terça-feira, 3 de maio de 2011

O Século XX - O Colonialismo como a Glória do Império


O Século XX
O Colonialismo como a Glória do Império



Edgard de Docca

O espetáculo foi imaginado para ser visto por milhares de pessoas que deveriam estar na cidade de Londres para as festividades de 22 de junho de 1897. A ocasião não poderia ser mais especial. Comemorava-se o jubileu de diamante da rainha Vitória em um momento muito especial. Nunca antes a Inglaterra tinha vivido um período de tão grande prosperidade econômica, com sua poderosa industrialização estendendo seus benefícios para um número cada vez maior de pessoas. Apesar dos protestos trabalhistas, que insistiam em reivindicar melhores condições de vida e de trabalho para os operários, o certo é que o país estava envolto numa enorme euforia. Poder-se-ia dizer com orgulho que mundo europeu vivia na mais perfeita paz e tranqüilidade e que nunca os negócios capitalistas tinham ido tão bem. Aliás desde o fim das guerras contra Napoleão, os europeus não viviam um período tão longo de tranqüilidade, perturbados vez ou outra por uma outra notícia vinda de lugares longínquos, como a África, ou pelo envolvimento dos ingleses na guerra da Criméia, entre 1854-1856, quando suas tropas lutaram ao lado dos turcos contra o império russo.


No entanto, a grandiosidade do espetáculo não havia sido concebida para o deleite e a satisfação de reis e de chefes de Estado estrangeiros. Toda a pompa construída visava exclusivamente promover os mais destacados personagens de um império que só teve um rival em sua magnitude, o império romano da antiguidade. Apesar de essa comparação ser plausível, ainda assim teríamos que levar em consideração o fato de que a Inglaterra, por volta da década de 1890, possuía um domínio territorial maios do que a Roma dos Césares. Para termos uma idéia mais aproximada deste domínio basta dizer que o império britânico possuía um quarto de toda a superfície da Terra. Contudo, deixemos claro, desde já, que esta comparação termina por aqui, porque a idéia de expansão imperial concebida por Roma em nada se assemelhava com a expansão capitalista levada a termo pela Inglaterra e por outros países europeus.


Nada mais apropriado, portanto, do que esta ocasião de festividade para demonstrar o poderio britânico. No cortejo triunfante em homenagem à Rainha Vitória, minuciosamente descrito pela historiadora Barbara Tuchman em seu livro A Torre do Orgulho, as carruagens imperiais transportavam os primeiros ministros das colônias, dentre os quais destacavam-se os do Canadá, da Austrália e da Nova Zelândia. Na parada militar eram dignos de destaque os cavaleiros de várias partes do globo, como os rifles do Cabo, os hussards do Canadá, a cavalaria ligeira de Trinidad, os lanceiros de turbante da Índia, os guerreiros de Chipre, montados em pôneis de crina preta. Os regimentos de infantaria de negros andavam pelas ruas em uniformes variados, bem como a polícia de Borneu e da Nigéria, além da artilharia da Jamaica, os sikhs da Índia, os houssas da Costa do Ouro, os chineses de Hong Kong, os malaios de Cingapura e os Negros da Guiana Inglesa e de Serra Leoa. “As companhias desfilavam diante de um público deslumbrado, espantado mesmo, perante o testemunho do seu próprio valor. No fim do desfile, num trem aberto, puxado por oito cavalos brancos, vinha a figura central da consagração, uma pessoa magra, vestida de preto, com apenas creme ondeando o chapéu. O sol brilhava, bandeiras coloridas agitavam-se ao vento, os candeeiros estavam cobertos de flores e, ao longo de nove quilômetros de ruas, milhões de pessoas felizes aplaudiam e saudavam num êxtase de simpatia e de orgulho (Tuchman, 1990). Emocionada, a rainha chegou a escrever em seu diário: “Nunca ninguém recebeu tamanha ovação quanto a que me foi dada. Cada face parecia reluzir de autêntica alegria. Fiquei muito agradecida e comovida”.


Na Política Imperialista a Expansão é Tudo


Com certeza, nenhuma outra potência européia foi capaz de se autoglorificar como fez a Inglaterra da época vitoriana. No entanto, a euforia não era menor em outros países como a França, Alemanha, Bélgica e Itália. Todos eles haviam ampliado de modo desmesurado os seus domínios territoriais por volta da última década do século XIX. Calcula-se que a Inglaterra aumentou o seu território em 10 milhões de quilômetros quadrados, enquanto que a França, entre 1876 e 1914, aumentou suas possessões em 9 milhões de quilômetros quadrados. Apesar de estas duas potências terem liderado a corrida por novos domínios coloniais, não devemos negligenciar o fato de que a recém-criada Alemanha aumentou os seus domínios em 2,5 milhões de quilômetros quadrados, ao passo que a Bélgica e a Itália aumentaram seus domínios numa escala de mais ou menos 2 milhões de quilômetros quadrados. Apesar de ter ocorrido nesse mesmo período um avanço no domínio territorial de países como os Estados Unidos e o Japão, não podemos deixar de registrar que esta corrida desenfreada por novas colônias foi um acontecimento predominantemente europeu.


A principal característica desse processo desenfreado por ampliação de espaços era a de que a expansão dos Estados europeus tinha sido motivada por uma necessidade irrefreável da ampliação de mercados das economias competitivas do capitalismo industrial. Isto significava uma mudança radical no modo d organização política dos estados nações, uma vez que as suas fronteiras tornaram-se restritivas e constrangedoras para a expansão dos mercados capitalistas. Se as fronteiras nacionais tinha sito até então a base da sustentação do edifício político do Estado, as forças avassaladoras do capitalismo industrial pressionavam para que essas fronteiras fossem rompidas e expandidas a uma dimensão sem precedentes. Por este motivo, podemos entender por que num espaço de menos de 40 anos, entre 1876 e 1914, a Inglaterra, como a maior potência industrial da Europa, expandiu o seu domínio territorial em mais de 10 milhões de quilômetros quadrados. Tudo o que pudesse representar abertura de novos mercados e domínio de fontes estratégicas de matérias-primas (ferro, cobre, petróleo, manganês, jazidas e diamantes e etc.) passou a ser prioritário para as burguesias desses estados europeus expansionistas. Se tivéssemos que analisar didaticamente o modo como ocorreu essa expansão dos estados europeus pelos continentes longínquos da África e da Ásia, diríamos que os interesses capitalistas das burguesias européias desembarcaram nessas terras distantes acompanhados de um séquito burocrático administrativo e ambos foram escoltados pelas forças militares dos respectivos países.


Outra particularidade importante a ser destacada é o fato de que essa expansão dirigiu-se, prioritariamente, para o continente africano, para toda a área territorial banhada pelo Oceano Pacífico e para Ásia, sendo de pouca significação os processos de expansão européia no continente americano. Talvez esta atitude devesse ser tributada à Doutrina Monroe, que pregava uma América para os americanos, e, se dermos crédito aos protestos dos Estados Unidos contra qualquer intromissão estrangeira, o resultado mostrou-se, pelo menos, eficaz. Durante esse período, destaca-se apenas a vociferada intervenção do presidente americano Grover Cleveland, colocando-se em favor da Venezuela no conflito com a Guiana Inglesa. Não que este incidente tenha causado grande perturbação à diplomacia inglesa, mas mostrava que a atitude expansionista da Inglaterra poderia sofrer pressões mais contundentes se fossem dirigidas à América. Desse conflito de poder com a Inglaterra fica-nos a impressão de que o continente norte-americano deveria servir de base para a expansão de sua emergente potência capitalista, os Estados Unidos. Nas palavras do historiador inglês Eric Hobsbawn, “não restou qualquer Estado independente no Pacífico, então totalmente distribuído entre britânicos, franceses, alemães e holandeses (...) (Hobsbawnm 1989). Por volta de 1914, a África também pertencia inteiramente a esses mesmos países. Na Ásia, o império britânico anexou a Birmânia ao seu antigo e vasto domínio na Índia. Por outro lado, os franceses avançaram em direção à Indochina e criaram uma zona de domínio colonial, que na década de 1950, lutou contra este domínio estrangeiro francês e depois americano, escrevendo uma página definitiva na história das lutas pela emancipação dos povos coloniais, com a prolongada guerra do Vietnã.


Toda essa política levada a cabo pelas potências européias, já dissemos foi ancorada numa necessidade inerente ao modo capitalista de produção de riquezas, que não encontra limites para a sua expansão, entrando em contradição, principalmente, com os limites jurídicos consagrados pelo Estado Nação, criado sob o princípio da soberania e do consentimento civil por meio de um código de leis. O território onde esse Estado exerce a sua soberania e recebe o consentimento de seus súditos para a aplicação de um código civil de leis é um território de fronteiras limitadas, e não um espaço indefinido produzido por uma expansão econômica sem limites e sem um código de leis que possa ser aplicado aos povos que são submetidos ao seu domínio. Tal impossibilidade existiu pela simples e objetiva razão de quem nem sempre aqueles que foram submetidos ao domínio de uma nação estrangeira consentiram com essa dominação e também porque os povos dominados, tendo leis civis e códigos próprios, acabam sendo excluídos de qualquer pacto político que venha a ser proposto pelas nações européias expansionistas. Além disso, como essa expansão ilimitada dos mercados econômicos derrubou as fronteiras nacionais, os indivíduos detentores do capital e do dinheiro, bem como os administradores das colônias, além do aparato militar, gozavam de uma liberdade de ação e decisão que nenhum segmento ou grupo que vivia no interior desses estados nações europeus possuía. Isso talvez explique por que os opositores da política expansionista dos estados europeus tenham tido pouca margem de manobra dentro das instituições políticas de seus respectivos países. Afinal de contas, com a produção capitalista em crescente expansão na Europa, não seria razoável opor-se às pretensões expansionistas dos mercados e, mesmo que algumas vozes tenham se levantado contra os aspectos pouco humanitários da dominação estrangeira, acabaram se restringindo a protestos em defesa do direito desses povos coloniais na manutenção de seus códigos de leis e valores.


Agora, talvez, seja o momento de definirmos esse conjunto de acontecimentos históricos que expandiu as economias e os estados europeus para todas as partes do planeta, criando um grande sistema global de trocas de mercadorias, dinheiro, movimento de trabalhadores e um incessante incremento dos meios de comunicação. A força avassaladora desse movimento de mercadorias, dinheiro, armas e população européia para o domínio de vastas áreas territoriais em todas as partes do mundo foi de tal proporção que ainda hoje estamos acostumados a definir este período da história contemporânea, que se estende de 1870 a 1914, como o período do imperialismo. Entretanto, muitas vezes, esta definição serve mais para confundir do que para esclarecer os interessados no assunto. Apenas, para melhor entendimento, diríamos que há uma grande ambigüidade na utilização do termo imperialismo, porque, a primeira vista, ele seria sinônimo de criação e construção de impérios. Esta confusão é bastante compreensiva, posto que muitos dos estados que se afirmaram política e economicamente durante o século XIX, pretenderam ser reconhecidos como impérios. É o caso da França e o seu segundo império, inaugurado com o golpe de Estado de Luís Bonaparte, em 1852, e que durou até 1873, mas também da Alemanha, que se unificou sob o signo imperial, sem esquecermos, é claro, do declinante Império Austro-Húngaro, do Império Russo e até de um Império tropical nas Américas, o Brasil de D. Pedro II.


