, a certa altura representando aldeões pobres contra um sacerdote supostamente abusivo, caso que o levou (Juárez e não o sacerdote) à prisão por alguns dias. Mais tarde, ele foi eleito para o legislativo estadual e para o Congresso Nacional, e serviu cinco anos como governador de Oaxaca. Mas Juárez abandonou a identidade zapoteca ao envergar sobrecasaca preta. Ele não representava os interesses dos zapotecas em particular, ou dos povos indígenas como um grupo. Chamá-lo de índio era insultá-lo e ele ás vezes passava pó de arroz para clarear a tez escura. Mas todos em Oaxaca – e mais tarde, todos os mexicanos – sabiam a origem de Benito Juárez. Seus inimigos chamavam-no de "um macaco vestido como Napoleão", mas para muitos mexicanos a ascensão pessoal de Benito Juárez confirmava a promessa do liberalismo.


Entre os primeiros decretos da Reforma Liberal, estava a Lei Juárez de 1855, que atacou os fueros militares e eclesiásticos, dando notoriedade nacional ao seu autor. Alguns meses depois, os liberais decretaram a Lei Lerdo (1856), abolindo a propriedade coletiva de terras.
Essa lei atingia basicamente a Igreja, que teria que se desfazer de suas vastas propriedades, mas como efeito secundário ameaçou as terras comunais das aldeias indígenas.
O credo da Reforma glorificava o esforço, a propriedade e a responsabilidade individuais. Segundo os liberais, a distribuição das terras das aldeias como propriedade privada motivaria cada família individual a se esforçar mais, devido ao egoísmo inerente (nessa visão) à natureza humana. Mas os aldeões indígenas tinham sua própria visão e acreditavam que as terras comunais os beneficiavam.
Por essa razão, alguns aldeões indígenas aderiram às "pessoas respeitáveis" e outros conservadores sob a bandeira da "Religião e Fueros", opondo-se à Reforma liberal da década de 1850.


A reforma durou apenas poucos anos, até um General conservador arrebatar a presidência e dissolver o Congresso, em 1858. Uma guerra civil total irrompeu. Fugindo para os baluartes liberais nas cidades mineradoras mestiças do Norte mexicano, os reformadores escolheram Benito Juárez para comandar suas forças. Escolheram bem, porque mesmo quem não gostava de Juárez respeitava-lhe a determinação. Os conservadores controlavam a maior parte do exército, mas os liberais desfrutavam agora de apoio popular generalizado. O governo de Juárez logo retomou a Cidade do México, mas os problemas dos liberais não acabaram. A guerra civil arruinara o Estado mexicano e Juárez suspendeu o pagamento da dívida externa. França, Espanha e Grã-Bretanha retaliaram ocupando coletivamente Veracruz. De início, essa ocupação pareceu mais um episódio da diplomacia da canhoneria. Os franceses, porém, tinham outra motivação.

Em desespero, os conservadores mexicanos derrotados recorreram à sua arma secreta: um monarca. Napoleão III, da França, queria expandir as influências francesas na América Latina. (Na verdade, os franceses forjaram o nome "América Latina" naquela época para que sua influência parecesse natural. Antes de meados do século XIX, mencionava-se México, Brasil ou Argentina, e também a "América", mas nunca a "América Latina". Como o francês, à semelhança do espanhol e do português deriva diretamente do latim, o termo "América Latina" implicava um parentesco cultural com a França). Napoleão III gentilmente supriu os conservadores mexicanos com um monarca potencial obediente aos interesses franceses.


O aspirante a imperador do México, Maximiliano, era um homem bem intencionado de uma das maiores dinastias reais da Europa, os Habsburgos. Antes de aceitar o plano, Maximiliano indagou honestamente se o povo mexicano de fato queria um imperador. Os conservadores mexicanos garantiram que sim.


Assim, tropas francesas invadiram o México central em 1862 e instalaram Maximiliano como imperador dois anos depois. De novo, Benito Juárez retirou-se para o norte a fim de liderar a resistência, desta vez encontrando um poderoso aliado nos Estados Unidos. A intervenção francesa representava um óbvio desafio ao domínio norte-americano sobre o México. Napoleão III atacara durante a Guerra de Secessão, quando havia pouco perigo de interferência dos EUA. Mas em 1865, a guerra acabou, a ajuda norte-americana a Juárez aumentou e Napoleão III decidiu retirar as forças francesas do que se tornara uma cara confusão. Maximiliano permaneceu no México, onde foi capturado e executado. Sua esposa, a glamorosa imperatriz Carlota, escapou. Ela conseguiu retornar a Europa, mas ficou louca pelo resto da vida.


Benito Juárez retornou a Cidade do México como presidente. Os conservadores mexicanos caíram em total descrédito ao convidarem a invasão francesa; eles jamais voltariam a governar o México. Nem o catolicismo jamais recuperaria a antiga proeminência na sociedade mexicana.


Por outro lado, o triunfo do liberalismo reforçara uma atmosfera nacionalista que vinha crescendo no México havia décadas. A perda de tanto território nacional para os EUA alimentou um espírito de resistência nacionalista. Em uma tentativa de satisfazer os sentimentos patrióticos dos mexicanos, em seu primeiro Dia da Independência no México, Maximiliano fizera uma peregrinação pública à igreja onde o Padre Miguel Hidalgo começara a rebelião de 1810. O imperador fez certa encenação política, tocando o sino da igreja de Hidalgo e, em outra ocasião, envergando um poncho e mostrando seu gosto pela comida mexicana. Ao enfrentar o esquadrão de fuzilamento, entre as últimas palavras de Maximiliano estavam "Viva México!" Mas não adiantava, os conservadores apelaram para o nacionalismo na década de 1860. Juárez, zapoteca de pó de arroz, era simplesmente um símbolo nacionalista mais convincente do que Maximiliano vestido de mariachi.


OUTROS PAÍSES ADEREM A TENDÊNCIA LIBERAL


Colômbia e Chile são dois outros exemplos da dicotomia liberais / conservadores sobre a questão da Igreja. O ano de 1861 foi marcado por importantes vitórias liberais, na hora certa, em ambos os países.