No entanto, nada mais equivocado do que utilizar o termo imperialismo como sinônimo de construção de impérios, porque, para que este termo tivesse alguma correspondência com a realidade, seria necessário que a nação promotora desse império estendesse as suas leis e suas instituições aos territórios anexados e tornasse os povos dessas regiões tão iguais em direitos quanto aqueles que vivem no território da nação-mãe. Entretanto, aconteceu o contrário dessa situação. Nunca os ingleses enxergaram os povos que estavam sob seus domínios como iguais em direito, a ponto da lei inglesa ter o mesmo valor para um cidadão londrino e para um birmanês. Com exceção feita ao Canadá e à Austrália, todos os povos que estiveram sob o domínio britânico durante o período do imperialismo foram considerados como raças inferiores. Além disso, as instituições político-administrativas criadas pelo domínio imperialista jamais se confundiram com as instituições dos estados nações europeus. O aparato administrativo militar foi moldado e esteve muito mais a serviço dos interesses das empresas capitalistas que exploravam as suas colônias do que sujeito a possíveis controles por parte das instituições políticas dos estados europeus. Nesse sentido podemos definir o imperialismo como uma política deliberada dos estados europeus de anexação de povos e territórios com vistas à expansão dos mercados capitalistas. Essa política só se consolidou por meio do domínio militar e teve grande eficácia em vastas regiões do mundo, onde quer que os comerciantes e burgueses donos de empresas européias, tivessem interesses em mercados consumidores ou em reservas estratégicas de matéria-prima. Vale ressaltar que a ampliação desses mercados capitalistas durante as últimas décadas do século XIX, nem sempre se realizou mediante a ostensiva política imperialista de controle burocrático e militar de povos e nações. Um exemplo significativo de um modo diferente de expansão do capitalismo europeu, sem a presença de corpos burocráticos e militares, aconteceu no Brasil. Durante esse período, com a expansão da cultura cafeeira em São Paulo, avultou-se o investimento estrangeiro em casas bancárias e comerciais, no aparelhamento dos portos, nos transportes e serviços urbanos (empresas de bonde, de energia elétrica e de gás) de São Paulo e do Rio de Janeiro, bem como na abertura de uma rede ferroviária que se estendia por toda a região de cultivo de café. Foram vultosos os investimentos de capitais ingleses, mas também belgas, alemães, holandeses e franceses, propiciando um ar de grande modernidade a centros urbanos que pouco tempo antes tinham aspectos completamente provincianos. Neste exemplo, enquadram-se muito bem as cidades de São Paulo, Santos e Campinas, que durante os anos de 1890 a 1914 viram-se transformadas em cidades modernas, com a ampliação dos meios de transporte, com o crescimento de instituições financeiras e comerciais, com a implantação da luz elétrica e do gás, além dos melhoramentos dos serviços públicos sanitários de água e esgotos. Diríamos, neste caso, que a expansão do capitalismo no Brasil foi mais suave se comparada com as administrações militares das colônias da África e do Pacífico.


Se a expansão é tudo e o capitalismo precisa de novos mercados consumidores e de suprimento de matérias-primas, existe ainda aquela sua necessidade maior, que é o investimento do capital acumulado, que não encontra mais espaço nos limite do estado nação para se reproduzir, sob o risco de cair a zero a sua taxa de lucratividade. Dentre as nações capitalistas européias que viveram um processo acelerado de transformações tecnológicas e de produção industrial, a Inglaterra representou o exemplo mais aprimorado. País pioneiro da industrialização, com grandes investimentos na área tecnológica, com um sindicalismo operário propenso às negociações em torno do aumento da produtividade, vivendo um processo de competição acirrado, ao ponto de empresas menos eficientes estarem sendo absorvidas por grandes companhias, a Inglaterra presenciou uma enorme crise econômica por volta de 1870, resultante dessa grande concentração de empresas industriais e de uma diminuição progressiva das taxas de lucro. Nenhuma nação européia sentiu mais precocemente a necessidade de expansão de mercados do que a Inglaterra, porque, sendo os pioneiros da industrialização, já por essa época os ingleses viviam os impactos da nova configuração do mundo capitalista, que não poderia sobreviver constrangido às limitadas fronteiras geográficas e políticas do estado nação. Isto explica de maneira objetiva e sucinta por que as nações industriais européias acabaram se envolvendo numa corrida armamentista e numa busca desenfreada por novos mercados e por novos territórios. A competitividade internacional das potências européias criada pela crescente industrialização, apesar de estar se processando em meio a uma paz aparente vivida no mundo entre 1870 e a primeira década do século XX, só poderia acabar naquela que seria a Primeira Guerra Mundial.


A meta principal das nações industriais européias era, portanto, expandir as fronteiras para o capitalismo, mas também expandir horizontes do homem com a velocidade das mudanças tecnológicas e dos valores em uso. Seria necessário, portanto, atiçar os ânimos dos habitantes das cidades, um tanto amortecidos pelos efeitos dos confortos modernos. A vida sofria grandes alterações no plano dos comportamentos, atitudes e valores e a característica principal desse período marcado por grande desenvolvimento industrial foi o agigantamento das metrópoles, capitais dos impérios europeus. Não que essas grandes aglomerações urbanas fossem centros de produção industrial. Ao contrário, a maioria das fábricas inglesas, por exemplo, estava localizada nas regiões industriais de Manchester e Yorshire, e não próximas à cidade de Londres. O mesmo acontecia com uma capital como Paris. No entanto, a população parisiense havia aumentado de 1.174.300 habitantes em 1861, para 2.600.000, por volta de 1896, ultrapassava a casa dos 4.200.000 habitantes.


Não resta dúvida que o crescimento desmesurado dessas cidades teve diversas origens, mas não devemos desconsiderar a possibilidade de que os avanços na melhoria das condições de vida propiciadas pelo desenvolvimento da ciência e da medicina favoreceram este significativo aumento populacional. Isto não que dizer que a miséria e a pobreza dos bairros populares tivessem desaparecido, mas já se vislumbrava aos poucos uma melhoria nos serviços de higienização urbana. No entanto, a grande transformação ocorrida nos comportamentos de vida urbana esteve ligada, sem dúvida, ao novo sistema de distribuição e venda de mercadorias, que eram produtos da revolução tecnológica propiciada pela industrialização. Nada mais significativo na feição das grandes cidades do que a exposição pública das mercadorias nas vitrines e o aparecimento da loja de departamentos. Ela representava uma resposta comercial à fábrica moderna, produtora de grande quantidade de mercadorias, que por sua vez deveriam ser vendidas rapidamente, em grande número e com pequena margem de lucro. A velocidade na comercialização dessas mercadorias garantia a taxa de lucro desses grandes magazines e suas vitrines mudavam constantemente para a exposição pública das novidades produzidas pela tecnologia industrial.


Do ponto de vista do homem moderno habitante das grandes cidades, parece que o tempo de lazer havia aumentado, e ele podia dedicar-se mais às diversões e ao consumo. Neste sentido, não só a ampliação do sistema de exposição e venda de mercadorias foi decisivo, mas também a abertura de novos negócios voltados ao aproveitamento do tempo livre e de lazer do homem moderno. Teatros, casas de espetáculo, circos, atrações esportivas, parques de diversão, panoramas (divertimento que antecedeu o cinema) foram se multiplicando para o deleite e o prazer das classes ociosas, que podiam usufruir desses passatempos urbanos. Até as classes populares aos poucos foram conquistando um tempo maior de lazer como resultado de suas batalhas sindicais pela redução das jornadas de trabalho fabril. Por isso, seria improvável que a melhor cartografia das agitações operárias de Londres pudesse ser traçada levando-se em conta a localização dos bares (pubs), espaço predileto do lazer dos trabalhadores.


Vender, mediante exposição pública permanente, as mercadorias produzidas pela indústria tornou-se rapidamente a estratégia principal do sistema capitalista, e vender não apenas mercadorias palpáveis, mas também os sonhos de uma vida cheia de prazeres e também de aventuras. Dentre as criações mais originais da venda de promessas da sociedade industrial, a mais magnífica de todas elas foi a criação das exposições universais, verdadeiros palácios de sonhos da industrialização e do progresso. Tamanho foi o prestígio dessas feiras internacionais, que se espalhavam pela Europa e pelos Estados Unidos, que elas se tornaram os verdadeiros símbolos da modernidade, com a construção de monumentos magníficos como o Palácio de Cristal, na Inglaterra, e a Torre Eiffel, em Paris, sem contar é claro, com a Estátua da Liberdade na entrada do porto de Nova York. Exemplos majestosos de uma arquitetura que se desenvolvia à custa de materiais como o ferro e o vidro, esses monumentos tornaram-se ícones da modernidade industrial. Visitar essas exposições internacionais era uma experiência que pode ser comparada, atualmente, a um passeio à terra do sonho tecnológico, a Disneylândia, que é um parque de diversões inspirado no modelo dos parques do século XIX, dos quais o Tívoli de Copenhague ainda é o exemplo mais deslumbrante. Tamanho foi o fascínio por este parque de diversões magnífico que o próprio imperador Pedro II do Brasil não se cansava de visitá-lo. Mas igual fascínio também era criado pelas exposições universais da indústria, onde ficavam expostos à visitação e à curiosidade de todos os mais novos inventos da tecnologia aplicados à indústria e à vida cotidiana.


Na exposição universal de Paris de 1867, por exemplo, foi apresentado um diadorama do Canal de Suez, que iria ser inaugurado para a navegação em pouco tempo, deixando os visitantes curiosos e extasiados com as maravilhas da tecnologia moderna. A historiadora Sandra Pesavento, que escreveu um livro sobre essas exposições universais, descreve com muita perspicácia o deslumbramento das pessoas que visitavam as exposições universais. Dentre as inúmeras novidades que a autora nos apresenta da exposição de Paris de 1867, destaca-se o escafandro, essa “criatura de aspecto monstruoso”, segundo os espectadores. Não menos surpresos e fascinados ficaram os curiosos diante da novidade dos elevadores. Segundo o visitante Hippolyte Gautier, “estranhas serão as vossas sensações; vos parecerá que todos os objetos fogem a vossos pés, mas bem mais estranha ainda a vista que se oferecerá à vós do alto do teto (...) se semelhantes aparelhos, construídos tais como aqueles que existem depois de longos anos nos hotéis da Inglaterra ou dos Estados Unidos, substituírem por tudo as escadas tão penosas de montar, cada um quereria procurar, nos andares superiores, o grande ar e as perspectivas agradáveis que faltam ordinariamente aos apartamentos confortáveis (citado in Pesavento, 1997).


A exposição dos produtos industriais tinha uma dimensão absolutamente inebriante e na mesma exposição tanto se poderia admirar a nova máquina de costura Singer, como o mais moderno canhão da fábrica alemã Krupp. Além dessas inovações tecnológicas, a exposição universal de Paris de 1867 foi a primeira que reservou um lugar de destaque para a mais nova descoberta da modernidade, a eletricidade, além de apresentar com grande impacto o telégrafo que passara a funcionar desde 1866, com a instalação do primeiro cabo submarino. Muitas dessas novas maravilhas do mundo moderno podiam ser usufruídas pelos visitantes da feira e a eletricidade foi a maior atração da exposição parisiense, as diversões podiam ir até tarde da noite: “o parque, ficando aberto até as 11 horas, retinha ainda um certo número de visitantes que desejavam aí jantar e gozar de algumas distrações que ele oferecia, (...) caindo a noite, o pórtico do palácio se iluminava de um cinturão de fogos, aos quais os restantes acrescentavam o brilho de suas luzes, O grande farol do lago cintilava sobre Paris” (citado in Pesavento, 1997, p.127)


Dentre todos esses inúmeros estímulos que agiam sobre o homem das cidades em sua preocupação de consumo e de aproveitamento do tempo livre, nenhum foi mais inebriante do que a venda de viagens e aventuras maravilhosas, isto é, a venda de sonhos mirabolantes no extenso mundo colonial criado pelo imperialismo. Com o desenvolvimento das ferrovias e da indústria naval, não foi apenas a produção industrial que encontrou mais velocidade para a vazão de suas mercadorias. Também o homem da cidade pôde começar a usufruir das viagens de trem e de navio. Estava nascendo junto com a aventura imperialista um novo personagem, que a partir desse período irá circular por todos os cantos do mundo moderno, o turista.
O turista Acidental e a Aventura Imperialista


Um dos filmes mais aclamados dos últimos anos conta uma história recheada de sonhos e fantasias do turista moderno que acabou em tragédia. Refiro-me ao filme Titanic. O navio representa um microcosmo da sociedade da Europa moderna do período imperialista, com seu andar superior repleto de personagens típicos da burguesia abastada e ociosa, da agonizante aristocracia e da classe média ascendente, todos eles turistas em busca de aventuras e fantasias no além-mar. Nos andares inferiores, amontoam-se trabalhadores que emigram para países distantes da Europa em busca de sonhos de felicidade. Não deixa de ser significativo que todos estão no mesmo barco, que entretanto, ao afundar, privilegia o salvamento dos mais abastados e deixa os trabalhadores jogados à própria sorte. Uma semelhança muito grande com o que acontecia na vida cotidiana das grandes cidades européias e que também encontraria continuidade na aventura imperialista. Todos parecem ter o seu sonho satisfeito dentro do navio: os burgueses, porque suas aventuras e fantasias iriam se transformar em lucros capitalistas fabulosos na expansão e exploração econômica imperialista; a aristocracia decadente, por acreditar no sonho imperial cavalheiresco da expansão e da dominação européia no mundo; a classe média ascendente, porque esperava alcançar os cargos burocráticos e militares da administração colonial; e os trabalhadores por sonharem com terras distantes, onde iriam começar uma nova vida diferente das agruras das grandes cidades industrias e da pobreza do trabalho rural assalariado. O elemento emblemático do filme Titanic é esse navio, símbolo da vitória da tecnologia e da ciência, que se acreditava indestrutível e impossível de submergir, como se a confiança na ciência e na técnica fosse de tal grandeza, a ponto de cegar os homens para a possibilidade de um desastre. Todos aqueles que participaram da viagem, de uma maneira ou de outra, acreditaram nessa fantasia criada pela tecnologia industrial e apenas perceberam o tamanho do pesadelo quando acordaram tarde demais. Se pudéssemos resumir a experiência imperialista numa única imagem, o Titanic seria sem dúvida uma das mais completas. Evidentemente, existiram outras, mas que talvez não tenham alcançado a dimensão real desse navio, que de sonho maravilhoso transformou-se num enorme pesadelo.