Os liberais colombianos haviam atacado a Igreja desde a época de Bolívar. Depois veio a reação conservadora da geração pós-independência. Os governos da década de 1840 restauraram o fuero eclesiástico, eliminado pelos liberais, e chegaram a convidar a ordem jesuíta a retornar à Colômbia (os jesuítas, conhecidos pela lealdade ultramontana ao Vaticano, foram católicos demais mesmo para o Império Espanhol, sendo expulsos da América espanhola em 1767) Os liberais colombianos, ao reaparecerem na década de 1850, expulsaram novamente os jesuítas e repetiram a usual rotina anticlerical: remover o fuero, tornar o dízimo voluntário, insistir no controle governamental sobre o clero católico e até legalizar o divórcio.


Em 1861, o caudilho colombiano Tomás Cipriano de Mosquera entrou em Bogotá à testa de um exército e iniciou duas sólidas décadas de governo liberal. Mosquera era um clássico caudilho hispano-americano: herói da independência, general aos trinta anos, longe de ser um idealista político. Como o Mexicano Santa Anna, Mosquera teve a honra de ser presidente tanto pelos liberais como pelos conservadores.


Na outra extremidade da América do Sul, o Chile tinha um ar imponente e excepcional no século XIX. Em uma época quando os palácios presidenciais pareciam ter portas giratórias e seus ocupantes raramente ficavam até o fim do mandato, o Chile foi governado por apenas três presidentes, todos conservadores. Cada um cumpriu dois mandatos consecutivos – um total de dez anos – e nenhum foi derrubado por uma revolução: José Joaquim Prieto na década de 1830, Manuel Bulnes da década de 1840 e Manuel Montt na década de 1850. O estado chileno devia sua notável estabilidade sobretudo ao excelente sistema de eleições manipuladas. Mesmo assim, os governos conservadores permitiam uma incomum liberdade de pensamento e expressão, e supervisionaram um período de expansão das exportações. Esse antigo canto remoto da América espanhola agora pululava de comerciantes europeus. E o que floresceu sob essas condições? O liberalismo, é claro.

O Chile experimentou uma dose prematura de liberalismo revolucionário durante as lutas da independência e na década de 1920, antes que os conservadores assumissem o poder, mas nada tão traumático como no México. O Chile era um tipo de lugar diferente do México. Sua pequena população indígena, descendentes dos araucanos semi-sendentários, habitava o extremo sul, além de uma linha de fortes. Os araucanos não faziam parte da sociedade nacional. A principal classe de proprietários de terras chilenos vivia em um compacto vale central, paralelo à costa. O trigo do vale central do Chile, bem como o cobre e a prata, encontraram um vantajoso escoadouro na exportação logo após a independência, enquanto a economia do México continuava falhando.


Assim como no México, os liberais chilenos criticaram as relações entre Igreja e Estado em meados do século XIX. Como a Igreja chilena nunca fora tão rica e poderosa quanto a mexicana, a discussão no Chile não foi tão acirrada. Mesmo assim, a liberdade de culto constituía um valor liberal fundamental. Uma religião estatal oficial, segundo os liberais chilenos, constituía um vestígio do colonialismo espanhol. Os liberais chilenos escreveram denúncias eloqüentes de toda herança espanhola, contrária, a seus olhos, ao Progresso e a Civilização.


O progresso já vinha se manifestando no Chile em meados do século XIX, o presidente nesse período, Montt, que já fora Ministro da Educação, realizou vários projetos progressistas, incluindo ferrovias, telégrafos, sistemas de distribuição de água e escolas. Gradualmente, a agenda conservadora se dissociara da vida chilena. Assim, a influência militante do conservadorismo ultramontano sobre a Igreja chilena trouxe problemas. O próprio presidente Montt viu-se envolvido em um conflito com o arcebispo e, no final de seu segundo mandato, 1861, favoreceu um candidato liberal para presidente. A mudança foi pacífica, mas decisiva. Os liberais chilenos permaneceram no controle por trinta anos de administração ordeira e Progresso, nos quais limitaram a influência da Igreja modernizaram a capital Santiago e manipularam as eleições com a mesma habilidade dos conservadores que os precederam.


Como já deve estar claro, a reaparição liberal pós-1850 na América Latina possui uma qualidade repetitiva. Ela podia ser turbulenta, como no México e na Colômbia, ou pacífica, como no Chile. Porém, mais cedo ou mais tarde, os liberais assumiram o poder por toda a parte. A história particular de cada nação, transmitiu um caráter e um timing especiais à tomada do poder liberal. A história nicaragüense, por exemplo, retardou o liberalismo, atribuindo temporariamente ao Progresso uma má reputação.


Por toda a parte, a América Central repetiu o padrão básico do triunfo liberal. Em 1850, todas as repúblicas centro-americanas tinham governantes conservadores, o mais poderoso sendo o grande caudilho guatemalteco Rafael Carrera, mencionado no capítulo anterior. Em seguida os liberais triunfaram em um país centro americano após o outro. El Salvador, o tradicional baluarte liberal do istmo desde a independência, veio primeiro, na década de 1850. Costa Rica, Guatemala e Honduras se seguiram, após uma demora, na década de 1870. Somente a Nicarágua resistiu a onda liberal. Por que? Os liberais nicaragüenses haviam caído em descrédito, assim como os conservadores mexicanos, mais ou menos na mesma época, convidando a intervenção estrangeira.


Mas a procura de um monarca como Maximiliano não foi nada liberal no estilo. Na busca de aliados externos, os liberais nicaragüenses importaram algumas dezenas de mercenários aventureiros do baluarte do liberalismo mundial, Os Estados Unidos. Esses aventureiros eram liderados por um tal de William Walker, nome que os norte-americanos nunca lembram, mas que os centro-americanos nunca esquecem. Walker foi um fundamentalista cristão visionário do Tennessee e, a seus próprios olhos, um missionário do progresso. O plano liberal deu errado quando Walker tentou, por iniciativa própria, colonizar a Nicarágua para os Estados Unidos. Com o apoio liberal e a força das armas, Walker fez-se por um breve período, presidente da Nicarágua. Ele proclamou o Progresso, incluindo a liberdade de culto, a língua inglesa e a concessão de terras a imigrantes norte-americanos. Walker também legalizou a escravidão, abolida na Nicarágua anos antes. O flibusteiro Walker foi capturado e executado, em 1860, por um exército centro-americano conjunto, mas o "mau cheiro" que deixou na Nicarágua manteve o Partido Liberal fora do poder por décadas. A Nicarágua só viria a aderir à tendência liberal do hemisfério na década de 1890.


O LIMITE DO PROGRESSO PARA AS MULHERES


O progresso podia ser interpretado de várias maneiras, obviamente. O que significou para as mulheres? A longo prazo, o liberalismo conduzia as mulheres em direções positivas, expandindo sua educação e oportunidades de vida. Mas em meados do século XIX, poucas mulheres latino-americanas beneficiavam-se dessas mudanças. A educação de meninas expandiu-se com uma lentidão torturante e as paredes domésticas continuavam confinando as vidas das mulheres casadas "decentes". Pouquíssimas mulheres conseguiram desempenhar papéis de liderança na vida pública durante o século XIX. Mas as que conseguiram agradeceram ao Progresso Liberal. Atualmente, vemo-las como pioneiras. Em sua própria época, a maioria das pessoas as via como estranhas.


As poucas mulheres que conseguiram alcançar a fama atuaram no mundo das letras. Gertrudis Gómez de Avellaneda, por exemplo, deixou sua Cuba nativa aos 22 anos e escreveu seus célebres poemas, peças teatrais e romances na Espanha, onde viveu pelo resto da vida. (Mesmo assim, a literatura latino-americana logo a reivindicou como sua representante.) Em 1841, ela publicou um romance que foi proibido em Cuba. O protagonista principal do romance Sab é um escravo cubano apaixonado por sua proprietária branca. Embora ela despose um inglês de olhos azuis, que o trata com crueldade, Sab sacrifica a vida por ela. No final do romance, a mulher percebe a superioridade moral de Sab, apesar da posição de escravo. Como o romance A Cabana do Pai Tomás, nos Estados Unidos, Sab tornou-se um argumento literário pela abolição da escravatura.


Em meados do século, escravos nas plantações do oeste de Cuba cultivavam cerca de um terço de todo o açúcar vendido no mercado mundial. Cuba ainda era uma terra de oportunidades para espanhóis peninsulares ambiciosos, de opulentos duques e duquesas e arbitrários burocratas reais e mal-remunerados soldados e balconistas de lojas. O governador real espanhol de Cuba governava com mão de ferro; um espírito patriótico cubano expresso na década de 1860 foi suprimido com selvageria. Foi então que começaram as duras guerras da independência cubana. A primeira parte foi a Guerra dos Dez Anos (1868-1878), contida pelas forças espanholas a leste de Cuba, longe das grandes plantações, em parte mediante uma trincheira fortificada que atravessara a ilha toda. Durante a guerra, um jornal revolucionário de Nova York republicou Sab para leitores patrióticos.


Atualmente a história de Sab pode parecer um melodrama lacrimogêneo, mas as pessoas em meados do século XIX comoviam-se com o romantismo sentimental. O tema de Sab permitiu aos leitores cubanos refletirem sobre as divisões raciais de sua sociedade e a possibilidade de superá-las através do amor. O tema do amor inter-racial era considerado escandaloso, especialmente o amor de um homem negro por uma mulher branca. Avellaneda rompeu as regras sociais não só em sua obra, mas também nos próprios casos amorosos com vários homens. As mulheres que se tornavam figuras públicas já estavam rompendo as regras normais do sexo feminino, de modo que muitas vezes também zombavam das convenções sexuais. O espírito de Avellaneda era considerado "masculino demais" para uma mulher.


A argentina Juana Manuela Gorriti foi outra escritora famosa da geração de Avellaneda. Os textos de Gorriti eram "femininos" e instrutivos, em vez de escandalosos. Mais do que Avellaneda, Gorriti preocupava-se com os problemas das mulheres. É sua vida, mais do que suas obras, que nos inspira atualmente.


Gorriti era uma menina de oito anos quando entrou em uma escola de convento. A política argentina interrompeu sua educação em 1831, quando o caudilho Facundo Quiroga forçou sua família liberal e emigrar para a Bolívia. Aos quinze anos, ela conheceu e desposou um jovem escuro, Manuel Isidro Belzú, que um dia se tornaria presidente da Bolívia. Belzú era um obscuro capitão à época e a alta, talentosa e loura Gorriti era considerada um bom partido. Ela teve três filhas e também lecionava, enquanto, enquanto Belzú avançava na carreira, mas ele a abandonou após nove anos de casamento.


Gorriti mudou-se para o Peru, onde continuou lecionando, além de começar a publicar seus textos. Sua estrela brilhou em Lima, onde ela se tornou uma influente jornalista. Ela também organizava "tertúlias", encontros noturnos onde homens e mulheres de bom gosto de Lima discutiam literatura e Progresso. Eles também ouviam música e viam encenações de teatro amador. (Mas não dançavam, Gorriti achava que as mulheres já haviam dançado o suficiente. O Progresso pedia atividades mais sérias.) O salão literário de Gorriti visavam predominantemente às mulheres. Eles eram didáticos, instruindo seus leitores sobre o comportamento e as ideais próprias de uma mulher moderna, muitas vezes inspirando-se em exemplos norte-americanos ou europeus.


A vida de Gorriti foi menos convencional do que seus textos. Em 1866, uma expedição naval espanhola que praticava a diplomacia de canhoneira nas costas do Chile e do Peru, bombardeou o porto de Lima e Gorriti foi uma enfermeira de campanha pioneira, ao estilo de Florence Nightgale. Nessa época, ela obtivera o divórcio de Belzú (um escândalo, embora ele a tivesse abandonado) e teve um filho sem casar novamente. De algum modo, sua posição como uma mulher excepcional fazia com que fosse aceita pela "sociedade educada". Em 1878, Juana Manuela Gorriti retornou a Argentina – não a remota região onde nascera, mas para Bueno Aires, a capital do progresso latino-americano. A cidade recebeu-a com pompas públicas como uma das mais notáveis mulheres latino-americanas do século.



Antes de deixar Lima, Gorriti ajudara a lançar a carreira de uma escritora mais jovem e ainda mais importante. Clorinda Matto de Turner, já chamara a atenção na Escola Secundária Feminina Nacional do Peru onde procurou instrução extracurricular em matérias "não-femininas" como física e biologia. Ela nem completara quinze anos quando se casou, em 1871. (Turner era o sobrenome do marido acrescentado, segundo a tradição, ao nome da esposa mediante a preposição "de". Assim, Clorinda Matto tornou-se Clorinda Matto de Turner.)