O imperialismo também iniciou-se com uma viagem de sonhos fascinantes e aos poucos também foi se transformando num verdadeiro pesadelo que tomou conta da sociedade européia por ocasião da Primeira Guerra Mundial. Sonhos de tal maneira mirabolantes e grandiosos que o mais enigmático dos negociantes imperialistas ingleses, que manteve negócios fabulosos na África a ponto de um país africano ter recebido o seu nome (Rodésia, hoje, Zimbábue) chegou a delirar que estava anexando os planetas do sistema solar para a coroa da Inglaterra. Esta necessidade de expansão foi de tal magnitude que não poderia ter terminado, a não ser em desastre e horror. Com um franqueza que chega às raias da loucura, Cecil Rhodes, que acreditava que a “expansão é tudo”, se lamentava e se deprimia ao olhar o céu e pensar que não iria poder anexar as estrelas, “essas estrelas (...) esses vastos mundos que nunca poderemos atingir. Se eu pudesse, anexaria os planetas” (citado in Arendt, 1976, p.16)


A personalidade desse novo homem urbano sujeito às mais variadas formas de estímulos e de desejos e ao mesmo tempo objeto de toda uma tecnologia disciplinar, que se estendia da casa à escola e da escola ao trabalho nos escritórios e nas fábricas, passou a ser preocupação, principalmente, de médicos e de profissionais de uma nova área do conhecimento que especializava no tratamento de problemas mentais, a psicologia. Nesse período, em Viena, uma das cidades burguesas que simbolizavam a modernidade, um médico austríaco desenvolvia pesquisas sobre o funcionamento da mente humana, buscando descobrir a origem dos traumas e das neuroses individuais produzidas pela repressão dos desejos. Se dermos a devida atenção aos desejos de expansão, de anexação dos planetas do imperialista Cecil Rhodes, podemos ter uma vaga idéia das neuroses que o psicanalista Sigmund Freud estudou na sua clínica vienense. Apesar de Cecil Rhodes jamais ter se deitado no divã do Dr. Freud, com certeza muitos homens comuns abriram o seu coração para que ele pudesse descobrir o mal estar de uma civilização em crise com a sua própria identidade. Esse doutor perturbador e pai da psicanálise, desvendava o mistério da alma do homem moderno das grandes cidades e percebia que as fantasias mais aterradoras e diabólicas poderiam muito bem ser imaginadas pelos mais pacatos pais, mães e filhos de famílias burguesas.


Seguindo à distância as descobertas do Dr. Freud, podemos ter a noção da dimensão do sonho de expansão e de dominação imperialista projetada pelos mais comuns dos homens das cidades européias. Ainda hoje, esse sonho de aventuras e façanhas mirabolantes em terras distantes ocupa a nossa imaginação, como a expressão de um desejo de expansão e de superação de uma vida levada na mais pacata ordem, rotina e disciplina. Ao levarmos em consideração o modo como as pessoas que vivem nas cidades atualmente se fascinam pelos esportes radicais, conseguiremos avaliar quanto foi fascinante, no fim do século XIX, imaginar que qualquer um poderia se engajar numa aventura imperialista e servir de instrumento dessa política dos estados europeus em países distantes. Ainda hoje convivemos com a projeção desse sonho imperialista mirabolante, quando, no escurinho do cinema, ficamos extasiados com as espetaculares aventuras de Indiana Jones, este simpático antropólogo do imperialismo que optou pelas causas mais nobres e pela justiça dos mais fracos. O que é mais intrigante é que esse modelo de herói cinematográfico tem correspondência na vida real e foram copiados de personagens enigmáticos do imperialismo. Outro personagem fascinante da política imperialista, que inspirou um filme magnífico do diretor inglês David Lean, foi Lawrence da Arábia, um agente do serviço secreto de espionagem britânico que se transformou em líder do movimento de libertação nacional árabe contra os turcos.


Dentre todos os personagens do período do imperialismo, Lawrence talvez tenha sido o mais intrigante e mais enigmático. Escritor genial, filho da aristocracia inglesa, intelectual erudito, um verdadeiro asceta e acima de tudo um aventureiro, engajou-se no serviço secreto britânico por puro desejo de emoções, tendo se tornado um dos idealizadores da guerrilha moderna. Sua maior realização foi ter conseguido a união dos povos árabes contra a Turquia, durante a Primeira Guerra Mundial. Em uma biografia de Lawrence ficamos sabendo que ele foi muito respeitado entre árabes e, usando dos mais diferentes estratagemas, conseguiu tudo o que precisava de apoio militar dos ingleses. Este inglês asceta fez de tudo: “chefiou tribos, conquistou cidades, dinamitou trens, desnorteou o inimigo com suas estratégias ousadas e eficazes, manipulou e deturpou informações, enganando os turcos e os alemães, e, quando chegou a vitória, retirou-se anonimamente. Depois da guerra, tornou-se um lenda viva na Inglaterra, mas recusou todas as homenagens, furtando-se a uma audiência com o Rei Jorge V e rejeitando honrarias e convites insistentes de Winston Churchill para trabalhar como conselheiro político no Oriente Médio (Comentário introdutório ao livro T.E. Lawrence, 1975)


Para além das interpretações, fica a imagem de um homem de gênio, que conciliou ação e contemplação, exaltação guerreira e capacidade introspectiva, carisma profundo e aspiração pelo anonimato, entusiasmo e depressão (citado por Lawrence, 1975). Nem o romance de ficção com o agente secreto 007 de Sua majestade, James Bond, conseguiu superar a ousadia e o aventureirismo de Lawrence da Arábia, tendo criado apenas uma pálida imagem da personalidade e da psicologia do agente secreto do imperialismo.


Pois bem, já que falamos de romances de aventura, podemos aproveitar a oportunidade para estudá-los e melhor compreender a personalidade dos homens que viveram a aventura imperialista. Entre os registros históricos de que dispomos desse período, nenhum é tão rico em sugestões do que os romances de aventura que povoaram a imaginação de milhões de pessoas em todo o mundo. Neles encontramos todos os elementos da política imperialista, desde aqueles mais triunfalistas e propagandísticos até os mais críticos cépticos ou pessimistas. Independentemente da posição assumida ante a política imperialista, a verdade é que as décadas finais do século XIX foram extremamente férteis para a criação literária. Alguns escritores posicionaram-se criticamente à política expansionista, enquanto outros escreveram obras inesquecíveis mais legitimadoras do domínio europeu no mundo. Dentre os que louvaram a política imperialista, destaca-se um grande escritor de origem indiana, Rudyard Kipling, ganhador do prêmio Nobel de literatura de 1907, que se tornou um dos maiores poetas da língua inglesa. Seus contos endereçados a um público infantil e de adolescentes fascinou ainda com maior intensidade os adultos, que provavelmente sentiam um desejo infantil de aventuras muito mais arrebatador do que o das crianças. As aventuras de Mowgli, o menino-lobo, que narra a educação de uma criança numa matilha de lobos, ainda é a peça literária mais impressionante de tradução dos princípios da obediência do cidadão ao Estado poderoso e absoluto. Numa linguagem absorvente e encantadora, o menino-lobo aprende a disciplina das selvas, e os versos de Kipling ressoam fortemente os princípios de obediência ao Estado, concebidos pelo filósofo inglês Thomas Hobbes em sua célebre obra O Leviatã. Os mirabolantes desejos expansionistas de dois aventureiros ingleses, apostando que poderiam ser reis de algum povo colonizado, transformaram-se em realidade, na magnífica narrativa O homem que queria ser rei. As peripécias e desafios do agente secreto britânico, que acredita poder manipular as leis da história agindo na clandestinidade, no sigilo e no anonimato, são magnificamente retratados no romance Kim. Nesse conto magnífico, o agente secreto é uma criança, completamente entregue aos seus desejos de despojamento e de desprendimento, em nome do puro prazer da aventura. A ficção e a realidade se misturam quando lemos esses romances de Kipling ao lado dos relatos da experiência pessoal do agente secreto britânico conhecido como Lawrence da Arábia.


Contudo, se Kipling representou a maior glória literária em favor da política imperialista, outros escritores, principalmente ingleses, perceberam que esse sonho haveria de se transformar, como num passe de mágica, num verdadeiro pesadelo para o cidadão comum europeu. Uns menos e outros mais críticos, escritores como E.P. Foster, com a sua desconcertante análise do desejo sexual do dominador pelo dominado em Passagem Para a Índia, a dinamarquesa Isak Dinesen, com a sua fracassada A Fazenda africana, o socialista George Orwell, que, além de crítico do totalitarismo em sua obra maior 1984, foi também um virulento opositor da política imperialista em seu livro sobre a irracionalidade da dominação colonial Meus dias na Birmânia, todos eles representaram a consciência culpada e crítica do europeu ante a dominação colonial.


Entretanto, foi um escritor polonês, naturalizado inglês, de nome Joseph Conrad, o responsável pela maior obra de ficção escrita sobre a política imperialista, o romance-síntese de toda uma época, O Coração da treva, uma viagem assustadora para o interior das trevas do homem moderno. Nesse romance, a grande cidade européia é metaforizada nas selvas africanas, onde o homem civilizado, livre de todas as convenções, imbuído dos ideais de progresso, expande ilimitadamente o seu poder, levando tudo o que o rodeia à destruição e à barbárie. O enredo do romance, resumidamente, é um relato de um marinheiro contratado por uma companhia comercial para subir um rio na África em busca de um comerciante exemplar que, ao levar ao paroxismo e ao exagero os seus métodos de exploração e expansão econômicas, põe em risco os próprios poderes da companhia. A viagem do marinheiro Marlowe subindo o rio é de uma alegoria desconcertante e ele, ao presenciar a arrogância com que o homem branco exerce o seu poder sobre os povos de outras raças, começa a questionar o porquê daquela missão em busca de Kurtz. Marlowe, em seu barco subindo o rio, presenciando as iniqüidades da expansão colonial, viaja em direção ao âmago do homem moderno, com seus ideais de expansão e progresso, e, ao encontrar Kurtz, acaba encontrando o vazio e a solidão de si mesmo.


A Londres do século XIX está metamorfoseada na selva de Joseph Conrad, e o homem moderno, com sua angústia, sua solidão e seu medo têm em Kurtz o seu próprio paradigma, que em sua profunda tristeza percebe que sua ânsia de expansão só terminará quando todos estiverem destruídos. Por isso, no fim do percurso do rio, Marlowe vai ouvir de Kurtz uma mesma e aterrorizante palavra: o horror, o horror.


Esse rio transporta Marlowe para o âmago das trevas e da escuridão do homem moderno. Um rio da África que bem poderia ser o Tamisa, bordejando a selva da cidade de Londres numa noite sem fim. “lanternas deslizavam sobre o rio, pequeninas flamas – verdes, vermelhas, brancas – que se perseguiam, se alcançavam, juntavam-se e entrecruzavam-se para, em seguida separarem-se lenta ou velozmente. O comércio da grande cidade se adensava sobre o inquieto rio”.


Esta alegoria aparece no romance de Conrad, logo no início, quando Marlowe, o marinheiro, se põe a pensar a respeito das águas do rio Tamisa, que banha a cidade de Londres: “Estava pensando naqueles tempos remotos, em que os romanos, pela primeira vez, apareceram aqui, há cerca de mil e novecentos anos (...) ontem, afinal (...) Desde esse momento a luz irradiou-se deste rio. Os paladinos, dirão vocês (...) Sem dúvida (...) A treva, porém, estava aqui ainda ontem. Imaginem o estado de alma do capitão (...) de uma bela trirreme do Mediterrâneo (...) Imaginem-no aqui, no fim do mundo (...) subindo o rio com provisões, ordens ou o que mais quiserem (...) A morte rodando no ar, nas águas, nas brenhas (...) Deviam morrer feito moscas aqui! E, no entanto, ele cumpria a missão. Cumpri-a muito bem, não há dúvida, e sem pensar muito nisso, exceto mais tarde, para se vangloriar de tudo o que teve de suportar em seu tempo. Sim, eram homens capazes de olhar a treva de frente (...) A conquista de terra, que consiste fundamentalmente em tomá-la daqueles cuja cor é diferente da nossa ou tem o nariz ligeiramente achatado, não é coisa agradável de se ver se nela aprofundamos o nosso olhar. O que a redime é tão somente a idéia e uma fé altruísta nessa idéia, algo, enfim, a que se pode exaltar, reverenciar e oferecer sacrifícios (...)” (Trechos do livro de Joseph Conrad, O coração de treva).