Matto de Turner escreveu Pássaros sem um Ninho em 1889, um dos mais importantes romances latino-americanos sobre os povos indígenas. As visões literárias anteriores haviam apresentado os povos indígenas latino-americanos como "selvagens" românticos do passado semimítico, mas o livro de Matto de Turner mostrou-os como peruanos sobre pobres habitando o presente. Como Sab, de Avellaneda, o romance contava um caso de amor inter-racial, dessa vez entre um homem branco e uma mulher indígena. A mulher é uma órfã cujos pais morreram tentando defender-se de brancos agressivos. De novo, uma romancista latino-americana estava explorando – e procurando superar – a profunda divisão racial de seu país. Conquanto branca e "respeitável", Matto de Turner advinha da Sierra, da antiga capital inca Cuzco. Ela considerava os povos indígenas como os peruanos mais autênticos e lutou em seu favor em sua atividade jornalística. Como boa liberal da época, ela também lutou contra o que via como influência corrompedora de sacerdotes imorais. Maus sacerdotes figuram em vários dos seus romances. Na verdade, o malfadado jovem branco e a donzela indígena não podem se casar, em Pássaros sem um Ninho, por que o pai de ambos, como acabam descobrindo horrorizados, é o mesmo sacerdote mulherengo.


Como sua mentora Gorriti, Matto de Turner organizou um salão literário e fundou um periódico para mulheres. Seus artigos, de tão controversos, fizeram com que seu jornal fosse queimado e ela, formalmente expulsa da Igreja Católica. Em 1895, o governo do Peru a deportou. Como Gorriti, ela viajou para a Argentina, onde viveu o resta da vida como educadora respeitada.


As vidas dessas mulheres excepcionais focalizam nossa atenção na educação e na alfabetização, na questão do liberalismo e raça e na importância dos modelos norte-americanos e europeus para as visões liberais do Progresso. Estes serão os temas de nosso próximo tópico: a reaparição liberal na Argentina e no Brasil.


MODELOS DE PROGRESSO


Os líderes liberais argentinos estavam entre os mais voltados para a Europa e literariamente inclinados. Três em particular representam o liberalismo argentino: Alberdi, Mitre e Sarmiento. Todos passaram longos anos no exílio durante a reação conservadora das décadas de 1830 e 1840, uma reação personificada na Argentina pelo grande caudilho Manuel de Rosas. Durante os anos de Rosas, os intelectuais liberais argentinos reuniram-se nos vizinhos Uruguai e Chile, enfurecendo-se com Rosas e escrevendo literatura política exaltada. Eram homens de letras, acima de tudo. Suas vidas exemplificam a paixão liberal pelas coisas européias e o vínculo estreito do liberalismo com a cultura escrita: educação, livros, jornais. Bem além da fé liberal costumeira no Progresso, os liberais argentinos dedicaram-se a transformar o povo argentino: culturalmente, pela educação e fisicamente pela maciça imigração européia.


Juan Bautista Alberdi, um homem que passou grande parte da vida adulta no exílio, influenciou o liberalismo argentino através somente de suas palavras. Nascido nas províncias, Alberdi estudara Direito em Buenos Aires e tornara-se uma espécie radical dos salões literários da década de 1830. Mas mesmo os liberais literários arriscavam a pele sob Rosas. Assim, Alberdi fugiu, através do Rio da Prata, para Montevidéu, onde se dedicou a promover bombas literárias em Buenos Aires. Montevidéu estava cheia de exilados liberais. Tratava-se na verdade, de um baluarte liberal internacional, protegido pelas esquadras britânicas e francesas, e defendido por heróis internacionais como o italiano Giuseppe Garibaldi. Alberdi passou quase dez anos de seu longo, e parcialmente auto-imposto, exílio no Chile.


Quando Rosas foi derrubado, em 1852, Alberdi publicou um tratado intitulado "Bases e Pontos de Partida para a Organização Política da República da Argentina", enviando cópias aos delegados reunidos para redigir uma nova constituição. Mas enquanto os inimigos liberais de Rosas retornavam à Argentina, Alberdi permaneceu no Chile e acabou servindo como um diplomata argentino na Europa, onde morreu mais de vinte anos depois. Dadas suas preferências pessoais óbvias por tudo que fosse europeu, suas prescrições para a Argentina não devem surpreender ninguém. Alberdi incitou o governo a encorajar a imigração européia, não apenas devido à baixa população argentina (menos de dois milhões), mas também, e com bastante franqueza, devido à suposta superioridade dos imigrantes europeus, cheios de virtudes morais e habilidades úteis. Gobernar es poblar (Governar é povoar) tornou-se slogan liberal. Alberdi também recomendou uma educação moderna para transformar a cultura Argentina, abrindo-a as influências européias. Em vez de estudar latim para ler a sabedoria dos antigos, argumentou Alberdi, os argentinos deveriam aprender inglês, língua da tecnologia e do comércio.


Bartolomé Mitre foi mais um homem de ação. Ele também era um escritor liberal em todos os sentidos. Ele escreveu história, biografias, poesia, um romance, traduções espanholas de clássicos europeus, bem como editoriais políticos aos milhares. Ao contrário do tímido Alberdi, Mitre também foi um grande orador público. Ele foi um líder militar e um estadista, talentos necessários na política argentina de meados do século XIX.


Mitre e Alberdi acabaram em lados opostos durante a tempestuosa década após a queda de Rosas. Eles concordavam sobre a imigração européia e a educação pública; o que os separava eram as rivalidades regionais dentro da Argentina. Em questão, acima de tudo, estava o relacionamento entre Buenos Aires (cidade e província) e as demais províncias argentinas.


A cidade de Buenos Aires – rica, altiva, dominante – era a antiga corte do vice-reinado e a via de acesso da Argentina ao mundo. Ela ofuscava todas as outras cidades argentinas em importância política, demográfica e econômica. Entretanto, faltava-lhe um bom porto. O mar em Buenos Aires era tão raso que os navios tinham de ancorar dez ou onze quilômetros ao largo e transferir passageiros e cargas para barcos menores. Os barcos tinham de parar uns 40 ou 45 metros longe do cais e descarregar cargas e passageiros em carretas semi-submersas na água rasa. As mercadorias e os passageiros muitas vezes se encharcavam. Os pastos ao redor de Buenos Aires eram os mais produtivos do país, mas não eram as únicas terras ricas da Argentina.