Como vimos em inúmeras passagens, Conrad e Kipling trabalharam alegoricamente os elementos contraditórios do homem moderno e seus romances são exemplos magníficos do cosmopolitismo reinante no fim do século XIX. O mundo parecia não ter fronteiras e o homem urbano europeu, que sonhava aventuras arrebatadoras, acreditava que a expansão não tinha limites. Esse homem, que olhava mapas imaginando uma Europa expansionista e civilizadora dos povos, tinha no romance de aventuras a possibilidade de sonhar com uma vida diferente da sua, limitada pelas necessidades e pela repetição monótona do cotidiano das grandes cidades.


Esse período, cujas conseqüências mais desastrosas só seriam visíveis para o homem comum com a ameaçadora presença da guerra de 1914, foi o período do imperialismo. A sua própria denominação é um problema para o historiador atual, que recusa as periodizações tão abrangentes. Seria possível abarcar um conjunto tão complexo de acontecimentos sob uma única generalização? Acreditamos que não. Preferimos tomar a precaução de designar de imperialismo determinados elementos da política e da cultura européia que produziram no homem moderno o desejo desenfreado de uma expansão cujos limites alguns literatos, como Joseph Conrad em 1902, souberam apreender.


Enfim, na Índia ou na África, a burocracia, o exército e os negociantes criaram uma administração própria cooptando segmentos da população nativa, sem introduzir qualquer instituição política legal dos estados europeus, com exceção feita à França, que considerou os povos de suas colônias como cidadãos de segunda classe. Isto quer dizer que a administração colonial na maioria das vezes agiu de acordo com seus próprios interesses. Apesar de as instituições políticas do Estado inglês terem tentado, inúmeras vezes, pôr freio às pretensões dos imperialistas, elas não impediram que as pretensões expansionistas alcançassem uma dimensão mais assustadora do que aquela retratada por Joseph Conrad em O Coração da Treva.


Sabemos agora um pouco mais sobre o leitor dos romances de Conrad e Kipling, e começamos a desconfiar do porquê de ele saborear tão avidamente as aventuras empolgantes nos mares do Sul, na Índia e na África. Nas grandes cidades, a imprensa diária já alcançava um grande público leitor ávido por novidades e podemos imaginar quão empolgantes não teriam sido os relatos de aventuras em terras longínquas em contraste com a monótona rotina da vida cotidiana. Os navios não eram apenas fantasiados como o elemento difusor da cultura e da civilização européia pelo mundo. Já nessa época uma indústria florescente abria novas possibilidades de lazer para as classes abastadas das cidades. O turismo iria acompanhar de perto a expansão política imperialista e o sonho do cidadão comum passava a ser, desde então, uma viagem repleta de surpresas e aventuras num navio.


Os relatos dos viajantes e os romances de aventuras faziam aquilo que mais tarde iria fazer uma nova ciência social, a antropologia (cujo nascimento corresponde ao período do imperialismo): eles davam respostas às questões que as pessoas comuns tinham sobre as várias sociedades que emergiam “debaixo do guarda-sol colonial”.


Um Outro Sonho da Modernidade: O Socialismo


Sem sombra de dúvida, o movimento socialista, por volta de 1890, pretendia-se internacional. A Associação dos Trabalhadores da Segunda Internacional já tinha, inclusive, um hino que pregava e prometia a redenção internacional dos trabalhadores. Em sua sessão de abertura no dia 14 de julho de 1889, em Paris, na data comemorativa do centenário da Revolução Francesa, estavam presentes organizações e partidos socialistas de vários países, mas, se observarmos atentamente, iremos perceber que quase todos eram oriundos da Europa, com exceção feita às representações dos Estados Unidos da América, da Austrália, da Índia e do Japão, um sinal ainda fraco da internacionalização do socialismo na corrente da expansão imperialista. Nesse congresso adotou-se, além do hino, também dois outros símbolos, o primeiro deles a bandeira muito vermelha que passaria a representar o sangue de todos os homens que lutaram por idéias socialistas e o segundo, a comemoração do Dia Internacional dos Trabalhadores, o 1° De Maio, onde se levantariam as vozes para o lema “Trabalhadores de todo mundo, uni-vos”. Estavam presentes membros de partidos e organizações socialistas da Inglaterra, Alemanha, França, Holanda, Itália, Bélgica, Dinamarca, Áustria, Hungria, Suécia, Noruega, Espanha, entre outros.


Com todos esses representantes, os trabalhadores industriais e de todos os outros ramos de atividade do trabalho poderiam ou não se sentir representados. Isto porque tal congresso não era, propriamente, uma reunião de operários. Mas tal suspeita ou dúvida, com certeza, não era procedente para aqueles militantes que participavam da Associação Internacional. Para esses militantes socialistas, os trabalhadores de todo o mundo tinham, finalmente conquistado um espaço de visibilidade nunca antes imaginado, através da Associação Internacional. Entre as várias tendências socialistas que participaram da abertura do congresso, a mais influente era, sem dúvida, a de orientação marxista. Tal peso político no interior da Associação Internacional dos Trabalhadores acabou por expulsar correntes de inspiração anarquista, já em 1896, por ocasião do Congresso de Londres. O resultado desse conflito seria o desmembramento do movimento socialista em todo o mundo, em uma tendência anarquista que recusava as lutas em defesa de uma legislação social para os trabalhadores e repudiava a formação de partidos políticos que viessem a participar de trabalhos parlamentares e uma outra, na qual os marxistas eram majoritários, que aceitava tanto a luta por legislação social, como a participação no sistema político do Estado burguês.


Mas essa Associação, apesar de suas divisões, ainda iria causar muito tumulto e pânico nas classes dominantes, e a constatação disso já se podia observar no pavor que se abateu sobre a cidade de Viena, quando o líder socialista austríaco Victor Adler convocou todos os trabalhadores para uma greve geral no dia 1° de maio de 1890. As manifestações de rua criaram um imenso pânico nas autoridades políticas e policiais, temendo que a multidão saqueasse e ateasse fogo nas lojas do comércio, causando grandes distúrbios. Aos olhos de um observador atento, essa manifestação de trabalhadores em uma época de grande tranqüilidade burguesa representava o próprio “inferno, sôfrego e inexorável, que se abre pode debaixo da sociedade industrial”. A verdade é que, em meio a tranqüilidade reinante no mundo da burguesia e de uma classe média ascendente, sobreviviam milhões de trabalhadores espalhados pela Europa com jornadas de trabalho de 12 horas durante sete dias por semana, vivendo com baixos salários e em más condições de saúde e habitação. Ainda não havia chegado o dia do descanso dominical e das jornadas de 10 horas para a grande maioria dos operários industriais, benefícios que só seriam alcançados muito mais tarde e apenas em alguns países.


Contudo, o que mais deu intensidade aos debates da Internacional Socialista não foi a urgência por tais conquistas. Ainda que elas pudessem representar ganhos inestimáveis na luta dos trabalhadores contra a exploração capitalista, o que mais ocupou o tempo dos líderes da Internacional foram quais os caminhos e os rumos a serem seguidos pelos socialistas. Diante do enorme crescimento das economias capitalistas, do aumento da concorrência entre nações industrializadas em busca de novos mercados e com o processo de acumulação de capital aumentando a competição internacional, uma tendência marxista pregava a iminência do colapso capitalista e a revolução política, ao passo que a outra ala acreditava que os dias finais do capitalismo não estavam tão próximos e que o socialismo poderia, muito bem, ser alcançado mediante reformas graduais no sistema burguês, conseguidas através de alianças com outros partidos políticos progressistas. Revolução ou reforma, este foi o grande dilema da Internacional durante o período entre o congresso de 1889 até a Primeira Guerra Mundial e que propiciou uma divisão significativa entre os partidários do socialismo marxista. A fragrância juvenil do congresso de 1889 permitiu por algum tempo que as lutas socialistas se unificassem em torno de quatro pontos fundamentais, num momento em que os anarquistas ainda não tinham sido expulsos da Internacional. Foram eles: a jornada de trabalho de 8 horas, o sufrágio universal masculino, a substituição do exército de cidadãos por um exército permanente e, por último, a observância da data do 1° de maio como o dia da confraternização de protestos e demonstrações trabalhistas em todo o mundo.


No entanto, gostaríamos de dar ênfase a duas questões que por tradição, aparecem muito pouco nos textos que tratam do socialismo nesse período. A primeira, já foi mencionada acima, é a famosa disputa no movimento socialista entre os partidários da revolução e os do reformismo. A segunda refere-se à difusão do socialismo pelo mundo e os impactos dessa propagação diante da corrida imperialista. Poucos livros dão atenção para estes problemas e o primeiro deles inaugurou uma acirrada disputa política entre os partidários da teoria marxista e deveu-se, principalmente, a um socialista alemão, Bernstein, amigo da maior confiança de Karl Marx e Frederic Engels, os pais fundadores do socialismo científico. Aliás, ele conviveu durante algum tempo com Marx, quando pesquisavam nas bibliotecas de Londres e eram, de certa forma, ajudados financeiramente por Engels. Este último cedeu uma casa em Londres, onde Marx e Bernstein se hospedaram. Pois bem, anos depois da morte de Marx e, em seguida, da morte de Engels, Bernstein publicou em um jornal socialista suas idéias pouco ortodoxas a respeito da crise final do capitalismo. Suas opiniões desagradaram imensamente os partidários da revolução, que o acusaram de trair o pensamento de Marx, e que seria responsável pelo testamento de Engels, expôs idéias que se voltavam diretamente contra Marx. Bernstein, opondo-se a Marx, não acreditava que estivesse havendo uma concentração da propriedade capitalista. Achava, ao contrário, que o desenvolvimento capitalista estava distribuindo a propriedade capitalista entre mais pessoas, com a criação das sociedades de ações. Também acreditava que Marx havia se enganado ao imaginar que o desenvolvimento capitalista traria mais pobreza para os trabalhadores e que também proletarizaria a classe média pela ampliação do setor terciário da economia capitalista, como também estava havendo melhorias nas condições de vida do operariado industrial.


Por tudo isso, este alemão achava que não era nada viável uma revolução nos países industrializados, acreditava que o capitalismo teria muito fôlego para agüentar crises periódicas e que o movimento socialista deveria se preparar para lutar por reformas políticas e sociais, através de alianças com outros partidos reformistas. A indignação dos socialistas contra Bernstein pode ser comparada com a reação dos cristãos contra um fiel que renegasse a figura de cristo. A hostilidade foi tão grande que a própria viúva de Marx acabou escrevendo uma carta aos socialistas defendendo o antigo amigo da família. Sua polêmica foi responsável por uma divisão entre socialistas, ainda mais profunda do que aquela ocorrida por ocasião da retirada dos anarquistas da Internacional. Essas mudanças foram mais evidentes nos posicionamentos do Partido Social Democrata da Alemanha, a maior organização política marxista do Ocidente, e elas acabaram se espalhando entre os membros da Associação Internacional dos Trabalhadores. O maior temor dos militantes da Internacional ante as posições de Bernstein era o de que, com as suas teses, os próprios socialistas, aos poucos, viessem a abandonar a bandeira do socialismo, pois ele deixava de ser uma inevitabilidade histórica. Além disso, para o desgosto dos socialistas, Bernstein foi mais longe em suas críticas a Marx, pois chegou a conclusão de que o operariado não era uma classe homogênea, estava profundamente dividido com a especialização do trabalho na economia capitalista, não conseguia definir metas e objetivos comuns, sendo que uma boa parcela dele era muito hostil ao próprio socialismo. Portanto, Bernstein considerou que Marx e seus seguidores não perceberam as transformações ocorridas na economia capitalista e por esta razão ainda pregavam uma revolução inevitável. De acordo com as suas teses, o objetivo dos socialistas deveria ser o de tornarem-se então defensores de uma sociedade eticamente democrática e para isso deveriam conta com o apoio de outros partidos políticos para a consecução de reformas que pudessem melhorar a qualidade de vida de todos, e não apenas de um proletariado profundamente idealizado.


A verdade é que não havia como ignorar a importância do debate revisionista, porque o capitalismo estava avançando em todos os lugares da Europa e fora dela, os trabalhadores industriais estavam se constituindo numa força política importante e os partidos socialistas ganhavam lugares importantes no Parlamento de vários países. Entre as vitórias conquistadas destacam-se, principalmente, a do Partido Social Democrata da Alemanha nas eleições de 1902, o crescimento do socialismo na Itália com a forte presença das cooperativas camponesas, a quase maioria dos socialistas no governo da Câmara da França e também a presença marcante do Partido Socialista na Áustria.


Diante de um crescimento significativo da presença socialista na vida política de vários países europeus, qual foi a força dessas organizações na luta contra a política imperialista? Em primeiro lugar, precisamos conhecer de que modo o socialismo, um doutrina elaborada em círculos europeus, não propriamente de operários, e que aos poucos foi ganhando peso entre os trabalhadores, pôde, num espaço de tempo relativamente curto, entre 1889 e 1914, ganhar uma repercussão mundial. Sua divulgação num contexto internacional sugere, primeiramente que os trabalhadores submetidos à exploração capitalista, bem ou mal, estavam aprendendo a ler e que, por outro lado, ele significou um empobrecimento teórico da doutrina. Tornar compreensível para os operários de todas as partes do mundo as idéias de Karl Marx sobre o capitalismo e o socialismo era uma meta a ser perseguida pelos partidários da Internacional e, para lograr êxito nesta tarefa, eles procuraram se utilizar de uma linguagem de senso comum, além de simplificar ao máximo a doutrina marxista da luta de classes e do socialismo. Cientes de que o partido marxista deveria conquistar o maior número de adesões entre os trabalhadores, a Internacional Socialista, inaugurada em 1889, tomaria para si a responsabilidade de vulgarização das idéias de Marx. Primeiramente, esta divulgação aconteceu em um contexto nitidamente europeu, na Alemanha, França, Itália e Bélgica, mas em menor proporção na Inglaterra. Além disso, não podemos esquecer que algumas regiões européias o anarquismo foi uma doutrina mais atraente do que o marxismo – na Espanha, por exemplo -, como também aconteceu com o trabalhismo inglês. Apesar dessas oposições, o fato é que, em um período relativamente curto, a Internacional, aproveitando-se inclusive, de uma nova emigração européia para outras partes do mundo, conseguiu vulgarizar a tal ponto as idéias de Marx que não era improvável que um trabalhador em Tóquio no Japão, de Xangai na China, de Sidney na Austrália, de São Francisco, Chicago e Nova York, nos Estados Unidos, ou em Buenos Aires na Argentina, não soubesse de cor as idéias vulgarizadas do marxismo. Mas o que significou essa vulgarização? Por um lado, uma extrema simplificação da teoria, postulando vulgarmente um marxismo que se assemelhava a um evolucionismo do tipo darwinista, como se a história das sociedades se assemelhasse à evolução dos seres vivos, e a crença quase religiosa na inevitabilidade do socialismo.


A geografia dessa difusão, se não é coincidente, assemelha-se muito com a própria geografia do imperialismo, imprimindo um rumo muito peculiar á história desse período. Portanto, o imperialismo teve que se debater com uma poderosa força política de contestação que ele próprio ajudou a propagar: o socialismo.


Entretanto, toda a propaganda internacional das idéias socialistas, proporcionada pela política da Internacional, não foi suficiente para impedir que, em 1914, as nações industrializadas líderes da corrida imperialista iniciassem uma das guerras mais assustadoras da História. Uma das tentativas mais importantes foi a do Congresso da Internacional Socialista de Bruxelas, em 1912. Todos os grandes nomes do socialismo europeu estavam presentes, entre eles o lendário alemão Bebel e o líder francês Jaurès, que do púlpito de uma catedral fez um discurso eloqüente contra a guerra imperialista: “Chamo os vivos para que possam defender-se do monstro que surge no horizonte. Choro os inúmeros mortos que neste momento apodrecem no Leste. Quebrarei os raios da guerra que ameaçam os céus” (Tuchaman, 1990). Também na França, em 1913, Juarès procurou impedir que uma lei que revigorava o militarismo passasse na Câmara. Realizou uma manifestação pública de 150 mil trabalhadores, mas não conseguiu impedir que a lei fosse aprovada. Após o assassinato de Francisco Fernando, herdeiro do trono austríaco, no fim do mês de junho de 1914, os socialistas perceberam que seria necessário intensificar ainda mais propaganda antimilitarista, porque apenas eles e os anarquistas eram contrários a guerra. A resposta do movimento dos trabalhadores em todos os países deveria ser a declaração de uma greve geral revolucionária contra o militarismo, esperando com isto bloquear o avanço da corrida belicista. Entretanto, mesmo com grandes manifestações públicas, o socialismo parecia estar perdendo a sua batalha. Isto ficou simbolicamente retratado na noite de 31 de julho, quando Jaurès, depois de sair da redação do seu jornal, resolveu se reunir com um grupo de colegas no Café Croissant, em Paris. Comendo com os amigos, o líder socialista francês foi surpreendido por um vulto que já o seguia que lhe apontou uma pistola e o matou com dois tiros. Jaurés estava morto e a notícia se espalhou com incrível velocidade, mas a sensação era de que a última esperança pacifista havia caído morta num café parisiense. No dia seguinte, nada impediu que as tropas do exército francês se dirigissem à estação ferroviária para iniciar a guerra contra a Alemanha por causa do território perdido da Alsácia-Lorena durante a guerra franco-prussiana. A Alemanha, armada para o combate vindouro, garantiu o apoio à sua aliada, a Áustria, e acabou declarando guerra à França, Inglaterra e Rússia. Iniciava-se, deste modo, uma das guerras mais cruéis da História, pondo fim a um longo período de tranqüilidade aparente vivido pela população de vários países europeus.


A Belle-Époque ou a Alegria de Viver


Num período onde as ambições foram imensas e os sonhos também grandiosos, do domínio imperialista ao paraíso socialista, não seria absurdo dizer que todos os outros campos da atividade humana foram também atingidos por essa sensação de expansão ilimitada dos desejos. Por esse motivo a psicanálise de Freud ganhou importância, defrontando-se com o cidadão das grandes cidades ávido de emoções e dilacerado pela infelicidade de não poder realizar plenamente as suas fantasias. Lembremos que o imperialista Cecil Rhodes chorou quando teve a consciência de que o seu desejo de expansão não lhe permitiria anexar as estrelas. Havia a nítida sensação de que tudo estava em expansão, e as certezas fixas e mecânicas, que haviam garantido o pensamento europeu, principalmente o filosófico e o científico, durante os últimos dois séculos, estavam em via de desaparecer. Não poderia ser diferente quando observamos o avanço das matemáticas não-euclidianas e da descoberta da relatividade por Albert Einstein.
Os impactos sobre a grande maioria da população causados pelo desenvolvimento das ciências eram menores do que a aplicação tecnológica das descobertas científicas, como foi o caso da eletricidade, do telégrafo, do telefone e outros. Pois bem, o modo como essa crise intelectual de grandes proporções foi vivida pelas mais diversas pessoas deve ser analisado com maior atenção ampliando o conhecimento humano, entre eles o pensado alemão Max Weber, um dos fundadores da nova ciência do homem, a sociologia. Outros reagiram de maneira peculiar às descobertas da ciência. Procuraram as respostas dessa crise intelectual produzida pelas descobertas científicas não no conhecimento racional, mas em outras formas de conhecimento, que há muito haviam sido relegadas ao submundo. Proliferaram, nessa época, as visões místicas, o ocultismo a quiromancia e correntes religiosas ligadas ao orientalismo e ao espiritismo. Por se tratar de conhecimentos existentes no submundo da sociedade, e não tendo eles grande prestígio no mundo intelectual das elites originalmente, o ocultismo, a magia, a quiromancia e o espiritismo tinham numerosos pensadores autodidatas de esquerda. Contudo, a tendência histórica deste período foi completamente diferente e todos esses conhecimentos místicos deixaram o submundo e passaram a dar sustentação à crise intelectual do pensamento de direita. Tanto é assim que, nas origens, esses conhecimentos heterodoxos, como a frenologia, a homeopatia, o espiritismo, foram acolhidos principalmente por homens e mulheres céticos e descrentes das virtudes das ciências estabelecidas. Nesse período, entretanto, esses conhecimentos perdiam a sua dimensão contestadora para se transformarem em válvula de escape para o pensamento conservador, que tinha de enfrentar inimigos tão perigosos como o socialismo e a teoria da relatividade de Einstein.
Apesar da proliferação desses conhecimentos ter sido considerável em meios conservadores, é importante observar a extraordinária perda de terreno da religião tradicional, ocasionada principalmente pela maior instrução da classe trabalhadora. A defesa do livre pensamento pelas correntes do socialismo e do anarquismo ampliou a crença dos trabalhadores no evangelho científico, e uma das mais notáveis realizações da Internacional Socialista e dos anarquistas foi a criação das escolas livres e dos programas de instrução técnico-científicos para os trabalhadores. Entre os países que viviam uma industrialização intensa, apenas nos Estados Unidos a religião tradicional não sofreu grandes abalos, permitindo uma comparação com a atualidade, quando seitas religiosas protestaram contra o ensinamento da teoria da evolução do homem a partir do macaco, insistindo no ensino da visão bíblica de Adão e Eva. O movimento socialista internacional esteve sempre na linha de frente dessa crença na razão e no progresso e a vulgarização do marxismo se deveu à associação que os livros de divulgação faziam entre as leis da ciência e as leis da história, colocando o marxismo como uma ciência evolucionista, determinista e materialista.

Num período de tantas mudanças e descobertas seria difícil avaliar como ocorreram tais transformações. Contudo, uma coisa parece mais do que certa. Muitas dessas descobertas só foram possíveis pelo desenvolvimento tecnológico propiciado pela industrialização. Mais disponibilidade de energia elétrica, ao lado de um aprimoramento dos aparelhos de pesquisa, até do desenvolvimento de um sistema educacional fortemente voltado para o estudo das ciências, principalmente nas universidades. Entretanto, estas seriam as causas materiais, e não espirituais, das descobertas. Continuando neste argumento, não seria difícil concluir que os estudos de bacteriologia desenvolveram-se com a expansão imperialista, na medida em que os homens brancos precisavam estar imunizados contra as bactérias perniciosas do mundo colonial. O mesmo acontecendo com as políticas de saneamento voltadas à higienização dos bairros operários das grandes cidades européias, tendo elas servido para o avanço das pesquisas em bacteriologia. Uma outra ciência que teve grande prestígio nesse período foi a eugenia que, com o advento da genética em 1900, se propôs a aplicar os cruzamentos seletivos da agricultura e da pecuária em seres humanos. As implicações dessas teorias eugênicas no aprimoramento das raças iriam causar um verdadeiro cataclisma na humanidade algumas décadas mais tarde, quando Adolf Hitler adotou os princípios da eugenia para justificar o massacre de milhões de judeus e de opositores do regime nazista.


Mais difícil é imaginar de que modo as novas descobertas da física e da matemática se relacionam com os acontecimentos aqui mencionados. Não que físicos e matemáticos vivam no mundo da lua, enquanto a realidade corre rápida sob seus pés. Apesar de assemelharem-se a seres muito desligados, como é o caso do personagem de Albert Einstein, eles participam da história e suas descobertas têm uma relação mais abstrata com a realidade. De uma coisa podemos estar certos, observando esses cientistas com suas descobertas maravilhosas: eles não estavam sozinhos nessa viagem, porque muitos homens e mulheres que viveram nesse período também perceberam que os valores e padrões estabelecidos não davam mais conta da nova realidade mundial. Nesse sentido, eles não diferem dos artistas e dos sonhadores em todas as áreas da atuação, sejam homens ou mulheres.


Talvez, agora, seja o momento para observamos a presença cada vez mais acentuada de um novo personagem na cena histórica. Refiro-me às mulheres que começaram a ganhar o espaço da vida pública nesse momento marcado por grandes transformações na organização da vida e do trabalho. Além de serem requisitadas como trabalhadoras assalariadas nas fábricas e no setor comercial, as mulheres começaram a se fazer presentes também nas escolas e hospitais, além de se tornarem a figura fundamental na família burguesa, agora mais extensa e cheia de dependentes, mas constituída apenas pelo pai, pela mãe e os filhos. Com a redefinição dos papéis sociais, a mulher se torna a figura central da esfera familiar, além de, aos poucos, começar a ser ouvida nos espaços públicos. Ela tornou-se uma presença pública, não apenas como objeto do desejo masculino, através das artes, da propaganda e mesmo da prostituição, mas também como participante da vida política, com o surgimento de manifestações em favor do voto feminino. Para se ter uma idéia das dificuldades enfrentadas pelas mulheres antes do início da Primeira Guerra Mundial, basta mencionar que poucos países ocidentais haviam assegurado em suas leis o voto feminino. Os exemplos raros foram Austrália, Nova Zelândia, Noruega e Finlândia.