Em meados do século XIX, navios a vapor a caminho do mar puderam subir diretamente o rio, contornando a inconveniente Buenos Aires. A população rios acima aplaudiu, mas Buenos Aires não estava disposta a ser contornada. Tensões com o resto do país mantiveram Buenos Aires fora da nova Confederação Argentina, estabelecida em 1853. Pelo contrário, a Confederação situou sua capital 480 quilômetros rio acima. Enquanto Alberdi representava a Confederação Argentina na Europa, Mitre serviu Buenos Aires. A grande cidade e sua província circundante permaneceram separadas do resto da Argentina até 1860. Quando as forças de Buenos Aires – lideradas por Mitre – enfim derrotaram a Confederação, Mitre tornou-se presidente de uma Argentina unida.


Outro anti-rosista retornado do exílio para servir Buenos Aires independente (como diretor de escolas) foi Domingos Faustino Sarmiento, o mais influente de todos os liberais latino-americanos. Seu tratado anti-Rosas A Vida de Facundo, ou Civilização e Barbárie (1845), escrito no Chile, tornou-se a clássica denúncia do governo dos caudilhos na América espanhola. Sarmiento abraçou a cultura internacional através da literatura e da educação. Seu livro favorito, que estudou com o mesmo fervor de qualquer morador da Filadélfia ou de Boston, foi a Autobiografia de Benjamin Franklin. No Chile, onde viveu grande parte das décadas de 1830 e 1840, Sarmiento trabalhou como professor, balconista, chefe de mina e editor de jornal, antes de se enganjar na organização das escolas públicas chilenas. Estudou inglês a noite e, para treiná-lo, traduziu os romances de Sir. Walter Scott. Sarmiento criou pessoalmente a primeira cartilha e o primeiro instituto de formação de professores do Chile e viajou aos Estados Unidos e à Europa a fim de estudar técnicas de educação. Quanto Mitre tornou-se presidente, Sarmiento retornou aos Estados Unidos como seu representante diplomático. Em 1868, sucedeu Mitre como presidente (eleito, na verdade, enquanto nos Estados Unidos) e desembarcou em Buenos Aires com dez mulheres de Boston, que ele incumbiu do treinamento de professores em cada uma das dez províncias argentinas.



















sábado, 20 de fevereiro de 2010

Notas do livro Da Revolução Industrial Inglesa ao Imperialismo

Notas do livro Da Revolução Industrial Inglesa ao Imperialismo de Eric J. Hobsbawn
5° edição. Editora Forense Universitária

1 "Pressuponho um conhecimento elementar da história britânica a partir de 1750... Nomes como os de Peel e Gladstone, pesquisem esses temas por conta própria" (pág.9)

2"Não existem dados relativos à produção de carvão antes de 1854, nem números seguros acerca de desemprego antes de 1921" (pág.11)

3"A Revoluçõ Industrial assinala a mais radical trasnformação da vida humana já registrada em documentos escritos" (pág.13)

4"O ponto de vista defendido neste livro é o de que o relativo declínio da Grã-Bretanha deve-se, em termos gerais, à sua dianteira, mantida por muito tempo, como potência mundial" (pág.14)

5"A Grã-Bretanha sempre teve aberto diante de si um caminho de retirada quando o desafio das outras economias tornou-se demasiado forte, podíamos bater em retirada tanto para o Império como para o Livre Comércio - para nosso monopólio sobre regiões ainda não desenvolvidas, o que por seu turno ajudava a impedir que se industrializassem, e para nossas funções como eixo do comércio, da navegação e das transações financeiras do mundo. Não tinhamos que competir, podíamos fugir" (pág.14)

6"A economia mundial, única e liberal, que teoricamente se autoregulava, mas que na realidade exigia o painel controlador semi-automático da Grã-Bretanha... Após a Revolução Russa de 1917 e a II Guerra... A Grã-Bretanha viu-se afetada de maneira muito mais profunda. Já não era mais essencial ao mundo. Na verdade, no sentido do século XIX, já não existia um mundo ao qual ser essencial" (pág.15)

7" A Grã-Bretanha ainda em 1960 era a terceira força industrial do mundo"

Notas Extras: 1"É preciso conhecer a Revolução Puritana de 1640; a Revolução Gloriosa de 1688 e a Declaração de Direitos a (bill of rights) de 1689"

8"O radicalismo com que as instituições políticas e sociais formais de um país se transformam durante o processo de sua conversão num Estado Industrial e capitalista depende de 3 fatores: A flexibilidade, capacidade de adaptação e resistência das velhas instituições; urgência da necessidade de transformação; e os riscos inerentes às grandes revoluções" (pág. 16)

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

ANTIGUIDADE OCIDENTAL - ROMA

História da Antiguidade Ocidental

Notas de aula do Carlos Eduardo

O exército romano era formado pelas centúrias (grupos de cem) mas nem sempre obedecia este número, era composto de patricios e pebleus, e muito organizado. Dividido em enfantaria e cavalaria, o exercíto a partir de meados da república era formado por classes, a 1º classe é formada por patrícios e pebleus ricos, eram os propretários de cavalos e tinhamn todo o equipamento de guerra (escudo, elmo, lança, coraça do peito etc) na 2º classe o indivíduo só tinha a lança o dardo e a espada. Na 3º classe o dardo e a espada. Na 4º classe o sujeito só tinha a lança e o dardo. Na 5º classe a funda (estilingue) e também tinha o músico. O último grupo e o sentinela o mensageiro que não pertencia a nenhuma classe. A convocação era obrigatória dos 18 aos 46 anos no caso de deserção eram condenados a morte , geralmente tinham a cabeça arrancada.

A situação se agrava tanto que os pebleus que perderam tudo com a chegada dos escravos começam a realizar saques, estupros e roubos aos patrícios, os plebeus começam a se recusar a ir ao exercito, com a gravidade da situação e já que as magistraturas não estavam resolvendo a suituação da república, que era na verdade a insatisfação da plebe foi criado os triunviratos, (que seria o governo de três). Os três primeiros foram Julio Cesar, Pompeu e Crasso, o primeiro triunvirato da república foi de 60 a 44 a.C. era dividido por áreas conquistadas. Pompeu ficou com a HISPÂNIA (península Ibérica) Julio Cesar ficou responsável pela Gália (França atual) Crasso, ficou com a Ásia e a África, Julio Cesar foi um triunvirato muito expoente na república, nunca foi imperador, mas seu nome virou sinônimo, ele dominou quase toda a Gália sozinho. O trinvirato nem sempre foi harmonioso, a república valorizava muito os generais, eles eram homenagiados de duas formas a ovação – ele caminha pela periferia de Roma, e o triunfo – é a homenagem aos generais que tiveram grandes vitórias, ele entra na cidade junto com parte de sua tropa e vai até a parte sagrada da cidade nos templos com parte do seu espólio de guerra e alguns prisioneiros, ele vem vestido de púrpura e na mão traz um cedro de marfim, na mesma posição de júpiter o deus dos deuses romano, este general vitorioso recebe o título de imperator.