Figuras tão extravagantes como a presença feminina nos espaços públicos foram também os artistas. Do parque de diversões aos circos, dos pintores de rua aos salões, dos cabarés às salas de concerto, toda a arte foi se transformando neste período, inclusive com o advento da fotografia e do cinema. Através dessas artes e de seus espetáculos foram vividos os momentos mais criativos desse período. Ao abandonar o círculo exclusivo dos mecenas e transformar a sua obra em objeto de apreciação pública e de negociação financeira, o artista desceu de seu pedestal elitista e ganhou as ruas das grandes cidades. Com essa atitude, eles tornaram-se também colaboradores de uma nova estética que se anunciava com os avanços da ciência e da tecnologia. Através do domínio desses novos conhecimentos eles puderam conceber uma nova estética pictórica, a arte impressionista, observando os avanços do conhecimento científico sobre a decomposição da luz. A fotografia também se transformou em verdadeiro ícone dessa modernidade, quer no que diz respeito à formação da personalidade do indivíduo, através do retrato, quer quando utilizada como veículo de informação e notícia. Datam deste período, por exemplo, as primeiras fotografias de fronts de guerra, com seus mortos e feridos, produzindo uma nova sensação de veracidade e realismo ao acontecimento jornalístico, que passou a estruturar a vida cotidiana dos habitantes das grandes cidades. Utilizando-se das técnicas prenunciadoras do cinema de animação, apareceram na Europa os magníficos panoramas, que, através de uma ilusão de ótica, criavam, em ambientes fechados, cenários de grande cidade. Poucos desses panoramas sobreviveram ao tempo, mas ainda hoje há um exemplar magnífico na cidade holandesa de Haia, o panorama Mesdag, que recebeu o nome de seu pintor. Ele criou uma tela em forma circular, em ambiente fechado, onde se tem a impressão real de uma vista panorâmica da cidade de Haia a partir de seu ponto mais alto, com a iluminação de luz natural dando a sensação ao visitante de que ele pode ter várias impressões da cidade, dependendo das horas do dia.


A vida moderna e as ruas da grande metrópole ofereceram-se de maneira espetacular à inspiração artística, anunciada na poesia parisiense de Charles Bauldelaire, As flores do Mal e nos contos alucinantes do escritor americano Edgar Allan Poe. As figuras assustadoras da metrópole, bem como as novas sensibilidades e as novas formas de convívio social, proporcionadas pela maior liberdade de costumes, tornaram-se os temas prediletos dos artistas. Desde as percepções otimistas da arte até as suas representações mais sombrias, todas essas imagens formam um verdadeiro quadro impressionista da modernidade européia do final do século XIX. Ao lado de uma euforia muitas vezes exacerbada, da maioria dos indivíduos das abastadas classes média e alta, insinuava-se principalmente nas artes e na filosofia, uma percepção sombria e negativa desse mundo dos sonhos da Belle-Époque, como que anunciando a falta de remédios para um imenso mal estar da civilização.


Se pudermos fazer uma alusão mais artística dessa mal estar, nada como recordar os belos dias de uma das mais charmosas e artísticas cidades da Europa, a Viena burguesa, capital do Império Austro-Hungaro. Nessa cidade, berço de Sigmund Freud, autor de um dos mais arrepiantes diagnósticos da modernidade, o texto O mal-estar da civilização, parecia não haver lugar para temores e para o pessimismo, até o início do século XX. Foi nesta Viena embalada pelas valsas românticas de Strauss, como a Valsa dos Bosques de Viena e Danúbio Azul, que um outro compositor, Maurice Ravel, compôs sua nova valsa, carregada de pessimismo, com uma composição musical toda dissonante, onde segundo o historiador Carl Schorake (1988), intercalam-se ritmos alucinantes e compulsivos, anunciando uma ruptura com as suaves melodias das valsas de Strauss. Não seria nada absurdo afirmar que a valsa, música símbolo de Viena, tinha se transformado na composição de Ravel em uma “desvairada dança macabra”, anunciadora de tormentos somente compreendidos diante do horror da Primeira Guerra Mundial.


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Sentido da Colonização - Caio Prado Júnior





Sentido da Colonização

Caio Prado Júnior
Do livro Formação do Brasil Contemporâneo p.19

Todo povo tem na sua evolução, vista à distância, um certo “sentido”. Este se percebe não nos pormenores de sua história, mas no conjunto dos fatos e acontecimentos essenciais que a constituem num largo período de tempo. Quem observa aquele conjunto, desbastando-o do cipoal[1] de incidentes secundários que o acompanham sempre e o fazem muitas vezes confuso e incompreensível, não deixará de perceber que ele se forma de uma linha mestra e ininterrupta de acontecimentos que sucedem em ordem rigorosa, e dirigida sempre numa determinada orientação. É isto que se deve, antes de mais nada, procurar quando se aborda a análise da história de um povo, seja aliás qual for o momento ou o aspecto dela que interessa, porque todos os momentos e os aspectos não são senão partes, por si só incompletas, de um todo que deve ser sempre o objetivo do historiador, por mais particularista que seja. Tal indagação é tanto mais importante e essencial que é por ela que se define, tanto no tempo como no espaço, a individualidade da parcela de humanidade que interessa ao pesquisador: povo, país, nação, sociedade, seja qual for a designação apropriada no caso. É somente aí que ele encontrará aquela unidade que lhe permite destacar uma tal parcela humana para estudá-la a parte.

O sentido da evolução de um povo pode variar; acontecimentos estranhos a ele, transformações internas profundas do seu equilíbrio ou estrutura, ou mesmo ambas estas circunstâncias conjuntamente, poderão intervir, desviando-o para outras vias até então ignoradas. Portugal nos traz disto um exemplo frisante que para nós é quase doméstico. Até fins do século XIV, e desde a constituição da monarquia, a história portuguesa se define pela formação de uma nova nação européia e articula-se na evolução geral da civilização do Ocidente de que faz parte, no plano da luta que teve de sustentar, para se constituir, contra a invasão árabe que ameaçou num certo momento todo o continente e sua civilização. No alvorecer do século XV, a história portuguesa muda de rumo. Integrado nas fronteiras geográficas naturais que seriam definitivamente as suas, constituído territorialmente o reino, Portugal se vai transformar num país marítimo; desliga-se por assim dizer do continente e volta-se para o oceano que se abria para o outro lado, não tardará, com suas empresas e conquistas no ultramar, em se tornar uma grande potência colonial.

Visto deste ângulo geral e amplo, a evolução de um povo se torna explicável. Os pormenores e incidentes mais ou menos complexos que constituem a trama de sua história e que ameaçam por vezes nublar o que verdadeiramente forma a linha mestra que a define, passam para o segundo plano; e só então nos é dado alcançar o sentido daquela evolução, compreendê-la, explicá-la. É isto que precisamos começar por fazer com relação ao Brasil. Não nos interessa aqui, é certo, o conjunto da história brasileira, pois partimos de um momento preciso, já muito adiantado dela, e que o final do período de colônia. Mas este momento, embora possamos o circunscrever com relativa precisão, não é senão um elo da mesma cadeia que nos traz desde o nosso mais remoto passado. Não sofremos nenhuma descontinuidade no correr da história da colônia. E se escolhi um momento dela, apenas a sua última página, foi tão somente porque, já me expliquei na introdução, aquele momento se apresenta como um termo final e a resultante de toda nossa evolução anterior. A sua síntese. Não se compreende por isso, se desprezarmos inteiramente aquela evolução, o que nela houve de fundamental e permanente. Numa palavra, o seu sentido.

Isto nos leva, infelizmente, para um passado relativamente longínquo e que não interessa diretamente ao nosso assunto. Não podemos contudo dispensá-lo e precisamos reconstituir o conjunto da nossa formação colocando-a no amplo quadro, com seus antecedentes, destes três séculos de atividade colonizadora que caracterizam a história dos países europeus a partir do século XV, atividade que integrou um novo continente na sua órbita; paralelamente aliás ao que se realizava, embora em moldes diversos em outros continentes: a África e a Ásia. Processo que acabaria por integrar o Universo todo em uma nova ordem, que é a do mundo moderno, em que a Europa, ou antes, a sua civilização, se estenderia dominadora por toda parte. Todos estes acontecimentos são correlatos, e a ocupação e povoamento do território que constituiria o Brasil não é senão um episódio, um pequeno detalhe daquele quadro imenso.

Realmente a colonização portuguesa na América não é um fato isolado, a aventura sem precedente e sem seguimento de uma determinada nação empreendedora; ou mesmo uma ordem de acontecimentos, paralela a outras semelhantes, mas independente delas. É apenas a parte de um todo, incompleto sem a visão deste todo. Incompleto que se disfarça muitas vezes sob noções que damos como claras e que dispensam explicações, mas que não resultam na verdade senão de hábitos viciados de pensamento. Estamos tão acostumados em nos ocupar com o fato da colonização brasileira, que a iniciativa dela, os motivos que a inspiraram e determinaram, os rumos que tomou em virtude daqueles impulsos iniciais se perdem de vista. Ela aparece como um acontecimento fatal e necessário derivado natural e espontaneamente do simples fato do descobrimento. E os rumos que tomou também afiguram como resultados exclusivos daquele fato. Esquecemos aí os antecedentes que se acumulam atrás de tais ocorrências, e o grande número de circunstâncias particulares que ditaram as normas a seguir. A consideração de tudo isto, no caso vertente, é tanto mais necessária que os efeitos de todas aquelas circunstancias iniciais e remotas, do caráter que Portugal impelido por elas, dará à sua obra colonizadora, se gravarão profunda e indelevelmente na formação e evolução do país.

A expansão marítima dos países da Europa, depois do século XV, expansão de que o descobrimento e colonização da América constituem o capítulo que particularmente nos interessa aqui, se origina de simples empresas comerciais levadas a efeito pelos navegadores daqueles países. Deriva do desenvolvimento do comércio continental europeu que até o século XIV é quase unicamente terrestre, e limitado, por via marítima, a uma mesquinha navegação costeira e de cabotagem[2], como se sabe, a grande rota comercial do mundo europeu que sai do esfacelamento do Império do Ocidente é a que liga por terra o Mediterrâneo ao Mar do Norte, desde as republicas italianas, através dos Alpes, os cantões suíços, os grandes empórios do Reno, até o estuário do rio onde estão as cidades flamengas[3]. No século XIV, mercê de uma verdadeira revolução na arte de navegar e nos meios de transporte por mar, outra rota ligará aqueles dois pólos do comércio europeu: será a marítima que contorna o continente pelo estreito de Gibraltar. Rota, que subsidiária a princípio, substituirá afinal primitiva no grande lugar que ela ocupava. O primeiro reflexo desta transformação, a princípio imperceptível, mas que se revelará profunda e revolucionará todo o equilíbrio europeu, foi deslocar a primazia comercial dos territórios centrais do continente, por onde passava a antiga rota para aqueles que formam a sua fachada oceânica: a Holanda, a Inglaterra, a Normandia, a Bretanha e a Península Ibérica.

Este novo equilíbrio firma-se desde o principio do séc. XV. Dele derivará não só todo um sistema de relações internas do continente, como nas suas conseqüências mais afastadas, a expansão européia ultramarina. O primeiro passo estava dado e a Europa deixará de viver recolhida sobre si mesma para enfrentar o Oceano. O papel de pioneiro nesta nova etapa caberá aos portugueses, os melhores situados, geograficamente, no extremo desta península que avança pelo mar. Enquanto holandeses, ingleses, normandos e bretões se ocupavam na via comercial recém-aberta, e que bordeja e envolve pelo mar o ocidente europeu, os portugueses vão mais longe, procurando empresas em que não encontrassem concorrentes mais antigos e já instalados e para que contavam com vantagens geográficas apreciáveis: buscarão a costa ocidental da África, traficando aí com os mouros que dominavam as populações indígenas. Nesta avançada pelo Oceano descobrirão as Ilhas (Cabo Verde, Madeira, Açores), e continuarão perlongando o continente negro para o sul. Tudo isto se passa ainda na primeira metade do séc. XV. Lá por meados dele começa a se desenhar um plano mais amplo: atingir o Oriente contornando a África. Seria abrir seu proveito uma rota que os poria em contato direto com as opulentas Índias das preciosas especiarias, cujo comércio fazia a riqueza das repúblicas italianas e dos mouros por cujas mãos transitavam até o Mediterrâneo. Não é preciso repetir aqui o que foi périplo[4] africano, realizado afinal depois de tenazes e sistemáticos esforços de meio século.