Não bastando todo desentendimento entre eles, Julio Cesar se apaixona por Cleópatra 7ª, que era da áera de Crasso, que não gostou, mas Crasso morre em uma guerra, com isso Julio Cesar não vai sair do Egito, sem voltar para Roma, Pompeu aproveita essa situação e se proclama cônsul vitalício, Julio Cesar não gostou e volta para Roma para matar Pompeu, mas a história conta que Pompeu morreu no Egito, com isso Julio Cesar volta para Roma e se proclama governador vitalício, o senado então percebendo que tinha dois governadores querendo governar sozinho, manda chamar Julio Cesar e o mata no senado é o fim do 1º triunvirato.

Posteriormente foi formando o 2º triunvirato, seu período foi de 40 a 31 a.C. durante os quatros anos do fim do 1º triunvirato para o início do 2º ocorreu um caos completo em Roma, o 2º triunvirato foi formado por Marco Antonio, Lépido e Otávio. Marco Antonio que era cônsul fica com o oriente, parte do Egito (África) e parte da Gália, Otavio que era general ficou com a península Itálica, e o Lépito que tambem era general ficou com a África e uma parte pequena da Gália.

Marco Antonio se envolve com Cleópatra, a mesma de Julio Cesar, com isso vai ser criada uma nova briga, mas entre Marco Antonio e Otávio. Os dois resolvem eliminar Lépido para dividir sua parte, Lépido percebe e foge para a Ásia, e a historia não tem ideia do seu fim. Mas isso não resolve o problema entre eles pelo contrário a coisa piora, Marco Antonio percebeu que Otávio queria o poder assim como ele. Otavio então avisa os romanos que Marco Antonio tinha um filho egípcio, o Cesarium, que na verdade era filho de Julio Cesar com Cleópatra, com isso Otavio insufla a população de Roma, que o autorizou a levar um exercito ao Egito, e matar Marco Antonio, e Cleópatra, o Otávio foi o grande vitorioso e implanta o império, já que ele já tinha o titulo de imperator. (Quanto a morte de Marco Antonio e Cleópatra existem varias versões não comprovadas historicamente que dizem que ele se matou junto com Cleópatra.

domingo, 16 de agosto de 2009

Devoção e vida cotidiana à volta da Igreja do Carmo no séc. XVIII

Restauração da Igreja de Nossa Senhora do Carmo da Antiga Sé

Capacitação de professores

Palestra: Devoção e vida cotidiana a volta da Igreja do Carmo no séc. XVIII

Devoção e vida cotidiana à volta da Igreja do Carmo no séc. XVIII

Mary Del Priore: Historiadora membro do IHGB

Professora do curso de pós-graduação da UNIVERSO / Universidade Salgado de Oliveira

Em janeiro de 1747, na presença do senhor Bispo e dos membros da Câmara foi lançada a pedra fundamental do templo dedicado a Nossa Senhora do Carmo. Nesta época, segundo um viajante de passagem, "O Rio de Janeiro não era grande". Não por falta de espaço, pois, na parte traseira da cidade havia um agradável prado, rodeado por montanhas. O centro urbano, contudo, se concentrava exatamente na frente da futura igreja, ou seja, no Largo do Paço, também conhecido como terreiro da Polé, porque aí se erguia o pelourinho, temido por castigar ladrões e escravos.

A rua mais freqüentada, onde se encontrava o maior número de estabelecimentos comerciais era, então, chamada pelos habitantes de rua grande. A hoje, 1° de março, por sua vez, era bastante larga e muito comprida, permitindo a passagem de até três carruagens ao mesmo tempo. O convento de São Benedito, cuja a igreja era considerada a mais bonita, estava situado no fim dessa rua. No extremo oposto, se achava o convento dos jesuítas. "No meio da rua principal, do lado do mar, situa-se a casa do governador que – conta-nos o francês viajante – não é grande coisa. Há muitas outras ruas menores, mas que não deixam de ser bonitas, bem traçadas e repletas de casas bem".

A história da Igreja, instalada no mais importante da cidade começou com música e festa. No dia em que tiveram início às obras, a praça do largo do Paço estava enfeitada. Das janelas das casas pendiam os mais finos tecidos e melhores colchas da Índia. As ruas que dela saíam tinham sido atapetadas com capim cheiroso e folhas de laranjeiras. Um cortejo de tambores acordara a comunidade enquanto uma orquestra de trombetas, tambores e címbalos convidavam o povo a se alegrar com a novidade. Repicavam, alegres, os sinos. Passavam os estandartes das irmandades religiosas. Alguns moradores caiaram e iluminavam as fachadas de suas casas com as chamadas "festivas luminárias", panelinhas de barro contendo azeite de mamona e uma ponta de algodão que se acendia. Os mais pobres usavam cascas de laranja como recipientes. Mas o barulho das festividades que marcaram a inauguração da igreja, servia, também, para encobrir a tensão que existia entre o bispo e as irmandades de N. S. Do Rosário e S. Benedito ansiosas por estabelecer um templo para seus devotos, os mulatos e negros livres e escravos, que não podiam se misturar aos brancos livres.

A vista que se tinha, nesta época, da Igreja, dava para um pobre terreiro à beira-mar. Além dele, se viam as praias ainda desertas de Niterói e as várias ilhotas dispersas no fundo da baía. O embelezamento do Paço começou, em 1735, quando o Governador Gomes Freire de Andrade resolveu construir aí a sede do governo: um prédio de dois andares feito em pedra lavrada. O terceiro piso, com 12 janelas, só foi levantado, mais tarde, por D. João VI, em 1814. Em 1770, outra novidade: o vice-rei Luís de Vasconcellos mandou erigir um cais de atracação, com três escadas para o mar e uma rampa para embarcações. Ele foi inaugurado em março de 1789. Bem no meio do cais, dando para as águas da baía, pronto a abastecer com água potável tanto os navios que chegavam quanto a população, o chafariz "da pirâmide", obra de mestre Valentim. Graças a todas estas modificações, o Largo do Paço com sua bela igreja se tornou um dos lugares mais animados da pequena cidade do Rio de Janeiro, na segunda metade do século XVIII.