Atrás dos portugueses lançam-se os espanhóis. Escolherão outra rota, pelo ocidente ao invés do Oriente. Descobrirão a América, seguidos aliás de perto pelos portugueses que também toparão com o novo continente. Virão, depois dos países peninsulares, os franceses, ingleses, holandeses, até dinamarqueses e suecos. A grande navegação oceânica estava aberta, e todos procuravam tirar partido dela. Só ficarão atrás aqueles que dominavam no antigo sistema comercial terrestre ou mediterrâneo e cujas rotas iam passando para o segundo plano: mal situados geograficamente, com relação as novas rotas e presos a um passado que ainda pesava sobre eles, serão os retardatários da nova ordem. A Alemanha e a Itália passarão para um plano secundário a pardos novos astros que se levantavam no horizonte: os países ibéricos, a Inglaterra, a França, a Holanda.
Em suma e no essencial, todos os grandes acontecimentos desta era, que se convencionou com razão chamar dos “descobrimentos”, articulam-se em um conjunto que não é senão um capítulo da história do começo europeu. Tudo que se passa são incidentes da imensa empresa comercial a que se dedicam os países da Europa a partir do séc. XV, e que lhes alargará o horizonte pelo Oceano afora. Não tem outro caráter a exploração da costa africana e o descobrimento e colonização das Ilhas pelos portugueses, o roteiro das Índias, o descobrimento da América, a exploração e ocupação de seus vários setores. É este último o capítulo que mais nos interessa aqui; mas não será, em sua essência, diferente dos outros. É sempre como traficantes que os vários povos da Europa abordarão cada uma daquelas empresas que lhes proporcionarão sua iniciativa, seus esforços, o acaso e as circunstâncias do momento em que se achavam. Os portugueses traficarão na costa africana com marfim, ouro, escravos; na Índia irão buscar especiarias. Para concorrer com eles, os espanhóis seguidos de perto pelos ingleses, franceses e demais procurarão outro caminho para o Oriente; a América, com que toparam nesta pesquisa, não foi para eles, a principio, senão um obstáculo oposto a realização de seus planos e que devia ser contornado. Todos os esforços se orientam então no sentido de encontrar uma passagem, cuja a existência se admitiu a priori. Os espanhóis situados nas Antilhas, desde o descobrimento de Colombo, exploram a parte central do continente: descobrirão o México; Vasco Núñes de Balboa (1475-1519) avistará o Pacífico; mas a passagem não será encontrada. Procura-se então mais para o sul: as viagens de João Dias de Sólis, de que resultará o descobrimento do Rio da Prata, não tiveram outro objetivo. Magalhães será seu continuador e encontrará o estreito que conservou seu nome e que constitui afinal a famosa passagem tão procurada, mas ela se revelará pouco praticável e se desprezará. Enquanto isto se passava no sul, as pesquisas se ativam para o norte; a iniciativa cabe aí aos ingleses, embora tomassem para isto o serviço de estrangeiros, pois não contavam ainda com pilotos nacionais bastante práticos para empresas de tamanho vulto. As primeiras pesquisas serão empregadas pelos italianos João Cabôto e seu filho Sebastião. Os portugueses também figurarão nesta exploração do Extremo Norte Americano com os irmãos Corte Real, que descobrirão o Labrador. Os franceses encarregarão o florentino Verazzano de iguais objetivos. Outros mais se sucedem, e embora tudo isso servisse para explorar e tornar conhecido o novo mundo, firmando a sua posse pelos vários países da Europa, não se encontrava a almejada passagem que hoje sabemos não existir[5]. Ainda em princípios do séc. XVIII, a Virginia Company of London incluía entre seus principais objetivos o descobrimento da brecha para o Pacífico que se esperava encontrar no continente.
Tudo isto lança muita luz sobre o espírito com que os povos da Europa abordam a América. A idéia de povoar não ocorre inicialmente a nenhum. É o comércio que os interessa, e daí o relativo desprezo por este território primitivo e vazio que é América; e inversamente, o prestígio do Oriente, onde não faltava objeto para atividades mercantis. A idéia de ocupar, não como se fizera até então em terras estranhas, apenas como agentes comerciais, funcionários e militares para a defesa, organizados em simples feitorias destinadas a mercadejar com os nativos e servir de articulação entre as rotas marítimas e os territórios ocupados; mas ocupar com povoamento efetivo, isto só surgiu como contingência, necessidade imposta por circunstâncias novas e imprevistas. Aliás, nenhum povo da Europa estava em condições naquele momento de suportar sangrias na sua população, que no século XVI ainda não se refizera de todo das tremendas devastações da peste que assolou o continente nos dois séculos precedentes. Na falta de censos precisos, as melhores probabilidades indicam que em 1500 a população da Europa ocidental não ultrapassava a do milênio anterior.

Nestas condições, “colonização” ainda era entendida como aquilo que dantes se praticava; fala-se em colonização, mas o que o termo envolve não é mais que o estabelecimento de feitorias comerciais, como os italianos vinham de longa data praticando no Mediterrâneo, a Liga Hanseática no Báltico, mais recentemente os ingleses, holandeses e outros no Extremo-Norte da Europa e no Levante; como os portugueses fizeram na África e na Índia. Na América a situação se apresenta de forma inteiramente diversa: um território primitivo habitado por rala população indígena incapaz de fornecer qualquer coisa de realmente aproveitável. Para os fins mercantis que se tinham em vista, a ocupação não se podia fazer como nas simples feitorias, com um reduzido pessoal incumbido apenas do negócio, sua administração e defesa armada; era preciso ampliar estas bases, criar um povoamento capaz de abastecer e manter as feitorias que se fundassem e organizar a produção dos gêneros que interessassem ao seu comércio. A idéia de povoar surge daí, e só daí.

Aqui ainda, Portugal foi um pioneiro. Seus primeiros passos, neste terreno, são nas ilhas do Atlântico, postos avançados, pela identidade de condições para os fins visados, do continente americano; e isto ainda no século XV. Era preciso povoar e organizar a produção: Portugal realizou estes objetivos brilhantemente. Em todos os problemas que se propõem desde que uma nova ordem econômica se começa a desenhar aos povos da Europa, a partir do século XV, os portugueses sempre aparecem como pioneiros. Elaboram todas as soluções até seus menores detalhes. Espanhóis, depois ingleses, franceses e os demais, não fizeram outra coisa, durante muito tempo, que navegar em sua águas; mas navegaram tão bem que acabaram suplantando os iniciadores e arrebatando-lhes a maior parte, se não praticamente todas as realizações e empresas ultramarinas.

Os problemas do novo sistema de colonização, envolvendo a ocupação de territórios quase desertos e primitivos, terão feição variada, dependendo em cada caso das circunstâncias particulares com que se apresentam. A primeira delas será a natureza dos gêneros aproveitáveis que cada um daqueles territórios proporcionará. A princípio, naturalmente, ninguém cogitará de outra coisa que produtos espontâneos extrativos. É ainda quase o antigo sistema das feitorias puramente comerciais. Serão as madeiras, de construção ou tinturarias (como o pau-brasil entre nós) na maior parte deles; também as peles de animais e a pesca no Extremo-Norte, como na Nova Inglaterra; a pesca será particularmente ativa nos bancos da Terra Nova, onde desde os primeiros anos do século XVI, possivelmente até antes, se reúnem ingleses, normandos, Vasconcelos. Os espanhóis serão os mais felizes: toparão desde logo nas áreas que lhes couberam, com os metais preciosos, a prata e o ouro do México e Peru. Mas os metais, incentivo e base suficiente para o sucesso de qualquer empresa colonizadora, não ocupam na formação da América, senão um lugar relativamente pequeno. Impulsionarão o estabelecimento e ocupação da colônias espanholas citadas; mais tarde, já no século XVIII, intensificarão a colonização portuguesa na América do Sul e a levarão para o centro do continente. Mas é só. Os metais, que a imaginação escaldante dos primeiros exploradores pensava encontrar em qualquer território novo, esperança reforçada pelas prematuras descobertas castelhanas, não se revelaram tão disseminados como se esperava. Na maior extensão da América ficou-se a princípio exclusivamente nas madeiras, nas peles, na pesca; e a ocupação de territórios, seus progressos e flutuações, subordinam-se por muito tempo ao maior ou menor sucesso daquelas atividades. Viria depois, em substituição, uma base econômica mais estável, mais ampla: seria a agricultura.

Não é meu intuito entrar aqui nos pormenores e vicissitudes da colonização européia na América. Mas podemos, e isto muito interessa ao nosso assunto, distinguir duas áreas diversas, além daquela em que se verificou a ocorrência de metais preciosos, em que a colonização toma rumos inteiramente diversos. São elas as correspondem respectivamente às zonas temperadas, de um lado; tropical e subtropical, do outro. A primeira, que compreende grosseiramente o território americano ao norte da baía de Delaware (a outra extremidade temperada do continente, hoje países platinos e Chile, esperará muito tempo para tomar forma e significar alguma coisa), não ofereceu realmente nada de muito interessante e permanecerá ainda por muito tempo adstrita à exploração de produtos espontâneos: madeiras, peles, pesca. Na Nova Inglaterra, nos primeiros anos da colonização, viam-se até com maus olhos quaisquer tentativas de agricultura que desviavam das feitorias de peles e pesca as atividades dos poucos colonos presentes[6]. Se povoou esta área temperada, o que aliás só ocorreu depois do século XVII, foi por circunstâncias muito especiais. É a situação interna da Europa, em particular da Inglaterra, as suas lutas político-religiosas, que desviam para a América as atenções de populações que não se sentem à vontade e vão procurar ali abrigo e paz para as suas convicções. Isto durará muito tempo; pode-se mesmo assimilar o fato, idêntico no fundo, a um processo que se prolongará, embora com intensidade variável, até os tempos modernos, o século passado. Virão para a América, puritanos e Quakers da Inglaterra, Huguenotes da França, mais tarde morávios, shwenkfelders, inspiracionalistas e menonitas da Alemanha meridional e Suíça. Durante mais de dois séculos desperjar-se-á na América todo resíduo das lutas político-religiosas da Europa. É certo que se espalhará por todas as colônias; até no Brasil, tão afastado e por isso tanto mais ignorado, procurarão refugiar-se huguenotes franceses (França Antártica, no Rio de Janeiro). Mas se concentrará quase inteiramente nas da zona temperada, de condições naturais mais afins às da Europa, e por isso preferida para quem não buscava “fazer a América”, mas unicamente abrigar-se dos vendavais políticos que varriam a Europa, e reconstruir um lar desfeito ou ameaçado.
Há um fator econômico que também concorre na Europa para este tipo de emigração. É a transformação econômica sofrida pela Inglaterra no correr do século XVI, e que modifica profundamente o equilíbrio interno do país e a distribuição de sua população. Esta é deslocada em massa dos campos, que de cultivados se transformam em pastagens para carneiros cuja lã iria abastecer a nascente industrial têxtil inglesa. Constitui-se ai uma fonte de correntes migratórias que abandonam o campo e vão encontrar na América, que começa a ser conhecida, um largo centro de afluência. Também estes elementos escolherão de preferência, e por motivos similares, as colônias temperadas. Os que se dirigirão mais para o sul, para as colônias incluídas na zona subtropical da América do Norte, porque nem sempre lhes foi dado escolher seu destino com conhecimento de causa, o farão apenas, no mais das vezes, provisoriamente: o maior número deles refluirá mais tarde e na medida do possível, para as colônias temperadas.

São assim circunstâncias especiais, que não tem relação direta com ambições de traficantes ou aventureiros, que promoverão a ocupação intensiva e o povoamento em larga escala da zona temperada da América. Circunstâncias aliás que surgem posteriormente ao descobrimento do Novo Continente, e que não se filiam à ordem geral e primitiva de acontecimentos que impelem os povos da Europa para o ultramar. Daí derivará um novo tipo de colonização – será o único em que os portugueses não serão os pioneiros – que tomará um caráter inteiramente apartado dos objetivos até então dominantes neste gênero de empresas. O que os colonos desta categoria tem em vista é construir um novo mundo, uma sociedade que lhes ofereça garantias que no continente de origem já não lhe são mais dadas. Seja por motivos religiosos ou meramente econômicos (estes impulsos, aliás, se entrelaçam e sobrepõem), a sua subsistência se tornara lá impossível ou muito difícil. Procuram então uma terra ao abrigo das agitações e transformações da Europa, será naturalmente uma sociedade, que embora com caracteres próprios, terá semelhança pronunciada à do continente de onde se origina. Será pouco mais que simples prolongamento dele.