Diante das grandes portas de madeira lavrada do Carmo, cruzava a praça, em lombo de burro ou de escravo, tudo o que servisse como provisão nas embarcações: charque, açúcar, cachaça, tabaco e lenha. A cidade era um porto de escala para navios estrangeiros, sem contar que o aumento do comércio internacional, a partir de 1808, deixou este ponto ainda mais vivo. Disputavam cada pedaço de chão de terra batida, desde canoeiros a plantadores da roça que vinham expor seus produtos, a marinheiros e traficantes de escravos carregadores brancos e de pés descalços assim como escravos africanos, curvados sob o peso de fardos. Dezenas de escravos de ganho, com seus tabuleiros na cabeça, ofereciam alimentos preparados em casa, bebidas refrescantes ou frutas da estação. Na rua grande, se apertavam, lado a lado, lojas e empórios com seus produtos expostos à porta. Do fundo dos corredores vinha o barulho dos pregões e do vozerio de vendedores e compradores; uns expondo as mercadorias, outros, regateando o preço. Sacos de secos e molhados, se acumulavam junto às gaiolas com galinhas, macacos, lagartos e porcos do mato.

Um pouco mais abaixo, viam-se os tabuleiros do mercado de peixe, de onde partiam os gritos dos comerciantes oferecendo os seus produtos a preço baixo. Um odor nauseabundo inundava as narinas de quem passasse. O mercado de escravos não ficava longe e era comum que vendedores expusessem sua mercadoria, para melhor análise do comprador, nas imediações do Arco do Telles. Das varandas fechadas com treliças, no segundo andar dos sobrados eu cercavam a praça, mulheres observavam sem ser vistas.

Em quase todas as esquinas da rua grande, se podia encontrar um pequeno nicho onde estava colocada uma imagem da Virgem ou de outros santos, imagem eu permanecia iluminada por uma lanterna à noite. Todo o final de tarde, o povo se reunia em torno deles para cantar o rosário. Até as prostitutas que ofereciam seus favores aos passantes, próximos ao Arco do Telles, não admitiam começar a trabalhar antes de findas as Ave-Marias.

Um marido jamais caminhava ao lado de sua esposa na rua grande ou em qualquer outra. Ele seguia alguns passos à frente, sempre com sua espada a mostra sob o manto. Á esposa se fazia acompanhar algumas vezes dos parentes ou dos amigos e, impreterivelmente, de muitas negras e mestiças que a seguiam em fila indiana; essas escravas usavam vestidos e traziam cabelos cobertos por um lenço ou peça de musselina. Mesmo quando carregadas em cadeiras ou redes, as mulheres não dispensam tal cortejo, como registraram vários viajantes estrangeiros.

Os escravos que circulavam nas imediações do Paço, - contam, também, os viajantes – mostravam o abandono em que viviam. Os homens andavam quase nus, vestidos com um calção, ou quando as voltas com suas sandálias diárias, com um simples pano. Alguns tinham, contudo, uma camisa e um casaco. Os negros libertos portavam as mesmas vestes e o mesmo manto dos brancos. As mulheres vestiam saia e um tipo de camisa, parecida com as nossas camisas de homem, cuja parte da frente era aberta e ligada por um colete. Elas não ousavam aparecer na rua durante do dia. Só era possível vê-las aos domingos e dias de festa, na missa. Algumas poucas tinham liberdade de sair no final da tarde para cantar o rosário. Quando saíam de casa, portavam sempre uma grande capa de lã de aproximadamente duas varas de altura por uma de largura. E isto independentemente do calor de que fazia. A capa era ajustada de tal modo que a diagonal ficava no meio das costas; uma das pontas era utilizada como um capuz semelhante aquele dos carmelitas e agostinianos, a ponta oposta servia para esconder o rosto; as duas outras cobriam os ombros e os braços cruzando-se sobre a cintura. As negras usavam, na rua ou no campo, um chapéu para se protegerem do sol. Evitava-se mostrar o rosto e sobretudo, que elas levantassem os olhos para eles. Uma mulher que encarasse um homem era considerada uma despudorada.

A construção da igreja animava outra atividade social importante: a missa diária e em dias de festa. As mulheres chegavam por volta das sete horas da manhã acompanhadas de familiares e escravos. Sentadas no chão, esperavam o momento de se confessar conversando entre si chupando laranjas. Os ofícios eram longos e acompanhados de música. Por vezes, se ouviam até acordes de músicas profanas. O famoso músico, Padre José Maurício, mulato e pai de cinco filhos, executou ai peças que rivalizavam com a produção musical européia, da mesma época. As igrejas ficavam então, magnificamente iluminadas. Não faltaram viajantes estrangeiros a dizer que este momento era aguardado com muita ansiedade, pois se constituía numa das raras oportunidades para as mulheres se vingarem do excessivo ciúme dos maridos, escapando ao estado opressivo em que viviam. As igrejas eram de fato, lugares onde jovens enamorados trocavam sinais e aproveitavam o escuro de alguns altares para se beliscar, gesto de afeto, outrora. Ou para se enviar recados. E no escurinho dos ofícios, como dizia um padre, "por vezes, Deus dava licença ao Diabo".

Para os habitantes o Rio de Janeiro, a rua grande e a igreja do Carmo significaram no século XVIII, um espaço privilegiado. Espaço que investia o território urbano de sociabilidades plurais. A rua grande invadia o espaço sagrado da igreja, graças às vozes dos escravos oferecendo seus tabuleiros, dos comerciantes anunciando seus produtos, dos dialetos estrangeiros dos vários navegantes que por sua porta passavam, do choro dos africanos ao desembarcar na terra estrangeira. Ela era palco de trabalho, de relações afetivas, de discussões, de espetáculos e mesmo de morte. Já a Igreja do Carmo, traduzia a devoção e a identificação religiosa de toda uma população. Dela saíam as mais importantes procissões: a do enterro na noite da Sexta-Feira da Paixão, com tochas, archotes e cantos fúnebres, e a de corpus Christi, com a tropa militar formada e a presença de São Jorge, guerreiro armado e a cavalo. Mas o espaço sagrado foi também cenário de acontecimentos políticos importantes. Elevada a Capela Real em 1817, a Igreja do Carmo foi o palco o casamento de D. Pedro I com Leopoldina de Habsburgo. E nela mesma, já elevada a catedral em 1824, o imperador jurou, em 25 de março, a primeira constituição brasileira.


quinta-feira, 23 de julho de 2009

Helen Keller

A Experiência De Helen Keller

No desenvolvimento mental do espírito, é evidente a transição de uma forma a outra – de uma atitude meramente prática a uma atitude simbólica. Todavia, este passo é resultado de um processo lento e contínuo. Não é fácil distinguir as etapas individuais deste complicado processo pelos métodos usuais da observação psicológica. Existe, porém, outro caminho de se obter plena visão do caráter geral e da extraodinária importância dessa transição. A própria natureza, por assim dizer, realizou uma experiência capaz de projetar luz inesperada sobre o assunto em questão. Temos os casos clássicos de Laura Bridgman e Helen Keller, duas crianças cegas e surdas-mudas, que, por meio de métodos especiais, aprenderam a falar. Embora estes casos sejam bem conhecidos e tenham sido tratados com frequência na literatura psicológica, vejo importância em recordá-los mais uma vez por encerrarem, talvez, a melhor ilustração do problema geral de que nos ocupamos. A Sra. Sullivan, professora de Helen Keller, registrou a data exata em que a criança realmente principiou a compreender o sentido da linguagem humana. Cito-lhes as próprias palavras:

"Preciso escrever-lhes uma linha hoje cedo porque algo muito importante aconteceu. Helen deu o segundo grande passo em sua educação. Aprendeu que tudo tem um nome, e que o alfabeto manual é a chave de tudo o que ela deseja saber.

...Hoje cedo, enquanto se lavava, ela quis saber o nome correspondente a "água". Quando quer saber o nome de alguma coisa,ela aponta para essa coisa e dá umas palmadinhas na minha mão. Soletrei "á-g-u-a" e não pensei mais no assunto até depois do café... (mais tarde) fomos à casa da bomba, e fiz que Helen segurasse sua caneca debaixo da bica, enquanto eu bombeava. Ao jorrar a água fria, enchendo a caneca, escrevi "a-g-u-a" na mão aberta de Helen. A palavra, que se juntava à sensação de água fria que lhe escorria pela mão, pareceu sobressaltá-la. Deixou cair a caneca e quedou como que paralisada. Nova luz iluminou-lhe o rosto. Soletrou "água" várias vezes. A seguir, inclinou-se até o solo e perguntou-lhe o nome, apontando para a bomba e o caramanchão e, voltando-se de repente, perguntou o meu nome. Soletrei "professora". Durante a volta para casa mostrou-se excitadíssima, e aprendendo o nome de todo o objeto que tocava, de modo que, em poucas horas, havia acrescentado trinta palavras novas ao seu vocabulário. Na manhã seguinte, levantou-se como uma fada radiosa. Adajou de um objeto a outro, perguntando o nome de tudo e beijando-me alegremente. Tudo agora precisa ter um nome. Aonde quer que vamos, pergunta, ansiosa, os nomes das coisas que não aprendeu em casa. Espera, sôfrega, que os amigos soletrem e vive aflita por ensinar as letras a todas as pessoas que encontra. Abandona os sinais e a pantomina que antes empregava, uma vez que dispõe de palavras para substituí-los, e a aquisição de uma palavra nova lhe proporciona o mais intenso prazer. E notamos que seu rosto se torna cada dia mais expressivo."

O passo decisivo que leva do uso de sinais e pantominas ao uso de palavras, isto é, de símbolo, não poderia ser descrito de maneira mais notável.

( Ernest Cassirer, Antropologia filosófica, p. 62-64.)

Texto de Carlos Rodrigues Brandão

Texto de Carlos Rodrigues Brandão

Há muitos anos nos Estados Unidos, Virgínia e Maryland assinaram um tratado de paz com os índios das Seis nações. Ora, como as promessas e os símbolos da educação sempre foram muito adequados a momentos solenes como aquele, logo depois os seus governantes mandaram cartas aos índios para que enviassem alguns de seus jovens às escolas dos brancos. Os chefes responderam agradecendo e recusando. A carta acabou conhecida porque alguns anos mais tarde Benjamin Franklin adotou o costume de divulgá-la aqui e ali. Eis o trecho que nos interessa:
"...Nós estamos convencidos, portanto, que os senhores desejam o bem para nós e agradecemos de todo o coração. Mas aqueles que são sábios reconhecem que diferentes nações têm concepções diferentes das coisas e, sendo assim, os senhores não ficarão ofendidos ao saber que a vossa idéia de educação não é a mesma que a nossa.
...Muitos dos nossos bravos guerreiros foram formados nas escolas do Norte e aprenderam toda a vossa ciência. Mas, quando eles voltavam para nós, eles eram maus corredores, ignorantes da vida da floresta e incapazes de suportarem o frio e a fome. Não sabiam como caçar o veado, matar o inimigo e construir uma cabana, e falam a nossa língua muito mal. Eles eram, portanto, totalmente inúteis. Não serviam como guerreiros, como caçadores ou como conselheiros. Ficamos extremamente agradecidos pela vossa oferta e, embora não possamos aceitá-la, para mostrar a nossa gratidão oferecemos aos nobres senhores de Virgínia que nos enviem alguns de seus jovens, que lhes ensinaremos tudo o que sabemos e faremos, deles homens".


Carlos Rodrigues Brandão

quarta-feira, 8 de julho de 2009

Rio De Janeiro























Este post terá a pretenção de ser definitivo sobre a representação visual da Cidade do Rio de Janeiro em qualquer época.


ZONA SUL


Av. Atlântica nos anos 60 ainda sem ampliação



CENTRO





Av. Rio Branco em 1954





Av. Nilo Peçanha em5 de junho de 1940








Cinelândia com o palácio Monroe ao fundo


Igreja da Candelária e Av. Presidente Vargas na década de 50

Av. Central hoje Av. Rio Branco com o então Morro do Castelo ainda em pé do lado esquerdo

Central do Brasil


BONDES E ETC....


Estação de Bonde 1892



Bonde do Arpoador foto de Marc Ferrez



Linha de ônibus estrada de ferro Leblon n° 12, o popular camões, nos anos 50

Bonde da Rua do Catete



Ônibus em Copacabana, via túnel novo, 1931



O Bonde do Catumby no carnaval, escrito assim mesmo com y



O Bonde 172 de Ipanema


Estação de bonde em 1903


Um bonde e um Camões na Av. Nossa Senhora de Copacabana



Sem qualquer identificação



O bonde do Alto da Boa Vista



O Bonde 56 Alegria, a foto mais especial pra mim