Muito diversa é a história da área tropical e subtropical da América. Aqui a ocupação e o povoamento tomarão outro rumo. Em primeiro lugar, as condições naturais, tão diferentes do habitat de origem dos povos colonizadores, repelem o colono que vem como simples povoador, da categoria daquele que procura a zona temperada. Muito se tem exagerado a inadaptabilidade do branco aos trópicos, meia verdade apenas que os fatos tem demonstrado e redemonstrado falha em um cem número de casos. O que há nela acertado é uma falta de predisposição, em raças formadas em climas mais frios e por isso afeiçoadas a eles, em suportarem os trópicos e se comportarem similarmente neles. Mas falta de predisposição apenas, e que não é absoluta, corrigindo-se pelo menos em gerações subseqüentes, por um novo processo de adaptação. Contudo, se aquela afirmação posta em termos absolutos é falsa, não deixa de ser verdadeira no caso vertente, isto é, nas circunstâncias em que os primeiros povoadores vieram encontrar a América. São trópicos brutos e indevassados que se apresentam, uma natureza hostil e amesquinhadora do homem, semeada de obstáculos imprevisíveis sem conta para que o colono europeu não estava preparado e contra que não contava com nenhuma defesa. Aliás a dificuldade do estabelecimento de europeus civilizados nestas terras americanas, entregues ainda ao livre jogo da natureza, é comum também à zona temperada. Respondendo a teorias apressadas e muito em voga (são as contidas no livro famoso de Turner, The frontier in American History), um recente escritor norte-americano analisa este fato com grande atenção, e mostra que a colonização inglesa na América, realizando-se embora numa zona temperada, só progrediu à custa de um processo de seleção de que resultou um tipo pioneiro, o característico yankee, que dotado de aptidão e técnica particulares foi marchando na vanguarda e abrindo caminho para as levas mais recentes de colonos que afluíam da Europa[7]. Se assim foi numa zona que afora o fato de estar indevassada, se aproxima tanto por suas condições naturais do meio europeu, que não seria dos trópicos?

Para estabelecer-se aí, o colono europeu tinha de encontrar estímulos diferentes e mais fortes que os que o impelem para as zonas temperadas. De fato assim aconteceu, embora em circunstâncias especiais que por isso também particularizarão o tipo de colono branco dos trópicos. A diversidade de condições naturais, em comparação com a Europa, que acabamos de ver como um empecilho ao povoamento, se revelaria por outro lado um forte estímulo. É que tais condições proporcionarão aos países da Europa a possibilidade da obtenção de gêneros que lá fazem falta. E gêneros de particular atrativo. Coloquemo-nos naquela Europa anterior ao século XVI, isolada dos trópicos, só indireta e longinquamente acessíveis, e imaginemo-la, como de fato estava, privada quase inteiramente de produtos que se hoje, pela sua banalidade, parecem secundários, eram então prezados como requintes de luxo. Tome-se o caso do açúcar, que embora se cultivasse em pequena escala na Sicília, era artigo de grande raridade e muita procura, até nos enxovais de rainha ele chegou a figurar como dote precioso e altamente prezado. A pimenta importada do Oriente, constituiu durante séculos o principal ramo do comércio das repúblicas mercadoras italianas, e a grande e árdua rota das Índias não serviu muito tempo para outra coisa mais que abastecer dela a Europa. O tabaco originário da América e por isso ignorado antes do descobrimento, não teria, depois de conhecido menor importância. E não será este também, mais tarde, o caso do anil, do arroz, do algodão e de tantos outros gêneros tropicais?

Isto nos dá a medida do que representariam os trópicos como atrativo para a fria Europa, situada tão longe deles. A América lhe poria a disposição, em tratos imensos, territórios que só esperavam a iniciativa e o esforço do Homem. É isto que estimulará a ocupação dos trópicos americanos. Mas trazendo este agudo interesse, o colono europeu não traria com ele a disposição de pôr-lhe a serviço, neste meio tão difícil e estranho, a energia do seu trabalho físico. Viria como dirigente da produção de gêneros de grande valor comercial, como empresário de um negócio rendoso; mas só a contragosto como trabalhador. Outros trabalhariam para ele.

Nesta base se realizaria uma primeira seleção entre os colonos que se dirigem respectivamente para um e outro setor do novo mundo; o temperado e os trópicos. Para estes, o europeu só se dirige, de livre e espontânea vontade, quando pode ser um dirigente, quando dispõe de cabedais e aptidões para isso; quando conta com outra gente que trabalha para ele. Mais uma circunstância vem reforçar esta tendência e discriminação. É o caráter que tomará a exploração agrária nos trópicos. Esta se realizará em larga escala, isto é, em grandes unidades produtoras – fazendas, engenhos, plantações (as plantations das colônias inglesas)- que reúnem cada qual um número relativamente avultado de trabalhadores. Em outras palavras, para cada proprietário (fazendeiro, senhor ou plantador), haveria muitos trabalhadores subordinados e sem propriedade. Voltarei em outro capítulo, com mais vagar, sobre as causas que determinaram este tipo de organização de produção tropical. A grande maioria dos colonos estava assim nos trópicos condenada a uma posição dependente e de baixo nível; ao trabalho em proveito de outros e unicamente para a subsistência própria de cada dia. Não era para isto, evidentemente, que se emigrava da Europa para a América. Assim mesmo, que se adotasse universalmente nos trópicos americanos a mão-de-obra escrava de outras raças, indígenas do continente ou negros africanos importados, muitos colonos europeus tiveram de se sujeitar, embora a contragosto, aquela condição. Ávidos de partir para a América, ignorando muitas vezes seu destino certo, ou decididos a um sacrifício temporário, muitos partiram para se enganjar nas plantações tropicais como simples trabalhadores. Isto ocorreu particularmente, em grande escala, nas colônias inglesas: Virginia, Maryland, Carolina. Em troca do transporte, que não podiam pagar, vendiam seus serviços por um certo lapso de tempo. Outros partiram como deportados; também menores abandonados ou vendidos pelos pais ou tutores eram levados naquelas condições para a América a fim de servirem até a maioridade. É um escravidão temporária, que será substituída inteiramente em meados do século XVII, pela definitiva de negros importados. Mas a maior parte daqueles colonos só esperava o momento oportuno para sair da condição que lhes fora imposta; quando não conseguiam estabelecer-se como plantador e proprietário por conta própria – o que é exceção naturalmente – emigravam logo que possível para as colônia temperadas, onde ao menos tinham um gênero de vida mais afeiçoado a seus hábitos e maiores oportunidades de progresso. Situação de instabilidade do trabalho nas plantações do sul, que durará até a adoção definitiva e geral do escravo africano. O colono europeu ficará então aí na única posição que lhe competia: de dirigente e grande proprietário rural.

Nas demais colônias tropicais, inclusive no Brasil, não se chegou nem a ensaiar o trabalhador branco, isto por que nem a Espanha e nem Portugal, a que pertencia a maioria delas, havia como na Inglaterra, braços disponíveis e dispostos a emigrar a qualquer preço. Em Portugal a população era tão insuficiente que a maior parte do seu território se achava ainda, em meados do século XVI, inculto e abandonado; faltavam braços por toda parte, e empregava-se em escala crescente mão-de-obra escrava, primeiro dos mouros, tanto dos que tinham sobrado da antiga dominação árabe, como no dos prisioneiros das guerras que Portugal levou desde princípios do século XV para seus domínios do norte da África; como depois, de negros africanos, que começam a afluir para o reino desde meados daquele século. Lá por volta de 1550, cerca de 10% da população da Lisboa era constituída de escravos negros[8]. Nada havia portanto que provocasse no reino um êxodo da população; e é sabido como as expedições do Oriente depaupearam o país, datando de então, e atribuível em grande parte a esta causa, a precoce decadência lusitana.

Além disso, portugueses e espanhóis, particularmente estes últimos, encontram nas suas colônias indígenas que se puderam aproveitar como trabalhadores. Finalmente, os portugueses tinham sido precursores, nisto também, desta feição particular do mundo moderno: a escravidão de negros africanos; e dominavam os territórios que os forneciam. Adotaram-na por isso em sua colônia quase que de início – possivelmente de início mesmo – precedendo os ingleses, sempre imitadores retardatários, de quase um século[9].

Como se vê, as colônias tropicais tomaram um rumo inteiramente diverso do se suas irmãs da zona temperada. Enquanto nestas se constituirão colônias propriamente de povoamento (o nome ficou consagrado depois do trabalho clássico de Leroy-Beaulieu De la colonisation chez lês peuples moderns), escoadouro para excessos demográficos da Europa que reconstituem no novo mundo uma organização e uma sociedade à semelhança do seu modelo e origem europeus; nos trópicos, pelo contrário, surgirá um tipo de sociedade inteiramente original. Não será a simples feitoria comercial, que já vimos irrealizável na América. Mas conservará no entanto um acentuado caráter mercantil; será a empresa do colono branco, que reúne a natureza pródiga, em recursos aproveitáveis para a produção de gêneros de grande valor comercial, o trabalho recrutado entre raças inferiores que domina: indígenas ou negros africanos importados. Há um ajustamento entre os tradicionais objetivos mercantis que assinalam o início da expansão ultramarina da Europa, e que são conservados, e as novas condições em que se realizará a empresa. Aqueles objetivos que vemos passar para o segundo plano nas colônias temperadas, se manterão aqui, e marcarão profundamente feição das colônias do nosso tipo, ditando-lhes o destino. No seu conjunto, e vista no plano mundial e internacional, a colonização dos trópicos toma o aspecto de uma vasta empresa comercial, mais completa que antiga feitoria, mas sempre com o mesmo caráter que ela, destinada a explorar os recursos naturais de um território virgem em proveito do comércio europeu. É este o verdadeiro sentido da colonização tropical, de que o Brasil é uma das resultantes; e ele explicará os elementos fundamentais, tanto no econômico como no social, da formação e evolução históricas dos trópicos americanos.

É certo que a colonização da maior parte, pelos menos destes territórios tropicais, inclusive o Brasil, lançada e prosseguida em tal base, acabou realizando alguma coisa mais que um simples “contacto fortuito“ dos europeus com o meio, na feliz expressão de Gilberto Freyre, a que a destinava o objetivo inicial dela; e que em outros lugares semelhantes a colonização européia não conseguiu ultrapassar: assim na generalidade das colônias tropicais da África, da Ásia e da Oceania; nas Guianas e algumas Antilhas, aqui na América. Entre nós foi-se além do sentido de constituir nos trópicos uma “sociedade com característicos nacionais e qualidades de permanência” [10], e não se ficou apenas nesta simples empresa de colonos brancos distantes e sobranceiros.

Maus um tal caráter mais estável, permanente, orgânico, de uma sociedade própria e definida, só se revelaria aos poucos, dominado e abafado que é pelo que o precede, e que continuará mantendo a primazia e ditando os traços essenciais da nossa evolução colonial. Se vamos à essência da nossa formação, veremos que na realidade nos constituímos para fornecer açúcar, tabaco, alguns outros gêneros, mais tarde ouro e diamantes, depois algodão e em seguida café, para o comércio europeu. Nada mais que isto. É com tal objetivo exterior, voltado pra fora do país e sem atenção a considerações que não fossem o interesse daquele comércio, que se organizarão a sociedade e a economia brasileira. Tudo se disporá naquele sentido: a estrutura, bem como as atividades do país. Virá o branco europeu para especular, realizar um negócio; inverterá seus cabedais e recrutará a mão-de-obra que precisa: indígenas ou negros importados. Com tais elementos articulados, numa organização puramente produtora, industrial, se constituirá a colônia brasileira. Este início, cujo caráter se manterá dominante através dos três séculos que vão até o momento em que ora abordamos a história brasileira, se gravara profunda e totalmente nas feições e na vida do país. Haverá resultantes secundárias que tendem para algo de mais elevado; mas elas ainda mal se fazem notar. O “sentido” da evolução brasileira que é o que estamos aqui indagando, ainda se afirma por aquele caráter inicial da colonização. Tê-lo em vista é compreender o essencial deste quadro que se apresenta em princípios do século passado e que passo agora a analisar.



[1] Mata de cipós, dificuldade
[2] Cabotagem é a navegação realizada entre portos interiores do país pelo litoral ou por vias fluviais. A cabotagem se contrapõe à navegação de longo curso, ou seja, aquela realizada entre portos de diferentes nações.
[3] Um estuário é a parte de um rio que se encontra em contato com o mar. Por esta razão, um estuário sofre a influência das marés e possui tipicamente água salobra.
[4] Périplo: Viagem de circum navegação
[5] Também se tentou a partir de meados do século XVI, a passagem para o Oriente pelas regiões árticas da Europa e Ásia. A iniciativa cabe ao mesmo Sebastião Caboto, que já encontramos na América, e mais uma vez a serviço dos ingleses (1533)
[6] Marcus Lee Hansen, The Atlantic Migration, 1607-1680, 13.
[7] Marcus Lee Hansen, The Immigrant in American History veja-se o capítulo Immigrations and Expasion
[8] História da Colonização Portuguesa do Brasil. Introdução, vol. III, pág. XI
[9] Não se sabe ao certo quando chegaram os primeiros negros ao Brasil; há grandes probabilidades de terem vindo já na expedição de Martim Afonso de Souza em 1531. Na América do Norte, a primeira leva de escravos africanos foi introduzida por traficantes holandeses em Jamestown (Virgínia) em 1619.
[10] Gilberto Freyre, Casa Grande Senzala, 16